Holanda

Suado pra dedéu

Em 1994, após o pênalti perdido por Roberto Baggio, na decisão de tiros da marca penal, que deu o quarto título mundial ao Brasil, o narrador da Rádio Globo fluminense, José Carlos Araújo, apregoava ao microfone: “O tetra chegou! O tetra chegou! Suado pra dedéu!” Pois foi exatamente assim que o Standard conseguiu o sonhado bicampeonato nacional, na Bélgica: superando, mais do que os outros clubes, os furos de seu próprio barco. Algumas alfinetadas entre jogadores, a pressão dos clubes de centros maiores para comprar as revelações dos Rouches, a maior regularidade do Anderlecht.

Talvez, a arrancada definitiva para o título tenha vindo, mais do que com a vitória contra o Racing Genk, com o pênalti defendido por Bolat, como descrito na última coluna. Se a injeção de ânimo não fez com que todos os problemas fossem instantaneamente resolvidos, é evidente que deu a todos os integrantes do elenco do time de Sclessin a exata ciência de que, sim, ainda havia chance de título, apesar dos pesares. E que os dois jogos-desempate contra os Mauves recolocavam toda a briga pelo título na estaca-zero.

O empate no Constant Vanden Stock, pelo jogo de ida da “decisão” da Jupiler League, foi uma ajuda a mais para manter o ânimo. Sim, o Anderlecht acabou abrindo o placar, mesmo após um primeiro tempo em que a equipe de Laszlo Bölöni foi muito melhor. Mas o fato de Mbokani não demorar muito a empatar (apenas oito minutos depois do tento de Legear) deu novamente a calma necessária aos visitantes.

Aliás, a performance durante o jogo de ida mostrou que o Standard havia, mesmo que por vias tortas, retornado ao velho nível. Dalmat conseguia levar bem a bola, vindo de trás, e entregá-la a Defour e Igor de Camargo. No ataque, a dupla Jovanovic-Mbokani perturbava constantemente a defesa do Anderlecht, como que relembrando os grandes desempenhos do título de 2007/08.

E, finalmente, Witsel. O “Chuteira de Ouro” de 2008 foi o ponto de desequilíbrio do desempate: cresceu demais de produção, ajudando o ataque, a marcação, até finalizando, enfim, um leão a envergar a camisa vermelha dos Liègeoises. O empate arrancado em Bruxelas deu a confiança definitiva de que o Standard precisava, para continuar mantendo a empolgação em alta e dar motivos para que a sempre fanática torcida justificasse sua efervescência na partida de volta. A expulsão de Mulemo, no fim do jogo, pelo segundo cartão amarelo, nem pareceu afetar o time.

Foi o que aconteceu. O ambiente do Maurice Dufrasne foi descrito pelo site oficial da Jupiler League como “o inferno de Sclessin”. Se o objetivo principal era manter o ânimo do time nas alturas, bem como fazer o Anderlecht sentir efetivamente o peso da necessidade de vencer fora de casa para poder garantir o título, a pressão foi sabiamente utilizada – pelo menos na maioria das vezes, já que houve excessos, como nos sinalizadores que vez por outra caíam em campo.

Só faltava um gol para que se pudesse ter mais segurança em apostar que o Standard manteria a taça em sua sala de troféus. Ele veio aos 38 minutos do 1º tempo: após pênalti de Bernardez em Mbokani – controverso, diga-se de passagem -, Witsel foi cobrar, bateu com frieza admirável e abriu o placar. O vídeo do pênalti mostra como o Maurice Dufrasne quase veio abaixo com a comemoração.

Dali para frente, o Anderlecht se perdeu irremediavelmente. A equipe que tivera no comportamento imperturbável e na serenidade sua principal característica ao longo do campeonato não conseguiu chegar com muito perigo à meta de Bolat. Não foi nem o caso de acabar recorrendo à violência em campo, mas sim da apatia. Ariël Jacobs apelou até para o novato Romelo Lukaku, atacante de 16 anos, colocado no lugar de Bernardez.

