Holanda

Round 2… fight!

Toda semana, o site oficial da Jupiler League, coordenado pela revista Sport, a principal publicação sobre futebol na Bélgica, faz uma espécie de resumo sobre a rodada que passou, no fim de semana anterior. O resumo tem uma foto especial, que reflete a rodada; uma frase notável de alguém; e um texto que sintetiza o que tenha acontecido. Pois bem, o título do resumo para a 34ª rodada não poderia ter sido mais feliz: “A l’Hitchcockienne”. Realmente, o autor de obras míticas do cinema, como “Os Pássaros” ou “Psicose”, ficaria orgulhoso, caso pudesse ostentar no currículo a última rodada da Liga Belga desta temporada.

Como já se sabia, Standard Liège e Anderlecht haviam chegado empatados para suas partidas derradeiras, com os mesmos 74 pontos. E, para que a hipótese dos dois-jogos desempate fosse a destinada a definir o campeão nacional, tropeços não seriam permitidos. Nem do lado dos Mauves, nem do lado dos Rouches. Caso contrário, seria o fim cruel para as esperanças de um – e a festa, para outro.

Pois a equipe de Ariël Jacobs tratou de comprovar a sua maior regularidade, no último jogo. Mesmo atuando fora de casa, o Anderlecht rapidamente conseguiu impor sua superioridade sobre o Racing Genk. Após um começo meio desanimado, uma boa chance de Thomas Chatelle bastou para os visitantes se animarem. E não demorou muito para que um dos principais jogadores da equipe na temporada aparecesse em boa hora: após cruzamento de Gillet, Mbark Boussoufa abriu o placar, aos 38 do 1º tempo.

Doravante, o Genk estava definitivamente batido. Já no segundo minuto da etapa complementar, Sutter teve a chance de ampliar. Porém, o segundo gol só viria aos 11 minutos, em nova cabeçada, desta vez de Wasilewski. E a equipe ficou levando o jogo em banho-maria, só esperando o apito final, tanto na Cristal Arena, como num certo Ottenstadion, a 125 quilômetros dali, na cidade de Gent.

Porque, no mesmo horário, o Standard tinha um desafio indigesto. A equipe de Laszlo Bölöni teria de superar o Gent, tendo no banco adversário Michel Preud’homme, justo o artífice da equipe campeã na temporada passada. Não bastasse isso, os Buffalos queriam a vitória, que garantiria a vaga na segunda fase preliminar da Liga Europa. E, já aos nove minutos, seria exigido pela primeira vez o personagem decisivo da partida: Sinan Bolat. O goleiro turco de ascendência belga, aos nove minutos, defendeu no reflexo cabeçada de Ljubljankic.

Um alívio maior só ajudaria os Rouches no último minuto do primeiro tempo, quando Witsel chutou, na grande área, e a bola bateu na mão de um zagueiro. Com o pênalti marcado, o próprio Witsel tratou de por a bola na marca da cal (não sem antes discutir levemente com Mbokani e Jovanovic para ver quem seria o cobrador) e abrir o placar.

Porém, o segundo tempo seria ainda mais agonizante para o clube de Sclessin. Mudando o estilo de jogo (Witsel, escalado como atacante, voltou para o meio, enquanto Jovanovic passou para a ponta esquerda), Laszlo Bölöni abriu espaços para o Gent, que tratou de pressionar mais e mais a meta de Bolat. O arqueiro passou, então, a ter várias oportunidades de provar porque tirou, tão rapidamente, a titularidade de Espinoza. Num chute de longe de Thompson, que espalmou para escanteio, aos 15 minutos. Numa cabeçada de Ruiz, tirada com “os olhos”, aos 34. Numa nova defesa de reflexo, aos 42. Paralelamente, Mbokani, Dalmat e Defour iam tentando arriscar, em contra-ataques, mas não conseguiam dar uma folga maior no placar.

Até que chegou o clímax do fim de semana, que entronizou Bolat não só como titular definitivo, mas também como provável herói do título. No últimíssimo minuto do tempo regulamentar, Onyewu derrubou Thompson, dentro da área. Pênalti. Ruiz na cobrança. Poderia ser o gol do título do Anderlecht. Mas Bolat estava lá, ignorou o barulho da torcida e… defendeu. Sem se adiantar, calmo, com serenidade impressionante para alguém de apenas 20 anos. Calando todo um estádio. A prova da importância de sua defesa veio logo depois, no apito final de Serge Gumienny, quando praticamente todo o elenco do Standard, titulares e reservas, foram erguer o goleiro em seus ombros. O 1 a 0 estava salvo. O troféu seria definido nos jogos-desempate, pela primeira vez desde 1986. Só vendo este vídeo para crer o que aconteceu com Bolat.

No jogo de ida, no Parc Astrid, o Standard, como que impulsionado pela salvação de suas chances, fez um primeiro tempo admirável contra o Anderlecht. Evidentemente, a volta dos pilares da equipe ajudou para um desempenho mais perigoso. Exceto Jovanovic, suspenso, estavam todos lá: Mbokani, Defour, Witsel, Igor de Camargo… para se ter uma ideia de como os Rouches pressionaram o Anderlecht, já aos dois minutos de jogo, um chute de Dalmat foi à trave de Schollen. Que o 0 a 0 tenha persistido ao fim dos 45 minutos iniciais, foi espantoso.

E não deixou de ser surpreendente – mas também compreensível, uma prova da serenidade dos donos da casa – quando o Anderlecht é que fez o 1 a 0, aos seis minutos do segundo tempo, com Jonathan Legear, que cabeceou para as redes cruzamento de Deschacht. Mas, aos quinze, foi a vez de Mbokani aparecer para salvar o Standard, ao escorar, também de cabeça, cruzamento de Carcela-Gonzalez para as redes. Com o empate como placar final, o Standard tem a vantagem do 0 a 0 lhe servir para trazer o bi.

E ficou tudo para a volta, neste domingo, no Maurice Dufrasne. Finalmente, surgirá a resposta para a pergunta que ainda não quer calar: quem será o campeão belga? De certo modo, não importa. A briga entre Standard Liège e Anderlecht já está na história do futebol do país.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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