Holanda

Segunda chance

A Copa do Mundo de 1986 foi, para a Seleção Brasileira, uma espécie de “segunda chance”. A equipe que jogara o Mundial anterior eletrizara o país e o mundo com seu estilo altamente técnico, e tentaria retomar o clima visto na Espanha. Havia vários remanescentes de 1982. Assim como o técnico, Telê Santana. Mas, por mais que o cenário anterior fosse formado de novo, sentia-se que faltava algo. Os jogadores sofriam com lesões;Telê andava fechado, magoado com as críticas; o estilo de jogo mais conservador trazia queixas da torcida; havia problemas de relacionamento entre os jogadores…

Pois bem: eis a situação que a seleção da Holanda vive, às vésperas da sua nona participação na Eurocopa. A geração atual eletrizou o país na Copa de 2010, como havia muito a Oranje não fazia. Principalmente após o jogo contra o Brasil, ao se agigantar, aproveitar a fragilidade psicológica brasileira e virar o jogo. Comandada por um Sneijder em estado de graça, a equipe superou a difícil semifinal contra o Uruguai. Chegou à final, contra a Espanha, esperando, enfim, vencer uma Copa do Mundo, provar o valor que tinha, lavar a alma do país. E, de novo, ficou no “quase”, prejudicada pelo excessivo nervosismo na decisão.

O tempo passou. 2012 chegou. A equipe passou tranquilamente pelas Eliminatórias da Eurocopa. Com praticamente a mesma base que voltara a levar a Holanda ao posto de uma das melhores seleções do mundo. Entretanto, os amistosos revelaram alguns problemas. Contra a Suíça, viu-se uma equipe preguiçosa, que não chegou perto de tirar o 0 a 0 do placar. Contra a Alemanha, rival de igual calibre, a defesa teve atuação pavorosa, e foi facilmente superada pela Mannschaft. O ataque até continua rendendo bem, como mostrou contra Inglaterra e Bulgária. No entanto, contusões recentes voltaram a perturbar a preparação. Mas, antes de tornar mais longa esta análise, é melhor falarmos, setor por setor, como foi a convocação de Bert van Marwijk.

Ela já se prepara, no centro de treinamentos da federação, no vilarejo de Hoenderloo. Fará mais um amistoso, neste sábado, contra a Irlanda do Norte, em Amsterdã. Depois, é viajar para jogar o torneio em que a Holanda tentará recuperar a força psicológica e a firmeza exibida na África do Sul, há dois anos.

Goleiros: Stekelenburg (Roma-ITA), Vorm (Swansea City-GAL) e Krul (Newcastle-ING) – Cillessen (Ajax) e Mulder (Feyenoord) foram cortados

Eis aí uma posição na qual não havia dúvida sobre os jogadores a serem convocados. Talvez a única na Oranje. Porque, mesmo tendo uma temporada irregular na Roma, com altos e baixos, Stekelenburg ainda demonstra segurança suficiente para ser o titular debaixo das três traves, sem drama algum. Até chegou com problemas no ombro, mas já se recuperou. De quebra, ganhou dois reservas de respeito.

Se já era o imediato suplente do goleiro giallorosso, Vorm se consolidou após ser um dos destaques do Swansea no Campeonato Inglês. Tim Krul já ganhara confiança após as boas atuações em 2011, nos amistosos contra Brasil e Uruguai – e ganhou respeito, com a Premier League que fez no Newcastle. Em suma: Cillessen e Mulder, jovens, foram chamados só para observação. As três vagas já estavam definidas desde o ano passado.

Laterais: Van der Wiel (Ajax), Boulahrouz (Stuttgart-ALE), Bouma (PSV) e Willems (PSV) – Büttner (Vitesse) foi cortado

Eis o principal problema de Van Marwijk para a Euro. Não na direita: mesmo perdendo boa parte do returno do Holandês, com problemas na virilha, Van der Wiel é titular absoluto, mesmo tendo problemas na marcação. E Boulahrouz, mais experiente e afeito a seguir os adversários, ficará na reserva. O grande problema é a esquerda.

Erik Pieters fazia seu trabalho sem muitos problemas. Era conservador no apoio, mas marcava razoavelmente. Só que a microfratura sofrida no pé esquerdo, já lesionado no ano passado, tirou-o da Euro 2012. E aí abriu-se um drama. Porque Anita e Emanuelson foram deslocados para o meio-campo, em seus clubes, tão ofensivos que são. Talvez o corte de ambos tenha se dado por isso. Braafheid, opção constante, teve performance horrível no amistoso contra a Alemanha, e perdeu força desde então. Alexander Büttner, melhor lateral da Eredivisie, foi mais para saber como é estar na seleção.

Ficaram, então, as opções de Wilfred Bouma e Jetro Willems. Este é a grande surpresa: no início de 2011, estava no Sparta Rotterdam, da segunda divisão, e era campeão europeu sub-17 com a seleção. Agora, já está na Eurocopa. O jovem de 18 anos tem talento ofensivo, como Van der Wiel, mas comete erros típicos da idade – na derrota para o Feyenoord, por 2 a 0, pelo Holandês, o segundo gol sobre o PSV saiu por falha terrível dele. Bouma é veterano (33 anos, fará 34 durante a Euro). Esforçadíssimo na marcação, um cão de guarda. Mas pode sentir o peso dos anos, e a falta de técnica.

