Holanda

Os mágicos de Roterdã

Imagine reunir em um mesmo time Maradona em um fim de carreira brilhante e Messi ainda em seus primeiros dias. Uma ocasião histórica, com certeza. Com títulos, então, melhor ainda. Algo semelhante aconteceu no futebol holandês na temporada 1983 / 1984.

Eram momentos complicados para o voetbal. Depois de vice-campeonatos em duas Copas do Mundo consecutivas, a Holanda vivia um momento de entressafra. Cruyff havia se aposentado, mas voltou atrás e resolveu ganhar dinheiro nos Estados Unidos, jogando por alguns anos no Los Angeles Aztecs e no Washington Diplomats. Em 1981, com 34 anos, Cruyff retornou a seu país e viu que conseguiria ainda jogar mais alguns anos. Foi para o Ajax, o clube pelo qual havia dominado a Europa de 1972 a 1974, e aumentou sua coleção de troféus. Em 1983, pediu aumento, negado pela diretoria e mudou-se para o rival Feyenoord.

Sediado em Roterdã, o Feyenoord é um dos mais tradicionais clubes do país. Fundado em 1908, chegou à primeira divisão em 1917, de onde nunca saiu. Refletindo a rivalidade entre Amsterdã e Roterdã, Ajax e Feyenoord passaram a dominar o futebol holandês a partir dos anos 30. Na década de 1960, o Feyenoord viveu um período de glórias, que culminaria com a conquista da Copa dos Campeões em 1970/71 (2 a 1 sobre o Celtic na final). Entre 1961 e 1974, comandada pelo austríaco Ernst Happel, a equipe venceu o Campeonato Holandês seis vezes.

No início dos anos 1970, a Holanda chegava ao topo do futebol europeu: o Ajax de Cruyff levantou três Copas dos Campeões, enquanto a Taça UEFA foi vencida pela equipe de Roterdã em 1974. Um ciclo dourado que chegava ao fim entre os times holandeses no final da década.

Foram dez anos de seca para o Feyenoord. Em 1982, porém, chegou ao time um jogador que atuava majoritariamente como líbero e era um verdadeiro líder dentro de campo. Contratado junto ao Haarlem, depois de ter levado o pequeno time à Taça UEFA, e cobiçado por times ingleses como Arsenal e Ipswich, Ruud Gullit tinha grande visão de jogo, técnica refinada e os dreadlocks que sempre foram sua marca registrada. Em três temporadas no Feyenoord, foram 85 jogos e 30 gols.

Ao final da temporada 1982/83, o Ajax surpreendeu ao não renovar o contrato do ídolo Cruyff, líder da equipe no bicampeonato holandês e na conquista da Taça da Holanda em 1983. Insatisfeito por não ter seu pedido de aumento de salário atendido, o veterano fechou acordo com o Feyenoord, que apostou em um genial, porém temperamental, jogador de 36 anos.

O casamento entre Gullit e Cruyff saiu melhor que a encomenda. Com a dupla, ao lado de jogadores experientes como o zagueiro Michel van der Korput, o goleiro Joop Hiele e o meia Peter Houtman, o Feyenoord reviveu dias de glória que já pareciam esquecidos. Gullit foi o artilheiro da Copa da Holanda, com nove gols, e marcou outros 15 na Eredivisie. A combinação do melhor do passado com um dos destaques do futuro do futebol do país gerou dois troféus, do Campeonato Holandês e da Copa da Holanda. Para Gullit, um prêmio extra, de jogador holandês do ano. Para Cruyff, o prazer de encerrar a carreira em alto nível.

Ao relembrar a temporada ao lado de Cruyff, Gullit diria, anos depois: “Taticamente, estava acima do resto. Eu o olhava e pensava: tem 36 anos e é muito bom. O que deve ter sido jogar com este homem quando tinha 24?” O conhecimento aprendido com Cruyff o aproximou do conceito de Futebol Total. Forte fisicamente e com uma técnica privilegiada, o jogador conseguia desempenhar várias funções em campo: líbero, meia, trequartista e segundo atacante.

Ao final da temporada 1984/85, Gullit se transferiu para o PSV, onde foi bicampeão nacional nos dois anos seguintes. Em 1987, se juntaria a Marco van Basten (e mais tarde, Frank Rijkaard) no Milan de Arrigo Sacchi, onde faria parte de um dos clubes mais vencedores da história, campeão europeu em 1989 e 1990. Com essa nova geração, a Holanda voltou a ter uma seleção de respeito, vencedora da Eurocopa de 1988 e semifinalista em 1992.

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Equipe Trivela

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