Para voltar a impor respeito

Uma das grandes críticas que se faz aos campeonatos europeus é sobre a falta de variedade nos seus ganhadores. Diz-se que poucos clubes podem sonhar, de verdade, em conquistar uma liga, o que faz com que os torneios fiquem chatos. E, de certa forma, há razão nisso. De todas as grandes e médias ligas europeias, somente Alemanha e França passaram de seis clubes campeões nos últimos 15 anos.
Com cinco clubes campeões, há Holanda, Itália, Rússia e… Bélgica. Tome-se o caso belga. Das últimas 15 temporadas, o Anderlecht ganhou por seis vezes. E, logo atrás, veio o Club Brugge, com quatro conquistas. Pouco impressionante, quando se fala dos dois maiores campeões do país (Anderlecht, com 30 títulos, bem à frente do Brugge, com 13).
Só que a dupla que domina o futebol belga, historicamente, teve seu domínio alterado nas últimas quatro temporadas. Primeiro, em 2008 e 2009, o Standard Liège virou o foco para a Valônia, e voltou a ser notícia, finalizando o jejum de 25 anos com um bicampeonato. E, após o Anderlecht voltar a levantar o troféu, o Racing Genk surpreendeu, ganhando o torneio que não levava desde 2001/02.
Mas, agora, passadas dez rodadas, dá para ver Anderlecht e Club Brugge sedentos para retomar o domínio. Porque os Mauves lideram a primeira fase da Jupiler League, com 23 pontos, enquanto os rivais de Bruges vêm atrás, com 22 pontos. Ambos já abriram ligeira vantagem para o Gent, terceiro colocado, que tem 19.
E a vantagem foi aberta, em grande parte, pela vitória do Club sobre os Búfalos, no último domingo. O 2 a 0 refletiu as qualidades do time que Adrie Koster tem nas mãos. Uma equipe bastante segura, firme. Alguns membros da base já estavam no time desde os tempos apáticos de Jacky Mathijssen, como o meio-campo Nabil Dirar e o atacante Jonathan Akpala. Ou até o armador Vadis Odjidja-Ofoe.
Mas, para esta temporada, algumas aquisições deram muito certo. Precisamente, duas vindas do mesmo time, o NEC holandês. Niki Zimling, emprestado da Udinese, continua sendo o que já ensaiava em Nijmegen: um armador promissor. E Bjorn Vleminckx vai, aos poucos, dando mais confiança que pode cumprir o papel para que veio: ser o homem-gol do Club Brugge. Ainda fez poucos gols – três, comparados aos 11 de Jérémy Perbet, do Mons, principal goleador da Jupiler League.
Do Anderlecht, já se falou: do crescimento, da maior confiança que o time aparenta ter. E isso foi coroado com um 5 a 0 inapelável no clássico contra o Standard – poderia ter sido 6 a 0, se o árbitro Serge Gumienny houvesse dado gol de Mbokani, em que Laurent Ciman tirou a bola com ela já dentro da meta. Tudo bem: Mbokani marcou, Jovanovic também, para dor adicional dos Rouches. E Marcin Wasilewski coroou de vez sua recuperação, fechando a goleada em cima do mesmo clube contra o qual teve contusão que pôs em risco sua carreira, há dois anos e dois meses.
Na Liga Europa, os dois clubes também prosseguem com chances de classificação, embora tenham cenários diferentes. Com a virada sofrida, nos longos acréscimos, para o Birmingham, a equipe caiu para a segunda posição do grupo H – e pode até cair mais, caso perca para os Blues, na próxima rodada, e o Braga vença o Maribor. Já os Mauves estão com a classificação bem encaminhada: três vitórias em três jogos, embora tenham enfrentado certa dificuldade contra o Sturm Graz. Só que veio, enfim, o 2 a 0 – com um dos gols feito por Matías Suárez, outro grande destaque da equipe de Ariël Jacobs em 2011.
De todo modo, é melhor do que a campanha do Racing Genk, que corre sério risco de ficar na lanterna do grupo E da Liga dos Campeões. E é mais uma prova de como os dois velhos dominadores do futebol belga decidiram se mexer para retomar o terreno perdido.



