Holanda

Ordens do Coronel

A escolha de Johan Cruyff para elaborar uma nova estrutura para o departamento técnico do Ajax e a contratação de Marco van Basten para treinar a equipe a partir da próxima temporada foram notícias amplamente divulgadas pela imprensa internacional.

As duas decisões chegam como conseqüência de um profundo exame sobre os fracassos acumulados pelo time nos últimos dez anos. Nove pontos atrás do PSV na Eredivisie, o Ajax caminha para o quarto ano sem o título nacional, além de ter dado vexames históricos na Europa.

O Ajax se convenceu de que deveria tomar medidas drásticas depois de receber os resultados do relatório Coronel, estudo independente que tinha como objetivo identificar as causas da decadência esportiva e institucional do clube.

O ex-dirigente Uri Coronel chefiou um comitê de oito membros – entre eles os jogadores Stanley Menzo e Theo van Duivenbode – que ficou responsável por estudar o funcionamento interno do Ajax por três meses, avaliar documentos e entrevistar 42 pessoas ligadas ao clube. As avaliações e recomendações do estudo convergiram para uma constatação: a estrutura dos Godenzonen está doente, e não é por acaso que os fracassos em campo têm se acumulado.

O relatório aponta falhas no organograma do Ajax, sugerindo a necessidade de uma separação mais clara entre a direção do clube e o comando do futebol. A estrutura recomendada parece óbvia, mas nem sempre foi seguida nos últimos anos: ou é contratado um treinador que acumule os poderes de diretor de futebol, ou este diretor, necessariamente um “homem do futebol”, segue plenamente a linha de raciocínio do técnico escolhido. Em 2004, Louis van Gaal foi contratado como diretor-técnico, o que parecia uma boa decisão no papel – no entanto, ele e o técnico Ronald Koeman mal trocavam duas palavras. Logicamente, não deu certo.

Segundo Coronel, o conselho administrativo, apesar de seus poderes para contratar e demitir dirigentes do futebol, deveria avaliar o trabalho à distância e não interferir nas questões do dia-a-dia do clube.

A decisão de colocar o Ajax na Bolsa de Valores também é duramente criticada no relatório. Desde a injeção inicial de capital de € 54 milhões, uma década atrás, o clube não obteve grandes benefícios – em parte pelo fato de mais de 15 por cento das ações terem ido parar nas mãos de torcedores, mais interessados nos resultados esportivos do que no sucesso financeiro da entidade. “Sair da Bolsa deixaria o Ajax em condições de encontrar um novo equilíbrio entre ser uma organização profissional e um clube de futebol”, diz Coronel.

O estudo reconhece a já exaltada qualidade do trabalho do Ajax na revelação de novos talentos e sugere que a estrutura seja mantida, mas considera alguns dos técnicos dos times de base incompetentes. Coronel alerta para o fato de jogadores medianos vindos de outros clubes tirarem espaço de revelações do Ajax: “A maioria dos jogadores do elenco profissional tem de ter passado pelas categorias de base. O Ajax só deveria comprar jogadores que sejam jovens e promissores, ou que tenham qualidade a ponto de elevar o nível do time”.

O recado diz muito sobre um elenco que hoje é repleto de jogadores medianos e/ou decadentes, como Luque, Urzáiz e Kuffour.

O relatório cobra do Ajax uma postura mais responsável no relacionamento com a torcida, que deve ser considerada parte fundamental para o funcionamento da engrenagem. “Os torcedores merecem uma comunicação clara”, afirma Coronel. “Sim é sim, não é não, e as promessas devem ser cumpridas – ou então que não sejam feitas”.

E onde entra Cruyff na história? Personagem histórico do clube, o ex-jogador tem o know-how necessário para ajudar a recolocar o Ajax nos trilhos. Muitos podem pensar que Cruyff não colaborava com o clube por ter mais a perder do que a ganhar, mas em um artigo publicado no jornal De Telegraaf ele disse justamente o contrário. Praticamente pediu para ser chamado.

“Ninguém nunca – e digo nunca mesmo – me disse: ‘Conserte isso’. Eles não ousam pedir”, escreveu. “Porque se eu tiver de fazer isso, vou consertar, mas vou fazer de uma forma que muita gente não vai gostar. É por isso que eles me mantêm à distância”.

Quando Cruyff apareceu na reunião de diretoria para discutir o Relatório Coronel, na condição de conselheiro honorário, estava claro que o recado havia sido entendido. O três vezes Bola de Ouro não terá nenhum cargo oficial no Ajax, mas recebeu carta branca para reorganizar o departamento técnico do clube como julgar necessário, inclusive escolhendo e dispensando nomes.

A partir daí, já era apenas questão de tempo a confirmação de Van Basten como treinador. Cruyff tem grande admiração pelo ex-atacante, apesar de seu trabalho irregular à frente da seleção holandesa. Haverá, é natural, a tentação de julgar o acerto da contratação de Van Basten com base na campanha da Holanda na Eurocopa. Uma eliminação na primeira fase, ainda que no grupo de Itália e França, significaria um começo de trabalho com desconfiança.

Van Basten contará com seus auxiliares de confiança, John van't Schip e Rob Witschge, e a princípio se reportará a outro ex-jogador, o diretor-técnico Martin van Geel – que é de certa forma absolvido pelo relatório Coronel quando o estudo aponta o dedo excesso de cargos burocráticos, como “conselheiros técnicos”, na hierarquia do Ajax.

Quando o trabalho de Cruyff estiver terminado – espera-se que ainda antes do fim da temporada – o presidente John Jaakke e seus auxiliares diretos deixarão seus cargos e será implantado o novo organograma. Jaakke, figura impopular entre os torcedores, não deixará saudades e ficará marcado como o comandante do clube em um dos períodos mais difíceis de sua história.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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