Holanda

As perguntas sobre a seleção da Holanda aumentaram

Pavel Vrba chegou ao cargo de técnico da seleção da República Tcheca neste 2014, montado no sucesso que fez no Viktoria Plzen, com o time frequentando competições europeias e tudo o mais. Pois bem: tendo visto a derrota da Holanda no amistoso contra a Itália, o treinador do primeiro adversário da Oranje nas eliminatórias da Euro 2016 também lamentou a resolução rápida do jogo: “Estávamos curiosos para ver como a seleção jogaria sob Hiddink, mas ficou difícil, pelos dois gols e o cartão vermelho. Foi chato, porque aprenderíamos muito num jogo de onze contra onze”.

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Pois bem: de todo modo, Vrba parece ter aprendido bem o pouco que pôde observar. Só que a probabilidade maior é de que a seleção holandesa novamente viu o quão frágil e pouco confiável é sua defesa. Seja no 4-3-3, seja no 5-3-2, ou em qualquer outro esquema. A derrota por 2 a 1, em Praga, na estreia pela qualificação para o europeu de seleções, daqui a dois anos, revelou que Guus Hiddink já terá um probleminha chato para resolver: escolher o esquema que mais proteja sua zaga. E os jogadores precisam esquecer o terceiro lugar na Copa do Mundo. O quanto antes.

Não, a derrota não significa o inferno total e absoluto. Afinal de contas, com mais nove jogos, disputa por 24 vagas e chance de ir à Euro nem que seja pelos play-offs, a Laranja precisaria fazer muita “força” para não estar na França em 2016. No entanto, é inegável que certos problemas apareceram e não podem ser escondidos. Por exemplo: a desconcentração que ainda perturba a Holanda. Já aparente nos espaços deixados para a Itália no amistoso, ela novamente deu o ar da (des)graça na inacreditável pixotada de Janmaat que permitiu o gol da vitória aos tchecos.

A falha do lateral direito é perdoável, até porque ele já fizera um recuo do mesmo modo para Cillessen, minutos antes do erro decisivo. Enfim, coisas que acontecem. Mas é preciso reconhecer que Janmaat abusou da sorte ao fazê-la, nos acréscimos de uma partida fora de casa, da qual a Holanda sairia de casa arranjando um ponto – nada excelente, mas servia para começar os trabalhos. Deu errado.

Errado a ponto de fazer com que Guus Hiddink saísse do campo cuspindo fogo, e demorasse a chegar para as entrevistas coletivas. “Eu precisei me segurar um pouco. Estava furioso e por isso demorei tanto”, justificou o treinador à emissora de tevê NOS após o jogo. Só que declarações posteriores, na mesma entrevista, mostraram a irritação que outro assunto fundamental traz a Hiddink: a tática a ser adotada na Oranje.

Ao ser confrontado com o fato de ter deixado o 4-3-3 de lado e escalado a equipe no 5-3-2 visto na Copa, o técnico cresceu a voz para cima do jornalista Jack van Gelder: “Na semana passada, você mesmo me disse que eu talvez precisasse voltar [ao antigo esquema]. Eu lhe ouvi. Você está se contradizendo”. Depois, mais calmo, acabou justificando, ainda com uma alfinetada: “Não sei se você analisou a República Tcheca, mas se o fez, sabe que os laterais tchecos jogam bem adiantados, e poderíamos aproveitar isso muito bem com o 5-3-2”.

Não deu certo, como se sabe. E aí, como se sabe, a culpa é dos jogadores. A Holanda aceitou a pressão imposta pelos anfitriões. Atacou pouquíssimo pelas pontas, só trazendo pressão em jogadas esparsas de Van Persie e Depay (o único destaque da Oranje na partida). Percebendo isso, os tchecos começaram a chegar. Com Rosicky, com Krejci, com Lafata… e com Dockal, autor do belo gol de abertura.

Só aí houve certa mudança, com a entrada de Narsingh e a volta do 4-3-3 visto no amistoso contra a Itália. Não que a Holanda tenha melhorado demais, mas passou a ser mais ofensiva, a criar mais chances, a dar mais vazão à rapidez de Narsingh e Depay… o empate até surgiu numa jogada de outro tipo (bola parada), mas pelo menos fazia mais justiça. Até a falha de Janmaat. Que deu à seleção da Holanda uma certeza: é hora de esquecer a Copa do Mundo e decidir de uma vez como será iniciado o trabalho rumo à Euro 2016. E talvez a melhor forma disso acontecer foi com o fiasco em Praga.

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E agora?

Já fora o goleiro Eddy Pieters Graafland, que tivera tradição no Ajax – mas transferiu-se para o Feyenoord em 1958, após oito anos em Amsterdã, e conseguiu o maior título de sua carreira, sendo campeão europeu imediatamente antes de parar de jogar, em 1970. Já fora Johan Cruyff, vingando-se da diretoria Ajacied que não quisera renovar seu contrato com uma transferência para o Stadionclub – e com o título da temporada 1983/84. O último dos cidadãos a fazer a arriscadíssima mudança de um arquirrival holandês para outro fora o grego Angelos Charisteas, em 2006.

Pelo menos, até há dois domingos, quando a bomba explodiu. Que o goleiro Kenneth Vermeer, reserva de Cillessen no Ajax, queria deixar o clube, era claro – até para retomar ritmo de jogo e voltar à disputa pela vaga de titular no gol da seleção. O que não se suspeitava é que ele iria justamente para o Feyenoord. Primeiro, porque a rede de boatos nada apontava nessa direção. Depois, porque goleiro não era o grande problema do clube de Roterdã.

A surpresa foi expressada por Frank de Boer, técnico do Ajax: “Pediram que eu me sentasse antes de me contarem”. E, claro, o técnico dos Godenzonen não escondeu o desapontamento: “Kenneth é dos melhores goleiros da Holanda, junto de Cillessen. O Feyenoord fica mais forte com a contratação, e não devia ser essa a intenção. Não é necessário tornar o concorrente mais forte do que já era”. Vermeer justificou-se: “Sei como são as relações entre Ajax e Feyenoord, e que esta transferência dói para muitos. Mas a única pergunta que fiz para mim é se era o melhor a fazer. Era uma chance que eu deveria agarrar com as duas mãos. Espero que todos entendam”.

O chamado “futebol moderno” tem destas coisas, de fato. Jogar num clube rival é cada vez mais natural, e se o jogador em questão suporta as vaias pesadas quase certas (no caso do novo reforço, são ainda mais certas por ser ele cria da base do Ajax), tudo bem, e a vida segue. E o Ajax já se recompôs, contratando Diederik Boer, do Zwolle, para a reserva de Cillessen. A questão a ser respondida será se Vermeer conseguirá a confiança que Erwin Mulder nunca conseguiu ter por completo da torcida do Feyenoord – injustamente, diga-se de passagem.

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