Ataque disputado na seleção da temporada na Holanda
O Campeonato Holandês 2012/13 teve um nível agradável. Não necessariamente bom, mas agradável, tão agradável quanto a edição de 2011/12 já fora. Houve um jogo elogiável aqui, outro ali; defesas absolutamente (e absurdamente, diga-se de passagem) ingênuas; talentos surgindo. Aliás, talvez a média de promessas que apareceram nessa temporada tenha sido o fato mais notável. Basta notar que há vários destaques da Eredivisie na lista de 23 jogadores que defenderão a Holanda no Campeonato Europeu Sub-21.
Mas fazer esta seleção dos melhores jogadores do Holandês que vai se encerrando teve uma dificuldade muito grande: escalar o seu atacante, dentro de um 4-2-3-1, esquema básico do futebol nos dias atuais (e no qual o time está montado). Afinal de contas, o Holandês desta temporada foi pródigo em atacantes “finalizadores” que viveram boa fase. E quem poderia ser o escolhido? Pellè, o catalisador que levou o Feyenoord a fazer outra boa campanha? Finnbogason, fundamental para a leve ascensão do Heerenveen? Altidore, um dos únicos motivos de alegria que o AZ teve no ano? Ou Bony, com desempenho digno de atenção de toda a Europa no Vitesse?
Hora de conferir, então, qual foi a escolha da coluna. Facilitada em algumas posições – por exemplo, as duas laterais. Dificílima na hora de escolher “o homem-gol” do time. Mas está feita a seleção da temporada na Holanda. Evidentemente, pitacos e cornetadas são sempre bem-vindos. Ah, sim: depois da escalação (e das devidas explicações), um aviso.
Kenneth Vermeer
Inseguro. Elétrico demais. Não passa segurança. O goleiro do Ajax dera motivos para todas essas críticas, nas poucas oportunidades que recebera até virar titular, em 2011, com a saída de Stekelenburg. E Vermeer continua não sendo o goleiro perfeito. Mas, em 2012/13, deu um salto de qualidade, é preciso reconhecer.
Aprimorou o jogo com os pés, sua principal qualidade desde sempre – e algo fundamental no estilo atual de jogo do Ajax. E se tornou um pouco mais confiável com as mãos. Louis van Gaal já lhe deu um voto de confiança, fazendo-o titular da seleção holandesa. É preciso reconhecer que Vermeer evoluiu. E fez a melhor temporada de sua carreira.
Daryl Janmaat
A disputa pelo posto de melhor lateral direito do Campeonato Holandês foi também a disputa pelo posto de titular do setor na Oranje. E Ricardo van Rhijn começou-a em vantagem, mostrando o talento habitual dos últimos laterais holandeses no avanço, mas trazendo um pouco mais de consciência defensiva. Daryl Janmaat até marcava melhor, mas como era discreto no apoio, parecia perder a disputa. Pior: nas chances que teve com a camisa laranja, demonstrou insegurança até na marcação.
Mas Janmaat se aprumou, Van Rhijn decaiu na marcação, deixou de ser protagonista até no Ajax… e o jogador do Feyenoord assumiu a dianteira nas duas disputas. Numa delas, ainda não é o vencedor: Van Rhijn segue na reserva da seleção, à espreita. Mas, que Janmaat tornou-se o melhor lateral direito da temporada na Holanda, difícil discordar.
Toby Alderweireld
Jan Vertonghen, enfim, alcançou a transferência para a qual já estava pronto havia algum tempo. E enquanto o compatriota ganhou quase imediatamente o status de “indispensável” no Tottenham, o belga Alderweireld ficou segurando as barras no Ajax. Mas como já estava bem preparado para a tarefa, sentiu pouco o impacto.
E assumiu sem problemas o papel de líder da defesa, já que o reforço Moisander, também promissor, viveu momentos de dificuldade. Embora ainda um tanto afobado, Alderweireld demonstra tanta técnica quanto Vertonghen. Talvez, em mais uma temporada, consiga polir seus defeitos e ficar pronto para alcançar o respaldo que seu ex-companheiro de zaga já alcançou no resto da Europa.
Bruno Martins Indi
A bem da verdade, Martins Indi nem deveria ser escalado aqui, mas sim na lateral esquerda, onde é comumente escalado no Feyenoord. Só que Daley Blind foi soberano nesta posição. De mais a mais, o holandês nascido em Portugal mostrou mais talento quando atuou no miolo de zaga, pela seleção – e até no Stadionclub, mais esporadicamente.
