Podia ser antes

Já foi escrito aqui, há algumas colunas, que o Ajax vive uma espécie de dèja vu da temporada 2010/11. De time praticamente desenganado no Campeonato Holandês, virou uma máquina ganhadora, empilhando vitórias para chegar ao título nacional. Foi assim no ano passado, terminando com o apoteótico 3 a 1 sobre o Twente, em plena Amsterdam ArenA, para lavar a alma da torcida e conquistar o título da Eredivisie, após sete anos de jejum.
Pois bem. Onze meses e catorze dias após aquele inesquecível 15 de maio, os Ajacieden voltam a encontrar os Tukkers em bela posição. Já estão com 11 vitórias consecutivas no campeonato – a última foi conseguida num 2 a 0 meio insípido contra o Groningen, no domingo passado. Estão com seis pontos à frente de AZ e Feyenoord, a três rodadas do final do campeonato. E Alkmaarders e Rotterdammers se encontrarão, também, na 32ª rodada. Caso empatem, uma vitória do Ajax já garante a ele o bicampeonato. Caso haja vencedor também em Roterdã, bastará aos Amsterdammers vencer também o VVV, em casa, na próxima quarta.
E o título será merecido, caso venha. Afinal de contas, o time de Frank de Boer apresenta ofensividade respeitável: é o melhor ataque da Eredivisie, com 84 gols. De mais a mais, a sempre frutífera De Toekomst recomeça a ser útil ao elenco. Da base atual que Frank leva a campo em cada rodada, nada menos do que oito jogadores foram formados no próprio Ajax – nove, se incluírmos aí Enoh, surgido no Ajax Cape Town, satélite do clube holandês na África do Sul. Óbvio que não é tendo uma boa formação de jogadores que o sucesso está garantido. De toda forma, é prova de que o objetivo demonstrado por Johan Cruyff, quando decidiu participar mais da vida do clube, está sendo alcançado: ajudar o Ajax a voltar a ter um espírito, uma alma.
Todavia, esse bicampeonato virtual poderia se tornar real com mais facilidade. Afinal de contas, nunca se duvidou da capacidade que o Ajax tem para dominar o futebol holandês, como fez até o meio da década passada. O problema é que vários elementos impediam uma imposição do tamanho que o clube tem dentro de seu próprio país. Um deles foi a vulnerabilidade do cenário interno. Em 2010/11, era inevitável que a entrada repentina de Cruyff na disputa política do clube, por mais espaço aos ex-jogadores, respingasse no time. Martin Jol saiu, Frank de Boer foi içado da base e efetivado, o clube caiu fora da Liga dos Campeões (e, depois, da Liga Europa)… até que as promessas foram se entrosando, o time engatou a sequência de sete vitórias consecutivas nas últimas rodadas da Eredivisie, e sabe-se no que resultou.
Agora, alguns problemas se repetiram. A turbulência vivida entre Cruyff e outros membros do agora desativado conselho especial, após a contratação abortada de Louis van Gaal como diretor técnico, novamente deixou a situação tensa. E, ainda que a influência tenha sido mínima, existiu, é inegável. Além disso, houve a contusão de alguns importantes jogadores, como Van der Wiel, o que forçou Frank de Boer a pegar mais gente do Jong Ajax, o time de aspirantes. Paralelamente, se atuações dignas e empolgadas foram vistas na Liga dos Campeões, a equipe pareceu preguiçosa em várias rodadas do Holandês. Talvez, por isso, a queda.
Mas, assim como na temporada passada, Frank deu sorte de ver o entrosamento entre os garotos ser rápido. Basta ver o exemplo da lateral direita: Ricardo van Rhijn assustava no início, e esperava-se ardentemente pela volta de Van der Wiel. Mas a recuperação do problema na virilha foi demorando. E, aos poucos, Van Rhijn foi se entrosando. Hoje, se não é o lateral dos sonhos, pelo menos faz o seu papel sem inventar muito. De mais a mais, os resultados recentes da base continuam dando razões para que ela seja utilizada: o vice-campeonato da NextGen, o título da Copa de Juniores da Holanda (vencida contra o Utrecht, nesta semana)… desempenho que revela tanto jogadores já acostumados a ficarem vez por outra no banco, como Davy Klaassen, e atletas que ainda esperam chances, como Stefano Denswil ou Lesley De Sa.
Claro que nada está decidido, é sempre bom lembrar. Afinal de contas, há o AZ, ainda com uma leve esperança. Mas, por incrível que pareça, o rival que mais deve assustar é o Feyenoord. O Stadionclub também experimenta uma ótima fase: há oito partidas sem derrota, vê alguns jogadores se unirem a Guidetti, o inegável protagonista da temporada no De Kuip. Como Erwin Mulder, cada vez mais seguro no gol. Ou Jordy Clasie, começando a dominar a armação no meio-campo. De todo modo, é Guidetti quem continua sendo o destaque indubitável. Sua ausência contra o AZ deverá exigir alguns litros a mais de suor de todos os comandados de Ronald Koeman.
E dificilmente isso será suficiente para evitar o bicampeonato do Ajax. Que merece comemorações. Mas que também poderia estar perto sem tantos sobressaltos.
Estão vendo?!
O Club Brugge tinha tudo para ficar a apenas um ponto do Anderlecht, no hexagonal final pelo título, na Bélgica. Perdeu de 1 a 0. Mauves tranquilos de novo. Pelo menos, por enquanto. E a roda da fortuna na Jupiler League vai rodando, rodando…



