Programa de aceleração do crescimento

Times de tamanho médio que, do nada, são comprados por empresários ambiciosos quase sempre causam desconfiança nas pessoas – isso, na hipótese mais benevolente. E quando esse empresário já foi detido por três vezes, o sinal de alerta fica ainda mais forte. É o caso do georgiano Merab Jordania, que chegou ao Vitesse no ano passado, para socorrer os Arnhemmers da aflitiva situação financeira. Só que o leitor já sabe dessa estória.
Faça-se um rápido resumo: na temporada passada, já sob Jordania, o Vitesse teve sérias dificuldades. Um time excessivamente jovem, que ainda foi vitimado pela inconstância no comando, ficou no 15º lugar da Eredivisie. Exatamente na posição limítrofe para a Nacompetitie. A necessidade de mudança era mais do que óbvia. Só que o elenco não mudara muito em relação ao do último campeonato. A única grande contratação viera para ser técnico: John van den Brom, incensado pela grande campanha que colocara o ADO Den Haag na Liga Europa.
E o início da atual Eredivisie não dava muitas esperanças. Por mais que o time houvesse vencido clubes em melhor condição, como o Utrecht, fora goleado impiedosamente por Ajax (4 a 1) e AZ (4 a 0). Só que, passadas dez rodadas, o cenário dos aurinegros é outro: a quinta posição da liga, com invencibilidade de cinco partidas – três vitórias e dois empates. E, na Copa da Holanda, o clube já figura entre os 16 que sobreviveram para as oitavas de final.
Se faltava provas da evolução da equipe em campo, ela veio na última rodada. Um empate contra o PSV (1 a 1), e um grupo que apresentava muita firmeza. Característica que já pode ser atribuída, em parte, a Van den Brom, que vai conseguindo dar liberdade para que, aos poucos, os melhores jogadores se sobressaiam.
E os atletas aproveitam a oportunidade. É o caso de Wilfried Bony. O atacante marfinense já estava no Gelredome desde a temporada passada. Pouco pôde fazer, mas seus números já davam a esperança à torcida: três gols em sete jogos. E, na atual Eredivisie, Bony enfim justifica a expectativa colocada sobre ele: com sete gols em nove jogos, é o terceiro na lista de goleadores do campeonato. Inclusive, marcou o gol de empate contra o PSV. E o gol da vitória por 2 a 1 sobre o ADO Den Haag, que levou o time às oitavas da KNVB Beker.
Mas o time não é só Bony. Há o êxito de reforços que já chegaram para ser titulares, como o meio-campista ganense Anthony Annan. As revelações em quem o clube aposta, por enquanto, vão dando resultado – como o zagueiro Guram Kashia e o armador Giorgi Chanturia, ambos georgianos (como Jordania!), e o zagueiro Tomas Kalas, tcheco emprestado do Chelsea.
Há ainda alguns jogadores que encaram o Vitesse como tentativa de impulsionar a carreira. Como o lateral direito Michihiro Yasuda, apontado há muito como futuro titular na seleção japonesa, e o meia Jan-Arie van der Heijden, há muito encostado no Ajax. E há quem já estivesse no clube antes mesmo da chegada do novo dono, e ganhou fôlego novo para prosseguir. Cabem neste caso Alexander Büttner, Nicky Hofs, Frank van der Struijk, Jeroen Drost, Marcus Pedersen…
E, finalmente, dois jogadores merecem destaque. O primeiro, goleiro, era ídolo da torcida, e chegou a frequentar as convocações de Bert van Marwijk na seleção holandesa. Aliás, chegou até a sonhar com a ida à Copa de 2010 – fez parte da pré-lista. Mas perdeu a vaga nos últimos momentos antes da convocação definitiva. Pior: decidiu transferir-se para o Hércules, esperando despontar num grande centro europeu, e fracassou fragorosamente em Alicante. Eis a história de Piet Velthuizen, que decidiu encontrar guarida em Arnhem, novamente. E já voltou a ser titular.
O segundo representa uma esperança. Demonstrando capacidade de marcação, de modo leal, e alguma habilidade na saída de bola, Marco van Ginkel foi adiantado para a armação. E o jovem de 19 anos foi dos únicos a escapar do péssimo 2010/11 que o Vitesse teve. Na temporada atual, Van Ginkel continua como titular. Surgido no próprio clube, é a mais nova aposta para repetir a história de Van Wolfswinkel – que também despontou no Vitesse, e hoje já virou figura importante no Sporting.
No sorteio dos jogos das oitavas de final, ao invés de enfrentar um graúdo, a sorte do Vitesse prosseguiu: o time enfrentará o FC Eindhoven, vice-líder da Eerste Divisie. Mais uma chance de o clube provar que tem condições de concretizar as previsões megalomaníacas de Merab Jordania, para quem o Vitesse pode até sonhar com o título. Pelo menos dentro de campo, a equipe vem bem até aqui.



