Holanda

Para apagar o passado

Há pouco mais de três anos, a coluna falava sobre “a volta do polêmico”. Após um longo período de ostracismo, Louis van Gaal conseguia um feito indubitável, ao colocar o AZ na rota de um título que encerraria jejum de 28 anos sem títulos holandeses. E, de Alkmaar, o marido de Truus partiu para reerguer sua carreira: indo para o Bayern Munique, garantiu uma ótima temporada em 2009/10, quase alcançando a Tríplice Coroa. Depois, fracassou, com os problemas de relacionamento que volta e meia minam seus trabalhos. Mas a grife estava refeita.

Mas Van Gaal andava em compasso de espera. Ouviu desinteressadamente a proposta de alguns clubes holandeses, como PSV e Feyenoord. Sequer foi procurado por peixes graúdos da Europa. Tudo porque tinha uma meta: treinar uma seleção de ponta, qualquer que fosse ela. Pois bem, a queda de Bert van Marwijk juntou a fome com a vontade de comer. Porque o anúncio de sua contratação para treinar a seleção da Holanda, no último final de semana, realizou seu desejo. E abriu-lhe as portas para que o grande trauma de seus 21 anos de carreira como técnico seja exorcizado.

Porque nem mesmo a segunda passagem turbulenta pelo Barcelona, em 2002/03, quando brigou de novo com Rivaldo, fazendo-o sair de Les Corts, num rompimento ruim para ambas as partes; nem o período apático como diretor técnico do Ajax, entre 2004 e 2005; nem mesmo ter perdido a chance de levar um time já combalido pelas perdas ao bicampeonato europeu, em 1995/96; enfim, nada disso é um fantasma tão grande para Louis quanto ter visto a Oranje ficar de fora da Copa de 2002 sob seu comando. Fantasma que cabe ser lembrado.

Até pode se defender o trabalho de Louis, então: ele sofrera perdas duras entre os possíveis convocados (Van Nistelrooy sofrera séria lesão no tornozelo; Bergkamp já anunciara a aposentadoria), peças-chave viviam má fase (Van der Sar pelejava na Juventus; a ala holandesa do Barcelona negava fogo; Davids e Frank de Boer estavam suspensos, por uso de nandrolona) e alguns jogadores que surgiam e foram por ele convocados nunca viriam a ser grande coisa na carreira (casos de Jeffrey Talan, Patrick Paauwe e Victor Sikora). No entanto, ainda havia um elenco respeitável, que poderia muito bem ter ido ao Japão/à Coreia do Sul para disputar a Copa.

Mas não foi. Pelos resultados ruins justamente nos jogos mais importantes das Eliminatórias. Em 2000, houve um empate contra a Irlanda, em Amsterdã (2 a 2), e a derrota para Portugal, em pleno De Kuip (2 a 0); no ano seguinte, um 2 a 0 no Estádio das Antas, contra os Tugas, foi transformado num 2 a 2 obtido nos sete minutos finais de jogo. E, finalmente, a humilhação suprema: com um a mais em campo, ser superado pela Irlanda, em Dublin, no 1º de setembro de 2001 que anunciou que a Oranje não estaria no Mundial.

De lá para cá, passaram-se quase onze anos. E isso, talvez, explique porque a chegada de Van Gaal para sua segunda passagem pela Oranje tenha sido relativamente bem recebida. Por técnicos, como Frank de Boer e Ronald Koeman, e pela torcida. Até mesmo Johan Cruyff, desafeto assumido e militante, deu a ele o benefício da dúvida, em sua coluna no “De Telegraaf”, criticando mais a federação: “Escolheram um técnico em tempo recorde. Se é uma decisão boa ou ruim, dependerá do que vier. Não pode ser assim. Mas espero que ele traga de volta ao futebol holandês a atração que sempre tivemos.” Enfim, o pensamento era de “o que passou, passou”.

Claro, Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da KNVB, sabe que Van Gaal traz junto de si uma série de aspectos controversos. Um deles é pensar em quais serão as novidades que o técnico trará à base já conhecida. Por exemplo: caso o novo técnico não chame Douglas, que era nome praticamente certo sob Van Marwijk para o pós-Euro, sempre haverá quem ache que o zagueiro do Twente não está nas convocações “porque é brasileiro”.

E sabe-se que Van Gaal é insistente na tentativa de fazer o time jogar como ele quer. Caso não consiga tourear com jogadores que causaram problemas na Euro, como Huntelaar e Van der Vaart, corre-se o risco de ver repetido um cenário que ajudou a minar o trabalho de Van Gaal nas eliminatórias para 2002: um técnico turrão tentando doutrinar jogadores já acostumados às luzes da ribalta, e pouco afeitos a alguém que lhes diga o que fazer, de modo duro e firme.

De todo modo, também sabe-se o que o novo técnico pode tirar de um elenco que esteja disposto a segui-lo: um futebol atraente, como não se viu da Holanda sob Van Marwijk, e a capacidade de tirar o máximo de jogadores medianos (ou o time do AZ campeão holandês em 2008/09 tinha algum fora de série?). Sendo assim, não impressiona que Alloysius Paulus Maria van Gaal tenha reagido esperançosamente ao novo emprego: “Este é o desafio que eu esperava.” Agora, fica a cargo dele, um dos maiores técnicos da história do futebol holandês, apagar o passado amargo que teve quando chegou ao cargo para o qual volta.

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