O verdadeiro Brasil da Europa

Falar do AZ no Campeonato Holandês desta temporada está beirando o enfadonho. Ainda mais após a rodada do fim de semana passado, quando, beneficiado por empates de Twente e Ajax, o time de Alkmaar abriu onze pontos de vantagem ao vencer, mesmo sem brilho, o NEC Nijmegen, por 1 a 0. Não só isso: finalmente, os Alkmaarders igualaram seu recorde histórico de invencibilidade na Eredivisie, agora com as mesmas 24 partidas da equipe que foi campeã na temporada 1980/81, sendo 12 em casa e 12 fora. E ainda têm o artilheiro (El Hamdaoui, com 20 gols), a defesa menos vazada (14 gols sofridos, dez a menos do que a segunda melhor defesa, do Twente), vários jogadores cogitados para a seleção do campeonato… sinal de que a equipe está pronta para desafios maiores na Europa?
Não. É aí que entra o título da coluna: o futebol holandês, cada vez mais, assemelha-se ao do Brasil – não pelo estilo de jogo (o brasileiro, mais afeito à individualidade, não agrada aos holandeses, obsessivos pela solidariedade dentro de campo, pela individualidade aplicada ao coletivo), mas sim por seus problemas internos. Campeonato nacional de baixo nível técnico, federação com comandantes controversos, talentos saindo cada vez mais cedo, times frágeis em relação a centros mais desenvolvidos da Europa… e a lista não fica só por aí. Um exemplo, aparentemente comezinho, está no fato da KNVB, a federação holandesa, não ter, até hoje, uma versão em inglês, mesmo que a seleção do país tenha vários adeptos mundo afora.
A queda de nível do campeonato nacional, por sua vez, pode ser notada numa comparação entre o AZ à beira do título de agora e o AZ campeão há 28 anos. Além de conseguir desempenho semelhante ao de 1981 (o time de então foi campeão com doze pontos de vantagem sobre o vice Ajax), a equipe atual tem talentos, sim: como já dito aqui há algum tempo, o meio campo armado por Van Gaal é o melhor da Holanda. Porém, dos três jogadores do setor que têm sido convocados constantemente por Bert van Marwijk para a Oranje (Demy de Zeeuw, Schaars e David Mendes da Silva), nenhum deles ganhou a titularidade definitiva. Ao contrário da equipe campeã pela primeira vez, que, bem ou mal, teve dois titulares no time holandês da Eurocopa de 1980, o atacante Kist e o zagueiro Hovenkamp. Isso, para não falar da Oranje que atuou no Mundialito do Uruguai, em 1981, que teve no AZ o maior fornecedor de jogadores (sete). E o que dizer do supracitado Kees Kist, que conseguiu a façanha de ser o Chuteira de Ouro europeu, na temporada 1978/79, ao passo que os atacantes atuais do AZ não conseguem chegar perto de repetir o feito?
E ainda há o fato dos clubes holandeses não terem conseguido adaptar-se ainda à realidade da Lei Bosman. Aí, há erros tanto de dirigentes quanto dos próprios atletas. No caso destes, por má orientação ou até por arrogância, os jogadores acreditam já ter estofo suficiente para tentar a sorte em campeonatos maiores e mais difíceis. Aí, a falta de oportunidade entre o time titular, a indolência, a falha na escolha do novo time ou até a insuficiência técnica acabam por minar as carreiras dos jovens Europa afora. Só entre os bicampeões europeus sub-21, os exemplos grassam: Rigters, Drenthe, Maduro, Krul, Collins John, Medunjanin, Daniël de Ridder…
E os cartolas erram em não ter criado ainda condições para que os talentos holandeses fiquem por mais tempo jogando no país. Até por ser um país pequeno territorialmente, ir para o exterior é quase inevitável, desde os tempos de Faas Wilkes. E a Lei Bosman encarregou-se de diminuir muito a chance de fenômenos como o do último grande sucesso europeu do país, o Ajax do triênio 1994/95/96, em que a média de idade dos jogadores não chegava a 26 anos e a espinha dorsal do time jogava junta desde as categorias de base (pois se, semanas após o título da LC 1994/95, Seedorf já deixava Amsterdã rumo à Sampdoria…). A questão é que os dirigentes não conseguiram desenvolver um modo de fazer com que a Holanda deixasse de ser “exportador de pé-de-obra”. Ao invés disso, colocam a culpa na lei ou deixam o ônus somente com os atletas. Realmente, não parece um país lusófono sul-americano?
Precisava?
O Racing Genk perdeu o pique nas últimas rodadas do Campeonato Belga. Mas vinha bem, seguro no quarto lugar, e a vaga nas semifinais da Cofidis Cup fazia prever um fim de temporada ótimo para solidificar a ascensão. Porém, foi a Copa da Bélgica que acabou desencadeando uma decisão nada alvissareira para o futuro do Genk. Um mau resultado na partida de ida das semifinais (empate em 2 a 2 com o Lierse, vice-líder da Segunda Divisão do país), acabou causando críticas excessivas da torcida. Tão excessivas que o treinador Ronny van Geneugden pediu o boné.
Em caráter interino, os auxiliares Pierre Denier e Hans Visser assumiram o comando, e a equipe conseguiu manter certo nível na última rodada: abriu 3 a 0 contra o Dender, deixou o adversário diminuir para 3 a 2, mas conseguiu vencer, no fim, por 4 a 3, mantendo quatro pontos de vantagem sobre os crescentes Gent e Zulte-Waregem. Entrentanto, demissões repentinas não costumam ser recomendáveis num ambiente estável. A ver como o Racing Genk reagirá.



