Holanda

Se melhorar, não estraga

Ajax, PSV ou Feyenoord. Há algum tempo, muita gente reclamava dessa falta de variedade na lista de vencedores do Campeonato Holandês. Não sem razão: desde a temporada 1956/57, quando começou a disputa do que hoje chama-se Eredivisie, o Trio de Ferro levou 50 das 56 edições. E, com a soma das edições anteriores ao profissionalismo, são 66 dos 111 campeonatos nacionais vencidos pelos clubes alvirrubros.

Por isso, é bom ver que a variedade já aparece no certame, há algum tempo – mais precisamente, desde o final da década passada, com os títulos de AZ e Twente servindo de agentes catalisadores do equilíbrio que se viu nos últimos tempos, na Eredivisie. Coroado com um recorde igualado: após os resultados da 17ª rodada, última do turno, nota-se que há uma diferença de meros três pontos entre o PSV, líder do campeonato, e o Feyenoord, quinto colocado.

Igual ao final do primeiro turno da temporada 1961/62, quando o PSV, também líder então, tinha 34 pontos, e o SC Enschede (uma das partes que gerou o Twente), em quinto, 31. Ou seja, o futebol holandês vive um momento em que os grandes continuam por cima, apesar dos pesares, mas viram o crescimento de equipes médias dentro do país, como AZ e Twente.

Então o Campeonato Holandês tornou-se um dos melhores da Europa? Longe disso. Prova é a queda sofrida pelas equipes do país nas competições europeias: somente o Ajax “passará do inverno”, como se diz, para enfrentar o Steaua Bucareste, na segunda fase da Liga Europa. E a relação dos coeficientes que definem vagas em competições europeias mostra a queda: a Holanda já foi novamente ultrapassada pela Ucrânia, e é acompanhada de perto pela Rússia, que ainda tem três clubes jogando.

Além disso, o equilíbrio é mais justificável pela qualidade mediana das equipes holandesas. É a velha história muito conhecida pelo torcedor brasileiro: às vezes, a disputa fica mais renhida pela incapacidade de um time disparar no campeonato, decidir a parada. “Ah, mas o Ajax foi bicampeão em 2011 e 2012.” Pois bem: em 2011, venceu os últimos sete jogos, garantindo o título somente na última rodada. E, em 2012, a mesma coisa: só a quase inacreditável sequência de 14 vitórias nos últimos 14 jogos explica o título.

E é aí que o futebol holandês deveria se esforçar para melhorar seu nível. Pois, se os grandes crescessem o suficiente para sonharem com coisas maiores do que emplacar uma vaga em quartas de final da Liga Europa, quem sabe motivassem os médios e pequenos de que é possível fazer com que deixem de ser olhados com pena – o que é talvez o pior sentimento que se pode causar numa competição, o de ser visto como “café-com-leite”.

Se bem que, talvez, o futebol holandês não queira outra coisa, já que uma de suas principais características é não se levar a sério, é prezar a ideia de goleadas obscenas e coisas assim. Mas, se quisesse, poderia achar um jeito de conciliar o modo divertido como (ainda) vê o futebol com a pegada vencedora que poucas vezes seus times tiveram. Eis o que seria mais salutar do que ver um equilíbrio empolgante, mas enganador, na disputa pela liderança da Eredivisie.

De ressaca

Dono de uma ótima campanha, em 2011/12. A venda do melhor trio de ataque do Campeonato Holandês (Assaidi, Narsingh e Dost). A contratação ambiciosa de Marco van Basten, para treinar a equipe. O Heerenveen esperava dar um salto para, quem sabe, sonhar com o título em 2012/13. E… o que acontece? O time da Frísia faz uma campanha ainda mais decepcionante do que a do AZ. É o 13º colocado, com apenas 15 pontos. Não ganha há seis rodadas. Pior: perdeu do lanterna Willem II (3 a 1), entre essas seis rodadas.

Pior ainda: elogiado pelo “desenvolvimento sustentável” que a diretoria mantinha na condução dos assuntos, o cenário interno do Fean foi perturbado pelas críticas dos patrocinadores à pasmaceira que tomou conta do clube sob a presidência de Robert Veenstra. Em declarações à imprensa, chegou-se a dizer que “Veenstra nunca faria em 200 anos o que Van der Velde fez em um” – aqui, a referência é a Riemer van der Velde, presidente do clube entre 1983 e 2006, e comandante histórico no trajeto da segunda divisão à Liga dos Campeões (1999/2000).

Veenstra estranhou, e agiu até polidamente, dizendo que era melhor terem procurado-o antes dos protestos. De todo modo, o Heerenveen parece viver a ressaca de um porre de felicidade. Que só está presente na capacidade do islandês Alfred Finnbogason para balançar as redes – 16 gols em 17 jogos, no Holandês. Mas uma andorinha só…

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