Holanda

O símbolo da boa fase

Jonathan Reis fez 1 a 0, aos 24 minutos do primeiro tempo. Um gol bonito, até: recebendo a bola pela direita e batendo cruzado e enviesado, no canto direito de Rob van Dijk. Até aí, placar normal, já que o PSV tem, realmente, um time melhor. Também não foi nada surpreendente o gol contra de Bruno Martins Indi, aos 39, após chute de Afellay. Pior: aos 34, Kelvin Leerdam já fora expulso, pelo segundo cartão amarelo.
O jogo, portanto, parecia totalmente resolvido.

Daí, no segundo minuto da etapa complementar, Jonathan Reis fez mais um. Toivonen ampliou, aos quatro. Jonathan, o seu terceiro na partida. Jeremain Lens fez mais dois, Bálazs Dzsudzsák, outros dois, e Engelaar, um. 10 a 0. A maior goleada que o Feyenoord já sofreu em sua história na Eredivisie. E uma das três maiores vitórias que os Eindhovenaren aplicaram no Campeonato Holandês (houve outros dois 10 a 0, contra o Go Ahead Eagles, na temporada 1973/74, e contra o Volendam, em 1997/98).

Desnecessário dizer a dimensão que tomou a crise que já vivia o Feyenoord, após placar tão elástico. Mas sobre a crise, já se falou na coluna passada – e mais se falará adiante. A questão é que tal placar já mostra como o PSV, após duas temporadas de ajuste, conseguiu se preparar novamente para tornar-se o que é hoje: o principal favorito à conquista da Eredivisie e o melhor holandês na Liga Europa.

A bem da verdade, como sói acontecer, a reestruturação da equipe iniciou-se durante a grande crise da temporada 2008/09, quando o diretor esportivo Jan Reker cometeu vários erros em sua gestão, e, dentro de campo, Huub Stevens foi de encontro ao que o elenco desejava, sendo rapidamente demitido após alguns meses de trabalho intransigente demais.

Só então Reker (que já deixou o clube, no meio do ano) passou a adotar uma postura mais concreta em busca da reestruturação. E começou acertando, em 2010, ao trazer do Schalke 04 a dupla Fred Rutten e Orlando Engelaar, que fracassara fragorosamente em Gelsenkirchen. Como técnico, Rutten já havia mostrado suas credenciais, ao levar o Twente, pela primeira vez, à disputa das fases preliminares da Liga dos Campeões. E fora em torno de Engelaar que a equipe a conseguir isso, na temporada 2007/08, fora construída.

Paralelamente a isso, o PSV já tinha um elenco que, se incomparavelmente pior em relação a outros momentos luminares de sua história, servia para voltar a disputar o título da Eredivisie. Tinha um goleiro de boa qualidade, Isaksson; dois zagueiros razoáveis, Salcido e Rodríguez; um lateral esquerdo promissor, Erik Pieters; e, no ataque, gente até promissora, como Dzsudzsák e Toivonen.

O tempo passou, e o clube continuou se reestruturando. Claro, houve a perda de Salcido. Por enquanto, plenamente preenchida com as boas atuações da dupla formada pelo experiente Wilfred Bouma (cada vez mais recuperado da gravíssima lesão no tornozelo) e pelo promissor Marcelo. Na esquerda, Erik Pieters – agora titular da seleção – cada vez mais amadurece. No meio, Afellay cada vez mais se valoriza, acompanhado por Dzsudzsák. E vieram novos reforços úteis. Como Marcus Berg, que tem, no PSV, a chance de se revalorizar, após o desempenho opaco no Hamburg. Ou Jeremain Lens, garantia de rapidez pela ponta direita.

E há um capítulo à parte, batizado de Jonathan Reis. Justiça seja feita: mesmo quando acabara de chegar do Tupi-MG, e ainda figurava no Jong PSV, o mineiro de Contagem já era reconhecido como uma promessa. Teve algumas oportunidades na primeira metade da temporada passada, e até foi bem. No entanto, em janeiro, foi estranhamente afastado do elenco. E, pouco depois, dispensado do clube. O motivo: suposto uso de cocaína.

Mas Reis se cuidou. E, na metade do ano, durante a Copa, reencontrou-se com Fred Rutten (que sempre teve muitos cuidados com seu lançamento entre os titulares), na excursão que o PSV fez ao Brasil, para amistosos contra Ceará e Vitória. Meio caminho andado para, dali a pouco, ser reintegrado ao clube.

O resultado está aí: com sete gols nos últimos quatro jogos, o brasileiro disputa a artilharia da Eredivisie. Já tomou a posição de Berg, no time titular. E é um símbolo do redivivo PSV, que está invicto no campeonato e pode sonhar em reconquistar a Eredivisie Schaal, duas temporadas depois. Mesmo que nem sequer sonhasse com o 10 a 0.

Depois do trauma, a união

Como já dito, o Feyenoord sofria com vários problemas: a falta de veteranos de qualidade a ajudar a equipe, a juventude excessiva do elenco, os problemas financeiros crônicos. Mas ninguém imaginava que a equipe seria tão facilmente superada pelo PSV a ponto de levar a maior goleada de sua história no campeonato.

Entrega do jogo? Difícil de imaginar, após as declarações de Georginio Wijnaldum: “Dói saber que a posição de Mario Been esteja em discussão. Ele é um treinador de alto nível, e seu coração pertence ao Feyenoord. Ele tem de ficar, estamos todos com ele.”

Mas é fato que Mario Been pensou em demissão, dizendo: “Se vocês querem que eu vá, então eu vou.” No entanto, a hipótese da saída foi afastada de pronto pelo diretor esportivo Leo Beenhakker. De mais a mais, após a goleada, a torcida foi manifestar-se na porta do De Kuip e… um grupo de representantes reuniu-se com Been.

Foi esse o clima para a partida contra o VVV, duelo direto contra o rebaixamento: união contra a grave crise. Que deu certo. Jogando com raça – e contando com o talento de Wijnaldum, autor de dois gols, e Castaignos, que foram personagens principais na vitória por 3 a 0.

No entanto, a crise continua. Nesta semana, foram reveladas perdas da ordem de € 4 milhões. A dívida ronda os € 40 milhões. E o clube começou a vender parte de suas ações, para tentar sanear-se – e recebeu uma injeção de € 17 milhões, de um grupo de torcedores impulsionado por Pim Blokland, empresário bastante interessado em conseguir parte das ações. Muita união será necessária, para passar pelo duro período.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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