Pena

“Não se pode mais falar de futebol após o que aconteceu. Não quero nem mencionar isso, não tem sentido. Daria o título em troca da recuperação de Wasilewski.” E estas palavras não saíram da boca de um jogador do Anderlecht, clube que perdeu dois titulares com graves contusões, no clássico contra o Standard Liege, pela quinta rodada da Jupiler League.
Quem falou a frase que inicia esta coluna foi um dos jogadores do Standard Liège. Milan Jovanovic exprimiu como as fraturas expostas em tíbia e fíbula de Marcin Wasilewski, lateral-esquerdo dos Mauves, que o tirarão do resto da temporada, tornaram todo o resto irrelevante, no 1 a 1 do Constant Vanden Stock; o início avassalador dos Mauves no jogo, a capacidade admirável de reação dos Rouches, a tensão do segundo tempo, quando qualquer uma das equipes poderia ter vencido.
Nos primeiros 26 minutos de jogo, atuações promissoras de Chatelle, Van Damme e Suarez fizeram com que os Paars-Wit encurralassem os visitantes no campo de defesa. Aos 11 minutos, o time trouxe a maior jogada de perigo: aproveitando escanteio, Van Damme cabeceou, quase na pequena área, e Marcos Camozzato tirou em cima da linha, evitando a abertura do placar.
Entretanto, uma falta já mostrara o clima tenso do jogo: aos nove, Jan Polak recebeu duro carrinho de Igor de Camargo. Enquanto o brasileiro naturalizado recebeu um cartão amarelo do árbitro Jerome Efong Nzolo, o volante tcheco saiu com torção nos ligamentos cruzados do joelho. E, aos 25 minutos, veio o lance há quase uma semana repercutido Bélgica afora: pela esquerda, Defour fez um passe rasteiro para Witsel. A bola correu demais, e Wasilewski saiu deslizando, para dar um carrinho e mandar para a lateral. Sem parar, o meia do Standard foi disputar a bola… e acabou pisando no polonês, consumando a fratura.
Dizer que Witsel teve intenção em ser maldoso no lance é um pouco precipitado. Afinal, só o próprio meia pode dizer o que lhe passava pela cabeça naquele instante. Além disso, tascar-lhe o rótulo de “carniceiro perna-de-pau” sem mais nem menos também é uma opinião exagerada. Nunca é demais lembrar que Witsel é o atual “Chuteira de Ouro”, como melhor jogador da Jupiler League na temporada passada. Além disso, há algum tempo, era (e é) apontado como uma das boas revelações do futebol do país, na década. Isto é, o nativo de Guadalupe tem algum talento.
O que não o exime, definitivamente, de culpa. Nem torna o cartão vermelho dado por Efong Nzolo injusto. Se não teve a intenção de causar danos tão grandes a Wasilewski, conforme declarou após o jogo (“Não jogo futebol para quebrar as pessoas, jogo pelo prazer de jogar. Peço desculpas”), Witsel pecou pela imprudência, no mínimo.
Além do mais, o meio-campista teve comportamento totalmente deplorável, na entrevista coletiva em que falou sobre a punição de três meses concedida pela federação belga – que pode ser estendida aos torneios da Uefa. Ao invés de reconhecer o erro cometido, Witsel escondeu-se na infeliz frase: “Tenho a sensação de que só tive uma punição mais severa porque sou jogador do Standard. Se eu jogasse no Roeselare, as coisas seriam diferentes.”
Mesmo com todas as infelicidades, porém, ainda houve futebol. E o Standard aproveitou o abalo sofrido pelos Mauves para fazer 1 a 0, em belíssima tabela entre Igor de Camargo e Mbokani, concluída pelo congolês. Depois, Chatelle recebeu a bola pela direita e cruzou a Boussoufa. Na ponta da pequena área, o marroquino recuou um pouco para Guillaume Gillet. E o volante entrou chutando forte para empatar.
No segundo tempo, Silvio Proto foi o personagem principal do Anderlecht. Fazendo duas defesas espetaculares, em chutes de Jovanovic e Igor de Camargo, o arqueiro do time de Bruxelas comprova sua capacidade para não ser mero “tampão” até a volta de Zitka – e, por tabela, para tomar o lugar de Stijnen no gol da Bélgica. Por outro lado, o time da casa investia em contra-ataques sempre perigosos, mantendo a defesa dos Liègeoises sempre atenta – houve até um gol anulado, de Van Damme, por falta.