Mas o RSCA acabou sofrendo o golpe mais duro em suas esperanças num lance de azar, quando, aos 15 minutos, já no segundo tempo, Boussoufa, a principal esperança, chocou-se com Bolat, em jogada aérea pela bola, e caiu desmaiado no chão. O marroquino continuou no jogo, mas teve constatadas, depois, fratura dupla na mandíbula e concussão cerebral.

Todavia, o bicampeonato – e a belíssima festa iniciada no estádio (com invasão de campo e tudo o mais, como este vídeo mostra) e continuada nas lotadíssimas ruas de Liège – não deve esconder a realidade: mesmo com as atuações nos dois jogos-desempate, que fizeram lembrar o brilhantismo do ano passado, algo se perdeu no caminho. O fim da temporada deve ser marcado por várias despedidas. Por incrível que pareça, Witsel, o personagem máximo das duas decisões, nem é tão cortejado assim. Nem Mbokani, que, bem ou mal, voltou a ser referência no ataque.

Por outro lado, Onyewu já anunciara o adeus antes mesmo do fim do campeonato; Defour é sonho antigo do Aston Villa, que voltará à carga pelo meia na janela de transferências; Jovanovic também pode ir embora, conforme afirmou logo depois da final (“Posso até seguir meu coração e ficar, mas também devo pensar no resto de minha carreira, já tenho 28 anos.”); eclipsado pela ascensão fulgurante de Bolat, Espinoza está com as malas prontas, para Benfica ou Olympiacos; e até Laszlo Bölöni ainda é considerado como candidato para assumir a seleção belga.

Mangala, Carcela-Gonzalez, Benteke, o marfinense Gohi Bi; desses jogadores deve depender o sonho da continuidade para o Standard, que consolidou novamente o status de “time grande”.

Tudo novo. De novo?

A escolha do Ajax para o substituto de Marco van Basten foi surpreendente. E não foi. Foi porque, tendo levado o Hamburg às semifinais da Copa Uefa, não se pode dizer que Martin Jol estivesse sendo uma negação no clube hanseático, mesmo com o fim de campanha frustrante na Bundesliga. E não foi porque os problemas com a direção do clube alemão já vinham sendo comentados à boca pequena, com uma saída de Jol próxima de acontecer.

À primeira vista, a volta ao futebol holandês pode parecer um passo atrás ao ex-técnico do Tottenham. Afinal de contas, Jol deixa uma imagem que começava a se tornar mais e mais sólida para arriscar tudo na casa da mãe Joana que tem sido a Amsterdam ArenA. Caso receba do diretor Rik van den Boog a tarefa de recomeçar a reformulação já iniciada, do zero, Jol pode se complicar, e o Ajax pode perder mais terreno do que já perdeu. Além disso, é preciso levar em consideração que, no futebol holandês, o nativo de Haia só treinou Roda JC e RKC Waalwijk.

Agora, também há os pontos bons da contratação. Jol tem mostrado bastante consciência no caminhar de sua carreira. Aprendeu o caminho das pedras enquanto era auxiliar de Jacques Santini, no Tottenham, para, ao assumir efetivamente o comando, não decepcionar nos Spurs, solidificando o time. No Hamburg, pôde colocar ainda mais em prática o que aprendeu. Se não tiver uma tarefa pesada demais sobre seus ombros, pode conseguir desanuviar o clima pesado no elenco dos Ajacieden.

E além disso, Jol parece ter a habilidade de conseguir levar os problemas internos de modo mais hábil do que o por vezes frio e intransigente Van Basten, além de parecer mais bonachão. Tanto que o brasileiro Leonardo, que já declarara o desejo de deixar os Godenzonen – provavelmente, rumo ao Panathinaikos – já parece mais afeito a considerar a ideia da permanência, conforme declarações: “Conheço Jol dos tempos de Roda JC. Ele me parece uma boa pessoa.”. Na entrevista coletiva de apresentação, o técnico mostrou saudável ambição (“Se você treina o Ajax, você deve ganhar pelo menos um título a cada dois anos”). É esperar para ver.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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