Sabe nada!

O titular da coluna não sabe nada de futebol holandês.
Explica-se: a coluna passada, escrita após o resultado de Ajax x PSV, dizia, meio que implicitamente, que, após a goleada por 4 a 1, os Godenzonen tendiam a ascender no campeonato, tornando-se, em definitivo, o único grande holandês que poderia ameaçar a festa dos “médios” e aspirar à taça no fim da temporada. Ao mesmo tempo, deixava claro que os Boeren haviam sofrido duríssimo golpe em suas intenções de abocanhar o inédito pentacampeonato nacional consecutivo e que o time não mostrava nem vestígios de que poderia reagir ainda neste ano. Ou seja: ainda que tendo visto o clássico disputado em Amsterdam Arena, o escriba caía numa das principais armadilhas da imprensa esportiva. Espantar-se demais com um resultado isolado e, a partir dele, fazer suas análises.
Não houve melhor jeito de fazer o colunista cair do cavalo do que a última rodada da Eredivisie. Primeiramente, pelo que o Ajax (não) mostrou na partida contra o AZ, em Alkmaar. O time de Marco van Basten, escalado de modo semelhante ao visto contra o principal adversário, deixou de exibir a rapidez no ataque que ajudara a resolver os 4 a 1. Com um Suarez lento e sem inspiração, além de um Sulejmani feito titular sem muito ritmo de jogo, a ainda inconstante defesa Ajacied não conseguiu segurar os Alkmaarders, que venceram por 2 a 0.
O time de Louis van Gaal, sim, é que está mais e mais solidificado como um dos ponteiros – no caso, o ponteiro – da tábua de classificação. Mesmo sem ter recebido uma análise mais aprofundada da coluna (outra mostra de falta de conhecimento…), a equipe conseguiu recuperar-se, após um começo de campeonato preocupante, com duas derrotas em dois jogos. A chave da reação talvez esteja no meio-campo: Demy de Zeeuw mostra porque é presença freqüente nas listas de convocados de Bert van Marwijk para a Oranje, ao aliar bem combatividade na marcação e capacidade na saída de bola.
Carregar bem a pelota na armação, por sua vez, é qualidade que também vêm mostrando outros volantes titulares, como Schaars – após contusão, restabelecido como um dos “intocáveis” de Van Gaal – e David Mendes da Silva (cujas atuações premiaram-no com uma convocação para o amistoso entre Holanda e Suécia, em lugar do cortado por lesão De Jong), o que ameniza a necessidade de um armador “puro”. E também explica, em parte, a boa fase que vive a dupla de ataque: enquanto El Hamdaoui personifica a ascensão de sua equipe, por ter começado a marcar na terceira partida e não ter parado mais – o que rende a artilharia da Eredivisie, com 13 gols em 12 jogos -, o brasileiro Ari vai convertendo-se no companheiro que, por enquanto, mostra mais utilidade. Não por acaso, ambos foram os autores dos gols que despacharam o Ajax.
(Aliás, Ari serve para mostrar como a falta de conhecimento do colunista esconde-se em arrogância: em conversa com um colega de Trivela, ao ser perguntado se Ari estava indo bem na Eredivisie, aquele respondeu “ih, que nada”. Ignorou apenas que o brasileiro, iniciado no Fortaleza e ex-Kalmar, desde que virou titular, aproveitando a contusão de Graziano Pellè, já marcou quatro vezes em cinco jogos…)
E há o PSV. O time que parecia irremediavelmente batido após a derrota para o arquirrival mostrou brio e reagiu brilhantemente contra o Heracles. É certo que Huub Stevens ajudou: ao invés de investir em mais uma das variações táticas que colaboram com a irregularidade do time na Eredivisie, o técnico decidiu arrumar a escalação em um 4-4-2 sem muito invencionismo, dando ao meio mais opções de jogadas e, ao ataque, a variação que este precisava, aliando a utilidade de Koevermans como referência à maior movimentação de Lazovic. Aliás, o sérvio protagonizou uma reaparição impressionante contra os Almelöers. Poucos diriam que, após protagonizar um papelão contra o Ajax, ele faria as pazes com Stevens e ainda seria titular. Não só o foi, como exerceu papel fundamental na goleada por 4 a 0, que também teve como destaques Dzsudzsák (o húngaro mantinha a utilidade no meio e ainda ajudava nas conclusões) e Rodríguez, autor do belo chute que abriu o placar no Philips Stadium. O placar só não foi mais elástico porque, definido já no primeiro tempo, o jogo ficou morno na segunda etapa. E porque Pieckenhagen evitou desastre maior no gol do Heracles.
Por tudo isso, o colunista esquiva-se de prognósticos a respeito da próxima rodada na Holanda. Caso contrário, ele se arriscaria a ouvir dos diletos leitores algo que Eurico Miranda sempre dizia aos seus desafetos e/ou adversários, para desqualificá-los: “Sabe nada!”
Sabe um pouquinho
Já na Bélgica, as circunstâncias foram menos malvadas com o autor destas mal traçadas. Ainda que a ascensão relativamente sólida do Westerlo tivesse sido rapidamente esquadrinhada na coluna passada, fazia-se a ressalva de que seria preciso ver como os comandados de Jan Ceulemans reagiriam frente a um rival direto e de grandeza reconhecida, o Anderlecht. Não deu outra: o time de Ariël Jacobs sofreu pouco. O gol rápido de Boussoufa – 13 do 1º – fez com que o ritmo do jogo logo ficasse a contento dos Mauves. Nem mesmo a demora no surgimento do segundo gol que fechou o placar (Lucas Biglia só marcou a um minuto do fim do jogo) fez com que a equipe entrasse em desespero. Além de assegurar o Anderlecht na 3ª posição, o resultado também possibilitou a volta do Genk à quarta posição na tabela, com a vitória por 3 a 2 sobre o Gent.
Os triunfos de Club Brugge (2 a 1, virada em cima do Mons, com Sonck marcando o gol da vitória a apenas três minutos do fim) e do Standard (3 a 1 no Mouscron, com ótima atuação do brasileiro Igor de Camargo, autor de dois) deixaram o cenário mais definido ainda. Rumo à 17ª rodada que marcará a virada para o returno, o que se vê é um campeonato equilibrado na parte de cima da tabela. Afinal, só quatro pontos separam o líder Brugge do quinto colocado Westerlo. Sem contar que apenas um ponto separa Brugge de Standard – o vice-líder – e este de Anderlecht. O que também nota-se é que os candidatos ao título já começam a se resumir ao trio que ocupa as três primeiras posições, ao passo que Genk, Westerlo, Lokeren e Excelsior Mouscron tentarão ser “o quarto integrante” na briga pela conquista da Jupiler League. A empolgação amplia-se ao imaginar que líder e vice-líder, caso mantenham suas posições, poderão brigar pela liderança no confronto direto em 14 de dezembro. Mas é sempre bom ficar de olho na próxima rodada…



