Holanda

Preparando a invasão

Neste sábado, jogando no estádio Laugardalsvöllur de Reykjavik, a seleção da Holanda pode alcançar o objetivo principal que existia, após a Eurocopa. Caso vença a Islândia, a equipe de Bert van Marwijk será a primeira seleção do Velho Continente a assegurar sua classificação para a Copa do Mundo de 2010. Será merecido, diga-se de passagem. Afinal, como já dito em colunas passadas, a Oranje tem conseguido manter um estilo eficiente o bastante para superar seus adversários sem tantos problemas, por mais fracos que sejam os oponentes do grupo 9.

Claro que, mesmo assegurando a qualificação ao Mundial na capital islandesa, ainda será bom se a seleção continuar vencendo. Até para bater recordes: caso vença todas as três partidas restantes, a Holanda será o segundo país europeu cuja seleção encerrou as eliminatórias para uma Copa com 100 por cento de aproveitamento, em toda a história (a primeira foi a Alemanha, na qualificação para o Mundial de 1982). Mas o importante, caso a esperada vitória contra a Islândia venha, será acertar os dois principais defeitos da seleção, atualmente.

O maior deles não é tão grave, mas exige solução relativamente rápida: o acerto dos titulares para cada posição. A defesa, ainda calcanhar de Aquiles, precisa de certas definições. Nem tanto no gol, onde Stekelenburg parece ter o respaldo de Van Marwijk (aliás, dependendo das decisões de Martin Jol durante a pré-temporada, o arqueiro pode até recuperar a titularidade no Ajax – ou ir para outro país). Na lateral-esquerda, apesar dos 34 anos, o capitão Van Bronckhorst também é ponto pacífico. As discussões ficam para o miolo de zaga e para a lateral-direita.

Como dupla de defensores, Van Marwijk continua apostando em Ooijer e Mathijsen, mas não são poucos os torcedores que reclamam da falta de segurança passada por ambos – em que pese a boa temporada que Mathijsen realizou pelo Hamburg. Além disso, em entrevista à revista Voetbal International, Khalid Boulahrouz se disse recuperado dos problemas particulares que o afligiram no começo da temporada recém-encerrada (problemas notadamente iniciados pela morte prematura da filha recém-nascida, ainda durante a Euro 2008). Algo até comprovado pelas oportunidades mais frequentes que “O Canibal” recebeu de Markus Babbel no Stuttgart, nas últimas rodadas da Bundesliga.

Além da quarta-zaga ou da zaga central, Boulahrouz seria mais uma opção para a lateral-direita, embora a disputa principal pela posição seja entre dois jogadores. John Heitinga era a escolha natural, mas uma temporada irregular no Atlético de Madrid fez com que crescesse a cotação de Gregory van der Wiel. Não bastasse ter feito uma boa Eredivisie pelo Ajax, Van der Wiel mostrou personalidade nas partidas contra Escócia e Macedônia, quando jogou os 180 minutos, e ganhou status de candidato a titular. Porém, Van Marwijk deve apostar em maior experiência e colocar Heitinga contra Islândia e Noruega.

No meio-campo, a dúvida nem é sobre os titulares no 4-2-3-1. As contusões de Sneijder e Afellay encarregaram-se de dar o posto de armador principal de mão beijada a Van der Vaart. O nativo de Heemskerk, assim, ganha oportunidade de ouro para conseguir dar bom fim a uma temporada que começou promissora e terminou absolutamente opaca, no Real Madrid.

Uma boa atuação teria até o bônus de poder provar a Manuel Pellegrini, novo técnico dos Merengues, o valor do meia – ou, pelo menos, o de aumentar o interesse de Bayern de Munique, Chelsea e Ajax em contratar o marido de Sylvie Meis. Já um desempenho discreto começaria a afastar a titularidade.

