Porcos fardados de laranja

“Eles jogaram como um bando de porcos na última Copa do Mundo. Eles têm porcos melhores do que somente Robben. No meio-campo, há dois jogadores que querem lhe devorar. Acho que eles terão de jogar de modo muito disciplinado contra nós. É um duelo-chave no grupo, e eles não nos darão a vitória de presente.” Foram as palavras de um jogador sueco conhecido dos holandeses: o atacante Ola Toivonen, do PSV, que enfrentará a seleção de Bert van Marwijk no próximo dia 12, pelas Eliminatórias da Euro 2012. E que, supostamente, teria criticado o exagero dos holandeses nas divididas ao diário sueco Aftonbladet, chamando-os de “porcos”.
Depois, ficou esclarecido que tudo não passou de um mal entendido. Toivonen, primeiramente, alegou: “Fora da Suécia, a expressão que usei foi interpretada de modo completamente diferente.” Reclamação corroborada pela jornalista do Aftonbladet que fez a entrevista com o jogador do PSV, Petra Thoren: “Ola usou a expressão 'griseri', que, em inglês, pode ser traduzida como 'pocilga'. Na Suécia, isso significa um estilo de futebol forte fisicamente, e duro, mas isso não pode ser interpretado literalmente como 'porcos'. Isso é injusto.”
Toivonen pode até não ter criticado a seleção da Holanda. Mas, no entanto, é inegável que o estilo mais ríspido que o time de Van Marwijk trouxe uma impressão bastante chocante e negativa para o futebol holandês – historicamente incensado por sua ofensividade quase suicida e sua troca de posições incessante. E há um jogador que, aparentemente, tem sobre si concentradas todas as críticas: Nigel de Jong.
Impressões que são justas. Não há como negar que o volante do Manchester City tem exagerado bastante na força usada em seus carrinhos e tentativas de desarmar os adversários. E não é de hoje. A revista Voetbal International fez uma lista de jogadas duras cometidas pelo jogador: em pouco mais de 13 meses, foram seis faltas sérias cometidas. A primeira delas, contra Yuto Nagatomo, em amistoso da Oranje contra o Japão, no ano passado. Depois, já em 2010 (março), veio uma entrada dura sobre Stuart Holden, em amistoso contra os Estados Unidos. Além de ter provocado uma fratura no metatarso do norte-americano, De Jong já levou, então, uma reprimenda de Van Marwijk.
Mas seriam entradas pequenas, diante do que tem se visto nos últimos meses. Primeiro, na final da Copa, a solada digna de um Bruce Lee nos melhores momentos, no peito de Xabi Alonso. E, agora, no último domingo, jogando pelo Manchester City, o carrinho duríssimo que provocou uma fratura dupla (tíbia e fíbula) na perna de Hatem Ben Arfa, do Newcastle. Foi o bastante para Van Marwijk: na segunda, o técnico anunciava o corte de De Jong das partidas contra Moldova e Suécia.
Não bastasse isso, o meio-campista foi criticado por meio mundo. Basta citar as declarações de Johan Cruyff: “Ele passou do ponto por duas ou três vezes, agora. Ele precisa entender que é um exemplo para todos os jovens jogadores.” Ou, então, a de Van Marwijk: “Nigel não precisava disto. Vi as imagens, foi uma falta desnecessária e selvagem.”
No entanto, ao mesmo tempo em que há a concordância de que De Jong anda exagerando, logo trata-se de colocar em pauta o lado bom do jogador surgido no Ajax. Coisa que Van Bommel, capitão e companheiro de De Jong na dupla de marcadores do meio-campo, lembrou, dizendo que pessoas o chamarem de “criminoso”, após sua ajuda na campanha da Copa, não tem sentido. E Van Marwijk também assoprou as feridas sobre De Jong, dizendo: “Nigel é um jovem incrivelmente amável, com uma mentalidade vencedora inacreditável.” Com isso, o técnico da Oranje afastou os rumores (absurdos) de que a carreira de De Jong na seleção estaria a perigo.
De fato, é cruel demais dizer que De Jong é um criminoso, que é apenas um carniceiro. Até porque só ele pode dizer se suas entradas duras são intencionais. Mas é fato: a marcação holandesa (e isso inclui a defesa) tem exagerado na dureza de suas ações. E algumas partidas na Copa mostraram isso. Como a vitória contra o Brasil, quando o time, mesmo sem levar muitos cartões, ajudou a enervar o time de Dunga, parando sempre o jogo. Ou mesmo na final contra a Espanha, quando, nervosa, a equipe acabou descendo o nível do jogo, com muita violência – também seguida, em parte, pela Fúria.
A Holanda, enfim, precisa aprender que não é mudando seu estilo de jogo que conseguirá chegar aos títulos – assim como um certo país lusófono sul-americano. Até porque a Oranje possui gente talentosa ao extremo, como Sneijder, Van Persie e Robben. Atacantes eficientes, como Van Nistelrooy, que ficou no grupo, e Huntelaar, que tem tido bom começo no Schalke 04. Dá para continuar sendo bem vista (até ingenuamente) pela maioria dos torcedores. E não virar apenas um bando de porcos fardados de laranja.
Hora de reagir
Certo, Alemanha e Turquia são os dois rivais mais fortes do grupo A das Eliminatórias da Euro 2012. No entanto, a Bélgica precisará mostrar, agora, que estará alerta a eventuais bobeadas dos principais rivais. E terá a chance para conseguir as vitórias, contra Cazaquistão, rival mais fraco, e Áustria, de qualidades semelhantes aos Diabos Vermelhos.
Para tais jogos, Georges Leekens decidiu mudar um pouco o cenário dos Diabos Vermelhos. Sim, a base ainda está lá: Kompany, Van Buyten, Fellaini, Witsel, Defour, Hazard e Lukaku. No entanto, alguns jogadores representaram novidades, como Dedryck Boyatá e Dries Mertens, ambos em boas fases nos seus clubes, como o técnico anunciou, quando falava da convocação do defensor do Manchester City: “Ele joga quase semanalmente partidas de alto nível pela Premier League, e não há muitos jogadores belgas a terem essa experiência.”
Mertens, por sua vez, teve azar: bem no Utrecht, o meio-campista já sofreu uma lesão no metatarso, e não poderá jogar. Mais responsabilidades para outros jogadores que atuam pela primeira vez na Bélgica, como Yassine El Ghanassy, do Gent, ou Marvin Ogunjimi, do líder Racing Genk – que também deu à seleção Jelle Vossen e Kevin de Bruyne.
Será bom que estes jogadores passem a render logo em suas primeiras partidas envergando a camisa vermelha. Porque, em caso de deslize, a Bélgica começará, outra vez, a ver suas chances de voltar a uma grande competição diminuídas.