Assim, até devido à lesão de Mathijsen, Van Marwijk anda escalando o time com Bouma na zaga (posição que ele ocupa no PSV), e Schaars recuado para a lateral. Opção válida, já que o meio-campista do Sporting, embora jogue mais fazendo dupla com Elias, tem mais técnica. Pelo menos, por enquanto, a solução é essa.

Zagueiros: Heitinga (Everton-ING), Mathijsen (Málaga-ESP) e Vlaar (Feyenoord) – De Vrij (Feyenoord) e Viergever (AZ) foram cortados

Aqui, o lema holandês é “não tem tu, vai tu mesmo”. Sabe-se, há muito tempo, que Heitinga e Mathijsen são falhos tecnicamente. No entanto, o esforço de ambos é tamanho que escalá-los é praticamente inevitável – até pela falta de concorrentes à altura. De mais a mais, o entrosamento é visível, já que a dupla joga junta há mais de dois anos. No entanto, mais uma mudança pôs em risco a escalação. No amistoso contra a Bulgária, Mathijsen sentiu problema muscular na coxa, e saiu de campo com menos de 20 minutos de partida em Amsterdã, dando lugar a Bouma.

A situação nem mudou tanto: Bouma tem um estilo parecido com o de Heitinga, e acostumou-se a atuar na zaga, no PSV. Mas é inegável que treinamentos seriam necessários para melhorar a situação, ainda que Mathijsen deva voltar para a Euro. A entrada de Vlaar aumentaria a estatura média, mas não traria ganhos técnicos. De todo modo, ainda que sejam imperfeitas, as opções que a Holanda tem na zaga são as melhores à disposição.

Meio-campistas: Van Bommel (Milan/PSV), Nigel de Jong (Manchester City-ING), Strootman (PSV), Schaars (Sporting-POR), Afellay (Barcelona-ESP), Van der Vaart (Tottenham-ING), Robben (Bayern Munique-ALE), Kuyt (Liverpool-ING), – Maduro (Valencia-ESP), Emanuelson (Milan-ITA), Wijnaldum (PSV), Anita (Ajax) e Maher (AZ) foram cortados

Parecia não haver necessidade alguma de se mudar o setor de meio-campo na Oranje. Já estava tudo definido: Van Bommel e Strootman fariam a dupla de marcação e Sneijder seria o principal armador, ladeado por Kuyt e Robben. Só que as alterações forçadas na defesa acabaram resultando em mudanças também no meio. Com a fragilidade defensiva acarretada pelas lesões de Pieters e Mathijsen, as chances de Nigel de Jong repetir a dupla da Copa, com Van Bommel, aumentaram, para garantir o mínimo de segurança na marcação. De Jong também poderia ser parceiro de Van der Vaart, que daria um pouco mais de habilidade na condução de bola. No entanto, a parceria que tanta gente horrorizou na Copa (mas que anda mais tranquila) deverá fazer o trabalho sujo.

Na armação, Sneijder é soberano, a despeito da má fase na Internazionale. Pode mudar um jogo. Mas o camisa 10 pode mudar um jogo, mas também causou algum tipo de temor, após se lesionar levemente durante o amistoso contra a Eslováquia. O problema no tornozelo não é tão grave, e ele tem sido poupado dos treinos mais por precaução. Mas fica a hipótese de Van der Vaart também jogar no setor. Ou, então, Afellay, que causou ótima impressão contra os eslovacos, mostrando estar recuperado da grave contusão que sofreu. Pelos lados, sem muita dúvida: Kuyt e Robben – a não ser que este arranje uma lesão, além da pressão que trouxe para si, ao se mostrar temeroso em momentos decisivos da temporada, pelo Bayern. Enfim, o meio-campo não tinha problemas, mas foi atingido, como num efeito dominó.

Ataque: Huntelaar (Schalke 04-ALE), Van Persie (Arsenal-ING), Luuk de Jong (Twente) e Narsingh (Heerenveen) – Ola John (Benfica/Twente) e Lens (PSV) foram cortados

Aqui, se há dúvida, ela fica restrita a uma pergunta: Van Persie ou Huntelaar? Sem dúvida, um daqueles saudáveis problemas. Um foi artilheiro do Campeonato Inglês, o protagonista do seu time na temporada 2011/12; o outro, finalmente, demonstra segurança tanto em seu time quanto pela seleção, fazendo esquecer aquele atacante medroso que se viu em Real Madrid e Milan. Com 30 e 29 gols marcados por suas ligas, respectivamente, ambos podem ser considerados os melhores atacantes do futebol europeu na atualidade – sim, porque Messi e Cristiano Ronaldo não contam.

Aparentemente, Van Marwijk está inclinado a escalar Huntelaar como único homem de finalização, no início. Justo: o nativo de Drempt mostra mais regularidade atuando pela Oranje. Mostra disso foi o amistoso contra a Inglaterra, em março. Van Persie não fez coisa que valesse durante o primeiro tempo, enquanto “Hunter” se movimentou nos minutos em que esteve em campo, fazendo até o segundo gol. Na reserva, Luuk de Jong já era opção esperada, enquanto Narsingh se credenciou pela ótima temporada no Heerenveen – e se confirmou pela boa atuação contra o Bayern Munique, tendo até feito gol. De todo modo, ambos assistem de camarote à disputa entre Van Persie e Huntelaar.
 

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Equipe Trivela

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