Mas nem a tensão característica de um bom jogo impediu que a gravíssima lesão de 'Wasyl” virasse o assunto imperativo na Bélgica. De lado a lado, as alfinetadas sobraram. Herman van Holsbeeck, presidente do Anderlecht, criticou duramente o comportamento do Standard, afirmando que “um grande clube tem de ter respeito pelo adversário”. Do lado do atual bicampeão, Dominique D'Onofrio criticou a suspensão de Witsel, dizendo estar provado que “o pessoal do comitê disciplinar nunca jogou futebol na vida.”
Enquanto restou a Wasilewski divulgar uma nota de agradecimento pelas condolências e ver controvérsias a respeito da duração de sua recuperação (o médico da seleção polonesa afirmou que o lateral teria condições em março, para depois ver o treinador Leo Beenhakker desmenti-lo), Witsel começou a sofrer as consequências. Além de perder o patrocínio de material esportivo – a espanhola Joma o deixou, sendo trocada pela Puma – e saber que não estará mais na capa do álbum produzido pela Panini para a Jupiler League, o meia sofreu ameaças de morte.
Sem contar os boatos de que Jovanovic teria se desentendido com ele no vestiário, por suposta falta de consideração com a situação do lesionado. Ou a tensão sobre como será o encontro com os jogadores do Anderlecht que estarão na seleção da Bélgica, para as partidas contra Espanha e Armênia, pelas Eliminatórias da Copa de 2010.
De todo modo, a fratura de Wasilewski não vitimou só o polonês. Vitimou Witsel, que ficará com uma mancha indelével em sua carreira. E vitimou o futebol belga.
Eles podem voltar nos braços do povo
Na História do Brasil, ficou famoso o período entre 1945 e 1950. Mesmo que o Estado Novo estivesse agonizando, era grande o número de adeptos do “queremismo”, que defendiam a permanência de Getúlio Vargas no poder (o nome do movimento vinha das palavras de ordem “Queremos Getúlio”). O queremismo fracassou, e Vargas teve de deixar a Presidência nas mãos de Eurico Dutra. No retiro voluntário, na lendária fazenda de São Borja (RS), o velho caudilho tomou fôlego. Nas eleições de 1950, Vargas veio com o lema “ele voltará nos braços do povo”. E reassumiu a cadeira principal do Palácio do Catete.
Pois situação semelhante começa a ocorrer na seleção holandesa. Às vésperas do amistoso contra o Japão, neste sábado, em Enschede, e com a partida que fechará a participação nas Eliminatórias da Copa de 2010, contra a Escócia, em Glasgow, no dia 9, os problemas da Oranje continuam deixando várias dúvidas na torcida. Por mais que Stekelenburg seja considerado o único goleiro holandês promissor, atualmente, e Huntelaar tenha se mudado para o Milan exatamente para ganhar mais ritmo e fixar-se entre os titulares da Oranje, o clamor nacional pela volta de dois veteranos vai crescendo mais e mais. E ambos demonstraram, nessa semana, que a ideia começa a não lhes parecer mais estranha.
Entrevistado após a cerimônia de premiação do Melhor Jogador da Temporada 2008-09 na Holanda, e ainda recuperando-se de cirurgia na mão, Edwin van der Sar reconheceu o pedido para que volte a usar a camisa 1 que envergou em 130 partidas: “É uma discussão que tomou um nível nacional. Mas recuperar-me de minha contusão é o importante. Daí, volto ao Manchester United, e depois vemos o que acontecerá para a seleção.”
O outro jogador pedido pela torcida foi ainda mais claro. Recuperado da lesão no tornozelo que lhe exigiu um longo período de recuperação, Ruud van Nistelrooy disse, em entrevista ao diário Marca: “Lutarei pelo meu lugar no elenco que irá à Copa.” Sim, o Marca não é lá um exemplo muito grande de isenção jornalística. Mas, com o fenômeno dando-se mais em relação ao Real Madrid, fica difícil imaginar em distorção das palavras de “Van Gol”.
A possível volta de ambos à Oranje já causa polêmica. O ex-goleiro Stanley Menzo declarou, ao site oficial da seleção, posicionar-se contra o retorno do cidadão que o tirou do gol do Ajax, em 1993. E Bert van Marwijk, falando à imprensa, preferiu a cautela. Mas, pela pressão popular, não é difícil imaginar que Stekelenburg e Huntelaar tenham de abrir espaço para que os dois veteranos voltem. Nos braços da torcida.