Martins Indi exibiu capacidade de subir ao ataque e ser perigoso nas jogadas aéreas, além de um senso de antecipação promissor, o que minora o conhecido perigo de ser vítima do estereótipo do “zagueiro grandalhão mas lento”. Caso consiga o que deseja (isto é, ser escalado mais vezes como quarto-zagueiro no Feyenoord), Bruno deve ascender ainda mais, melhorando a imponência já vista em 2012/13.
Daley Blind
Não se pode dizer que Daley Blind é uma revelação: o filho de Danny, hoje auxiliar de Louis van Gaal na seleção, já é profissional no Ajax há cinco anos. Mas já se cogitava a hipótese de ser um foguete molhado. Nunca conseguira decolar, nem improvisado na zaga, nem na lateral esquerda, sua posição de origem. Já fora emprestado ao Groningen, em 2010, retornara e… nada. Não conseguia cumprir as expectativas.
Enfim, nesta temporada, conseguiu. Blind apresentou equilíbrio quase perfeito entre marcação e apoio, coisa que falta em quase todos os laterais holandeses. Num momento de entressafra na posição dentro do país (Jetro Willems e Erik Pieters ainda não saíram a contento), bastou para assumir a titularidade na seleção. Bastou para ser eleito pela torcida do Ajax o melhor do clube na temporada. E bastou para que, enfim, Daley Blind decolasse. Já era hora.
Marco van Ginkel
Se o Vitesse fez uma das melhores campanhas de sua história no Campeonato Holandês, muito disso se deve ao jovem meio-campista de 20 anos. Pela escalação, Van Ginkel poderia até parecer um volante daqueles mais preocupados com a marcação. E até é. Mas exibe um talento incomum na saída de bola, para iniciar jogadas ofensivas. Para completar, ainda teve como parceiro Theo Janssen, mais experiente, que também tem qualidades na saída de bola.
Com isso, Van Ginkel cresceu demais de produção. Já era visto como revelação desde que surgiu no clube, em 2010, é verdade. Mas a capacidade de marcar firme e também sair para o ataque pode estar formando um meio-campista completo. A tal ponto que Van Ginkel deverá ser titular da Jong Oranje no Europeu Sub-21. Eis aí um cidadão que teve ótima temporada, e pode ter muitas mais se continuar evoluindo tecnicamente.
Jordy Clasie
Certo, Graziano Pellè é que foi o grande protagonista do Feyenoord na temporada, fazendo gols a rodo. Mas de nada adiantaria o italiano viver fase esplendorosa se o meio-campo não colaborasse na criação de jogadas. Até porque Pellè está longe, muito longe, de ser daqueles atacantes que esbanjam habilidade a ponto de voltarem para o meio-campo e criarem as próprias jogadas de gol. Aí entra Jordy Clasie.
No 4-3-3 com que Ronald Koeman arma o Feyenoord, o meio-campista é peça fundamental. Porque tanto pode ajudar na marcação (embora não seja o seu papel) como sabe criar jogadas, exibindo impressionante capacidade de torná-las resumidas, com passes em profundidade. Além disso, Clasie exibe um espírito de liderança bem desenvolvido, para seus 21 anos. Que serviu para colocá-lo como homem fundamental na seleção sub-21 da Holanda. E também como protagonista em mais uma boa campanha do Feyenoord.
Christian Eriksen
O colunista precisa dizer que nunca achara Eriksen um jogador tão promissor quanto já se falou por aí. O dinamarquês tem talento inquestionável, é verdade, mas ainda parecia frio demais. Não era daquele jogador que define um jogo, que se sobressai, que clareia os caminhos quando eles parecem fechados. Pelo menos, era assim até a temporada atual, quando o meio-campista ajudou o Ajax a vencer jogos equilibrados demais – como o 1 a 0 contra o Twente, na sexta rodada, quando um chute fora da área venceu o forte esquema defensivo dos Tukkers, ou o decisivo 3 a 2 contra o PSV, na 30ª rodada, quando marcou importantíssimo gol.
E mesmo ao armar o jogo, tarefa que lhe cabe no Ajax, Eriksen apareceu mais nesta temporada, foi mais decisivo, tentou justificar o status de destaque que lhe é muito atribuído. Somando-se isso à inteligência habitual, não é de se espantar que esta tenha sido a melhor temporada de sua carreira. Nem que sua saída para um centro maior do futebol europeu (fala-se em Alemanha) seja quase certa. Nem que Morten Olsen, técnico da seleção dinamarquesa, fale isso sobre ele: “Acho que Christian está num estágio mais avançado do que Van der Vaart e Sneijder estavam, na idade dele”. Nada mal.