E, se Kuyt e Huntelaar parecem intocáveis, hoje, no ataque (não se descarta os artilheiros do grupo nas Eliminatórias, com três gols), Ryan Babel começou a ter sua posição no banco bastante ameaçada. O desempenho assombroso de Eljero Elia na Eredivisie, sendo peça fundamental no vice-campeonato do Twente e ganhando o título de Melhor Jogador Jovem holandês, fez com que o atacante do Liverpool ganhasse um rival real. Não seria absurdo, caso Elia ganhasse uma chance, no decorrer das partidas.

Já o segundo problema é um clássico, em se tratando de Holanda: a falta de poder de decisão em instantes mais agudos. A velha piada de chamar a Laranja de “amarelona” é até cruel, mas é compreensível. Entretanto, deve-se elogiar a postura de Van Marwijk e da federação na tentativa de resolver tal aspecto.

O treinador assumiu a Oranje tendo como um dos propósitos declarados a tarefa de manter o foco da equipe em conseguir algum título de vulto, enquanto a KNVB, nesta semana, em relatório divulgado à imprensa, não fez segredo: a meta é alcançar a semifinal, seja em 2010, seja na Euro-2012.

A questão é que, mesmo com um time absolutamente focado e livre da “fogueira das vaidades”, talvez a capacidade do time não seja suficiente para enfrentar uma seleção melhor. Se alcançar, por exemplo, as quartas-de-final é um objetivo plenamente alcançável – a Holanda pode, sim, ser apontada como uma das oito melhores seleções do mundo, atualmente -, em caso de eventual semifinal, a equipe não seria páreo para Alemanha, ou Espanha, ou até o Brasil. Não se trata de “amarelice”, mas simplesmente de inferioridade técnica.

De qualquer modo, tudo depende do resultado da partida contra a Islândia. Vencendo a seleção de Eidur Gudjohnsen, estará iniciado o período que pode tornar a Oranje favorita real ao título na África do Sul – ou, mais uma vez, torná-la uma equipe boa, mas que falha no instante final.

O Advocaat dos Diabos

O colunista pegou emprestado o trocadilho ótimo, criado pelo colega Ricardo Espina, para dizer: sim, aconteceu. Após várias idas e vindas, aumentos e diminuições da possibilidade, finalmente Dick Advocaat deixará o Zenit para comandar a Bélgica.

Entretanto, pelo acerto conduzido por Philippe Collin, diretor de seleções da federação belga, nesta semana, fica claro que o holandês de 61 anos chegou não como uma tentativa de socorro para tentar manter as remotas chances de classificação para a Copa, mas sim para montar o projeto rumo à Euro 2012 – e à Copa de 2014.

Tanto é que “O Pequeno General” (apelido recebido pelo fato de, no início da carreira, ter sido auxiliar do “General” Rinus Michels) só virará o “Advocaat dos Diabos” a partir de 1º de janeiro de 2010. Até lá, o pepino de tentar dar um fim digno à seleção nas Eliminatórias continuará com Franky Vercauteren, auxiliar de René Vandereycken. E a participação na Copa Kirin prova: a tarefa será dura.

Sim, a equipe levada para o torneio amistoso no Japão não tinha atletas de Standard e Anderlecht, ainda às voltas com a disputa pelo título da Jupiler League. Sim, a maioria do elenco era formada por apostas, como Toby Alderweireld e Ritchie de Laet. Sim, o fuso horário da viagem atrapalhou vários jogadores. Mas não é menos verdade que levar 4 a 0 do Japão só prejudica uma já combalida seleção – e nem empatar por 1 a 1 com o Chile não ajuda.

Pelo menos, a equipe não corre o risco de perder ainda mais moral, já que folga nestas rodadas das Eliminatórias, só voltando a campo em setembro, com todos os principais jogadores. A questão é que a partida será fora de casa. Contra a Espanha. O desempenho contra os campeões europeus mostrará se Advocaat retornará ao comando de uma seleção com um cenário que prevê melhoras no futuro ou se o clima será de terra arrasada.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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