Procura-se um técnico

Já se sabia que Dick Advocaat tinha uma relação bastante turbulenta com a federação belga – melhor dizendo, com alguns diretores da entidade. E isso vinha, talvez, desde a nomeação do “Pequeno General” para treinar a seleção do país, em junho. Sempre houve, entre ambas as partes, uma relação turbulenta, cheia de pequenos problemas que acrescentavam tensões desnecessárias.
Talvez, o principal desses pequenos “mal-entendidos” que causavam irritação a Advocaat tenha surgido em janeiro, durante a marcação do amistoso que seria jogado em março. A história já foi contada rapidamente aqui, mas não custa relembrar: a federação marcou uma partida contra a Irlanda do Norte. Porém, não se sabe se por erro da federação ou de Advocaat, foi compreendido que o amistoso seria contra a Irlanda (Eire). Quando o técnico holandês descobriu quem era o adversário, achou que não era forte o bastante e pediu o cancelamento. Restou arrumar a Croácia, às pressas, como adversário.
Até aí, tudo bem, mesmo que um erro desse deponha contra o organograma da KBVB. O problema foi que, sabe-se lá como, a história do mal-entendido vazou para a imprensa. E, claro, Advocaat ficou irado, dizendo coisas como “Isso não é trabalho em conjunto. Não posso dizer nada contra essa pessoa, já que todos quererão saber. Agora vão dizer que Advocaat não sabia que Trappatoni treinava a Irlanda e coisas como essa. Acho que a federação deveria tomar providências contra este homem”. A saber: o homem era Jean-Marie Philips, diretor da federação – e voz contrária à vinda do técnico.
Não impressiona, então, que Advocaat tenha se sentido, no mínimo, tentado a assumir a Rússia, quando surgiram os primeiros rumores de que a federação do país estava tentando procurá-lo para ser o sucessor de Guus Hiddink. E, no fundo, no fundo, talvez seja compreensível até mesmo que ele possa ter pensado na linha do “é melhor trocar o duvidoso pelo certo”, cansado da desorganização que toma conta do futebol belga e de gente trabalhando contra ele. E, então, ele decidiu: em 15 de abril, anunciou a rescisão do contrato, após apenas sete meses.
Porém, Advocaat simplesmente não tem o direito de se fazer de desentendido, de dizer que “não entende o porquê da reação negativa na Bélgica”, como disse em entrevista. As consequências de seu ato podem ser perigosas até para sua carreira: afinal de contas, o nativo de Haia pode se tornar conhecido apenas por ser um técnico adepto apenas do dinheiro. Que passou a construir sua carreira preocupando-se apenas com quem lhe paga mais, sem levar em conta assuntos como a continuidade do trabalho.
E a demissão soa ainda mais precipitada quando se vê o cenário belga: internamente, um futebol desorganizado, mas que tem capacidade de aparecer bem nas competições continentais – a Bélgica teve o Standard nas quartas de final da Liga Europa, o que não deixa de ser um feito. O mesmo caso na seleção: um time irregular, mas cheio de jogadores que podem render muito num futuro próximo. Como Fellaini ou Vermaelen, atletas com respeito nos times em que jogam. Ou até novatos, como Alderweireld ou Lukaku. Ou gente que ainda não saiu da Bélgica, como Defour e Witsel.
E a Bélgica se ressentiu justamente da saída repentina de Advocaat. O presidente da federação, François de Keersmaecker – que bancara a vinda do holandês – falou coisas como “O comportamento dele foi profissional e pessoalmente inaceitável” e “Estamos profundamente desapontados”. Mas o importante era a procura de um novo técnico, para começar no amistoso contra a Bulgária, no próximo dia 19 de maio.
Porém, a procura não tem sido fácil. A aposta mais bem-vinda foi testada logo de primeira. Michel Preud'homme tem identificação profunda com a seleção – os 15 anos passados lá, como reserva de Pfaff ou titular absoluto, provam isso. O nativo de Ougrée também tem respeitabilidade fora do país – é só ver suas performances incríveis na Copa de 1994 para compreender o porquê. Mas, mais importante, Preud'homme tem habilidade no trato com jovens. Foi ele quem deu a oportunidade decisiva à geração que fez do Standard bicampeão belga. E está fazendo ótimo trabalho no Gent, quase garantido como vice-campeão da Jupiler League. Ou seja, não cairia de para-quedas.
Mas Preud'homme não quis, e o Gent não liberou. Restou buscar Georges Leekens, treinador dos Diabos Vermelhos na Copa de 1998, atualmente no Kortrijk. Nada, novamente. Eric Gerets, como das outras vezes, também recusou. Resta a opção por Jean-François de Sart, treinador da seleção sub-21, que levou boa parte dos titulares da seleção profissional de hoje à boa campanha nos Jogos Olímpicos de 2008. Ou, ouvindo os conselhos de Advocaat, seguir com aquele que era seu auxiliar, também com tradição na seleção: Marc Wilmots.
De todo modo, resta à Bélgica manter o otimismo na campanha das Eliminatórias para a Euro 2012. E transformar este cenário de aparente caos na oportunidade de reconstrução. Como disse François de Keersmaecker: “Vamos continuar acreditando nos Diabos Vermelhos. Vamos disputar um lugar na Euro e queremos mostrar a todos o que somos. Inclusive a Dick Advocaat.”