Filip Djuricic
Alfred Finnbogason foi o destaque indiscutível no ano irregular do Heerenveen. Com 24 gols, o islandês melhorou ainda mais na parte final da temporada, o que ajudou o clube da Frísia a engatar sequência de cinco vitórias consecutivas, possibilitando que uma campanha passada quase sempre na metade de baixo da tabela terminasse com uma vaga nos play-offs por uma vaga na Liga Europa – o que já valeu alguma coisa. Mas pouco se falou que Finnbogason só pôde ter desempenho tão bom no ataque porque Filip Djuricic fez o serviço mais cerebral.
O sérvio de 21 anos já se apresentava com tamanho talento na armação das jogadas, quando era escalado no meio-campo, que não houve como não adiantá-lo para o trio de atacantes. Ali, Djuricic também deu mais talento, que fez sucesso aliado ao faro de gol de Finnbogason. Só que foi o sérvio que recebeu mais atenção, por sua habilidade. E terá oportunidade de provar, no Benfica, seu novo clube, que mereceu a oportunidade vinda exatamente por ser um dos melhores meias-atacantes da Eredivisie.
Siem de Jong
É bem certo que Siem, tão decisivo nos últimos dois títulos, fraquejou um pouco na parte final da campanha deste terceiro título consecutivo do Ajax. No entanto, o camisa 10 da equipe foi muito útil durante os dois primeiros terços dela. Novamente, ofereceu uma variedade importante ao esquema tático do Ajax, ao poder ser escalado tanto no miolo do ataque como na armação, sem prejuízo da qualidade.
Para finalizar: Fischer foi a grande revelação, Eriksen assumiu o protagonismo que lhe faltava, mas o irmão de Luuk é que foi o artilheiro do Ajax na temporada, com 12 gols. Isto é, Siem poderia ter sido ainda mais decisivo, mas ainda é um dos protagonistas do Ajax. Já está absolutamente maduro para uma transferência a um campeonato mais reconhecido. Aliás, é até injusto que ela ainda não tenha ocorrido.
Wilfried Bony
O atacante marfinense já vem sendo convocado para a seleção de seu país há algum tempo – precisamente, desde 2010. Seus primeiros torneios com a camisa dos Elefantes foram as Copas Africanas de Nações, em 2012 e 2013. Neles, Bony foi inscrito com a camisa 12. Como se fosse o reserva imediato de Drogba, o primeiro reserva em importância. Alguém que já tem lá sua importância, mas que precisa esperar um pouco até virar protagonista. Mas isso é na seleção. Porque, no Vitesse, Bony foi mais do que protagonista. Foi mais do que o jogador mais decisivo do Holandês.
Foi o símbolo dos novos tempos (um tanto controversos, é verdade) que o clube de Arnhem vive. Seu desempenho na Eredivisie foi simplesmente assombroso: 31 gols em 30 jogos. Dez partidas consecutivas marcando, perdendo o recorde vigente por apenas um jogo. Recorde quebrado como o jogador com mais gols marcados em uma só temporada pelos aurinegros (37, superando Nikos Machlas, que fez 36 na temporada 1997/98). Segunda melhor média de gols da temporada, na Europa. E a possibilidade de manter o sonho que já demonstrara: ir para um clube mais conhecido. Anzhi, Porto, West Ham… enfim, tudo para virar protagonista também na Costa do Marfim.
Técnico: Frank de Boer
“Não penso em ser técnico, não. Não teria paciência para ficar me debruçando umas horas sobre como o adversário joga. O Frank é que gosta disso.” Em sua biografia, Edwin van der Sar rechaçou as pretensões de ser treinador, após o final da carreira, elogiando indiretamente o amigo Frank de Boer. Pois bem: dois anos depois, teve a honra de ver de perto, como diretor de marketing do Ajax, a continuidade de uma carreira promissora.
Colocado ainda como interino no cargo, em 2010, Frank foi o culpado útil da “revolução de veludo” que Johan Cruyff mentalizou e outros implantaram no Ajax. Cria do clube, identificado com a torcida, identificado com o credo do “Futebol Total” que andava distante de Strandsvliet, o irmão gêmeo de Ronald seria o nome ideal para fazer com que o clube voltasse a ter alma dentro de campo. Não bastasse isso, ainda demonstrou ser um treinador antenado, atualizado e flexível. O resultado está aí: Ajax tricampeão, feito que não vinha desde 1995/96. E Frank de Boer coloca mais um tijolo na construção do que pode ser bela carreira.
A quem chegou até aqui, uma informação: na semana que vem, a coluna pretende analisar a promissora seleção sub-21, que terá um desafio difícil e importante no Europeu da categoria, a partir do dia 5, em Israel. Depois, a retrospectiva completa da temporada. Cornetem tal decisão aí embaixo.



