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Premier League aposta na Eredivisie, mas pode prejudicá-la

Atacante holandês de ascendência marroquina, Nacer Barazite era uma cria da base do Arsenal, nos idos de 2006. Esperava-se que, pouco a pouco, recebesse oportunidades no time principal dos Gunners, àquela altura. Assim, Barazite seguiu o caminho típico: uma chance num amistoso aqui, um jogo de pré-temporada ali, uma atuação na Copa da Liga acolá… mas a carreira no clube de Londres não vingou. Resultado: foi sendo emprestado a outros clubes, teve passagem esquecível pelo Monaco, até chegar ao Utrecht, no ano passado. Pior: hoje, aos 25 anos, Barazite é reserva dos Utregs.

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O ar de “foguete molhado” que a carreira de Barazite mostra é um alerta inegável. Ainda mais pela ligação com o Campeonato Inglês, cujos clubes estão dedicando uma atenção toda especial a reforços que venham da Eredivisie, ou que tenham despontado nela, para a temporada 2015/16. Para começo de conversa, há Memphis Depay no Manchester United (onde terá Daley Blind como companheiro e Louis van Gaal como seu técnico). Há a continuação do acordo oficioso entre Chelsea e Vitesse; o brasileiro Nathan e Lewis Baker, ambos meio-campistas dos Blues, passarão a temporada em Arnhem. E há Toby Alderweireld no Tottenham, em que reencontrará o compatriota e ex-companheiro de Ajax Jan Vertonghen. Ou ainda Georginio Wijnaldum, já em pré-temporada com o Newcastle – que por sua vez já tem Krul, Siem de Jong, Janmaat e Anita.

E tal interesse não é exclusivo de clubes médios e grandes. Houve a contratação de Jeremain Lens pelo Sunderland, treinado por… Dick Advocaat. Sem contar o interesse crescente do recém-promovido Watford em Steven Berghuis (atacante do AZ, convocado para a seleção holandesa nas partidas de junho) e Lex Immers (meio-campista do Feyenoord). E o Southampton simboliza o fenômeno inglês nesta janela de transferências: o time dos Saints garantiu vaga na Liga Europa desta temporada com Ronald Koeman no banco e dois egressos da Eredivisie, Dusan Tadic e Graziano Pellè, como personagens de destaque. De quebra, já contratara Maarten Stekelenburg para o gol. E na quarta passada, Jordy Clasie foi mais um trazido a Staplewood.

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Tantas contratações mostram um interesse ainda maior dos clubes da Premier League em jogadores que atuam na Eredivisie, em relação a temporadas anteriores. Mesmo assim, ele já existia anteriormente, com resultados diversos, bons (Overmars, Bergkamp, Van Nistelrooy, Suárez) ou ruins (Kezman, Afonso Alves, Van Wolfswinkel). O que pouco se fala é que ele alimenta um fenômeno que pode prejudicar a seleção holandesa, a médio prazo. A Eredivisie, convenhamos, já está condenada. Afinal de contas, citando Bezerra da Silva, dá para imaginar que um clube holandês provavelmente só voltará a conquistar um torneio continental “quando o morcego doar sangue e o saci cruzar as pernas”. E os torcedores já compreenderam isso, mesmo no caso de clubes tradicionais como Ajax e PSV.

O problema é que a saída constante de jogadores somente aprofunda o desnível quase natural entre a Eredivisie e as ligas mais prestigiosas da Europa. Com uma liga tecnicamente fraca, os novatos holandeses cada vez mais tendem a aceitar a primeira proposta que aparece à sua frente. E nem precisa ser na Premier League, somente. Na Itália, a Lazio já tem Stefan de Vrij, e, a partir desta temporada, terá Wesley Hoedt, zagueiro de 21 anos, que fez exatos 30 jogos pelo AZ (sem contar negociações avançadas dos Biancocelesti com Ron Vlaar e Ricardo Kishna). Em Portugal, o Benfica aproveitou a crise financeira que aflige o Twente e já trouxe para seu elenco a promessa Bilal Ould-Chikh.

Para piorar, os jogadores holandeses que deixam o país nem sempre vão para gigantes europeus. Dos destinos citados aqui, independentemente do país, apenas Manchester United, Arsenal, Lazio e Benfica podem ser considerados clubes de fama inquestionável. Pode piorar? Claro que pode: de todos os jogadores atuais citados, somente Blind, Wijnaldum e De Vrij podem ser considerados titulares absolutos na Oranje – Depay é um reserva que sempre entra, mas não tem o mesmo status dos veteranos.

Na verdade, alguns dos supracitados sequer são convocados regularmente. Basta mencionar Siem de Jong: um dos destaques do Ajax no recente tetracampeonato holandês, o ponta-de-lança foi perturbado por lesões e problemas pulmonares no Newcastle. E, mesmo sem nada disso, só atuou cinco vezes pela seleção. Nada muito diferente de Anita, ala esquerdo, que só jogou três partidas com a camisa laranja. E ainda há casos de gente que sequer passou por um clube holandês na carreira profissional, como Krul.

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Tudo isso deixa claro que a Eredivisie continua sendo um campeonato apropriado para que jogadores, holandeses ou não, tenham um “gosto de Europa” antes de sonharem com coisas maiores dentro do futebol do Velho Continente. No entanto, o nível técnico da liga holandesa segue caindo em proporção inversa à quantidade de transferências. E isso destrói, aos poucos, duas características basilares do futebol na Holanda: uma identidade tática e uma oferta enorme de chances a jogadores jovens.

A seleção adulta já vive certa crise, ainda que minorada pela boa Copa do Mundo em 2014. As seleções jovens sofrem mais: a equipe sub-21 teve desempenho lamentável no Torneio de Toulon e sequer se classificou para o Europeu da categoria. Nesta semana, a Oranje sub-19 caiu na primeira fase do torneio continental. A continuar assim, não só o risco da Holanda deixar o primeiro escalão do futebol na Europa aumentará progressivamente (a ponto de implicar ausências em Copas e Eurocopas), como os jogadores holandeses correm sérios riscos de decepcionar esportivamente em palcos mais célebres. Como aconteceu com Nacer Barazite.

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