Holanda

O que falta?

A festa estava pronta. Após a ótima vitória por 1 a 0 em pleno Vélodrome de Marselha, contra o Olympique, pela partida de ida da fase de 16-avos-de-final da Copa Uefa, a maioria dos torcedores – e, por que não dizer, dos analistas – esperava que o Twente iria fazer valer o “fator casa” e garantir a vaga nas oitavas-de-final. O time jogou bem, satisfez as expectativas de todos… mas ficou de mãos abanando. Após sofrer o gol do OM, não parou de atacar e chegar com perigo ao gol de Mandanda.

De nada adiantou. A eliminação vinda na decisão de tiros da marca penal deixou um gosto amargo nos Tukkers e uma certa incompreensão na cabeça de quem assistiu o jogo. Por que aquela equipe, ocupando com inteira justiça a vice-liderança da Eredivisie, dona de um futebol mais ofensivo até do que o do líder AZ, com muitos jogadores potencialmente importantes, ainda não conseguiu vencer a pecha de “clube médio” e chegar aonde o clube de Alkmaar já está, isto é, na posição de “médio grande”, capaz de perturbar com regularidade o Trio de Ferro? 

Não que a eliminação no torneio europeu seja incompreensível. Afinal de contas, fala-se de um time que, na fase preliminar da Champions League, foi superado com folga pelo Arsenal no placar agregado, sem marcar um gol sequer (2 a 0 em Enschede, 4 a 0 no Emirates Stadium). Mesmo assim, não quer dizer muita coisa – até porque nenhum clube holandês tem um time capaz de encher os olhos de todo o Velho Continente. Além do mais, há algumas temporadas, o Twente vem se preparando para dar o salto a um patamar mais alto na Holanda.

Salto iniciado, pode-se dizer, desde que Joop Munsterman assumiu a presidência do clube de Enschede, em 2004. Após pegar um clube que esteve à beira da falência no fim dos anos 1990, Munsterman mesclou visão administrativa e profissionalismo para concretizar a reestruturação do clube. O resultado está aí: um time que pode até pensar em ampliar seu estádio e dar-se ao luxo não só de recusar propostas do Trio de Ferro holandês, como fez quando o Ajax sondou Eljero Elia, como mesmo cobiçar jogadores dele (Biseswar tem sido cogitado como reforço para o time).

Some-se a isso um time bastante acostumado a jogar junto, cuja base está fixa há, aproximadamente, três temporadas. A defesa é fortalecida pela presença de três pilares. Sander Boschker merece uma citação à parte: mesmo sem uma carreira constante na seleção, o goleiro de 38 anos é um estandarte do clube. Está lá desde 1989 (passou apenas a temporada 2003/04 fora, na reserva do Ajax), com a titularidade absoluta desde 1993. Ninguém atuou mais pelos Enschedese do que ele – 504 partidas só na Eredivisie. Renovou recentemente o contrato até a metade de 2011, e, depois, provavelmente assumirá um cargo dentro do clube.

Pela lateral-esquerda, Edson Braafheid é confíavel o bastante para ter recebido uma chance de Bert van Marwijk no amistoso da Holanda contra a Tunísia – jogou os 90 minutos e não decepcionou. Pela direita, Ronnie Stam também não faz feio, além de ser melhor no apoio. A dupla de zaga é segura como poucas, na Eredivisie: já há quem peça a naturalização ao brasileiro Douglas, e Wisgerhof, que chegou para substituir Wielaert, parece estar no time há anos, tal a rapidez com que se entrosou.

No meio-campo, Brama e Hersi carregam o piano para que Kenneth Perez possa brilhar, tanto na armação das jogadas, quanto na conclusão. Após passagem desastrosa pelo PSV e problemas de relacionamento no retorno ao Ajax, o dinamarquês voltou a provar seu talento. O ataque rubro, por sua vez, pode ser considerado o melhor da Holanda. Além da experiência de seus 33 anos, Blaise Nkufo mantém o faro de gol apurado – não à toa, marcou no 1 a 0 contra o ADO Den Haag seu centésimo gol na Eredivisie, onde está desde 2003, sempre pelo Twente. A auxiliar o suíço nascido no Congo, estão Arnautovic, mostrando versatilidade admirável para um garoto de 19 anos (sabe voltar para buscar o jogo e também finalizar com classe), e Elia, cuja velocidade na ponta-esquerda é desejada há muito tempo pelo Ajax.

E há Steve McClaren. Seu mérito é inegável: o de não ter alterado a formação tática deixada por Fred Rutten, um 4-3-3 básico. Além disso, McClaren encontrou na Holanda um país ótimo para reconstruir sua carreira, bastante chamuscada pelo fiasco à frente da seleção inglesa. Seu relacionamento aberto com os jogadores caiu como uma luva no time, e a torcida do Twente o trata como um herói, já adotando símbolos como o cachecol vermelho sempre usado por Steve nos jogos. Se ainda não recuperou sua imagem por completo, o treinador prova não estar acabado. Tanto que já se dá até ao luxo de alfinetar a imprensa britânica que o massacrou nos tempos de English Team: entrevistado pelo jornal Algemeen Dagblad sobre o interesse de clubes da Premier League nele, saiu-se com um “Desculpe, não sei de nada. Não estou interessado, não estou lendo jornais ingleses.”

Quem sabe o sonhado título venha com a Copa da Holanda, onde o time já está nas semifinais. A estrutura está armada.

A emoção não faliu

O Excelsior Mouscron até teve bom começo na Jupiler League – ficou as cinco primeiras rodadas invicto. No entanto, os problemas financeiros que deixam o clube perigosamente à beira da falência (o clube precisava de dois milhões de euros para garantir sua sobrevivência, emprestados na última hora pela prefeitura da cidade) encarregaram-se de fazer com que o ímpeto do início fosse refreado. Nem por isso os Hurlus deixaram de exercer papel importante na Liga Belga.

Pois foi justamente contra o Anderlecht que o time voltou a jogar bem. Até abriu o placar, com Gonzague Vandooren. Chatelle conseguiu o empate para os Mauves, mas a partida ficou nisso. Embora os jogadores anderlechtoises já houvessem alertado para o perigo de perder, com um tropeço, a vantagem ganha contra o Standard, poucos acreditavam que a equipe de Ariël Jacobs fosse fraquejar. Fraquejou.

Sorte do Standard, que aproveitou o privilégio que o Cercle Brugge oferece à Copa da Bélgica para aplicar 4 a 0, em ótimo dia de Mbokani, que marcou dois gols. Embora os Rouches tenham perdido Jovanovic (mais nas Curtas), a rápida recuperação de Defour deu a segurança necessária após o duro revés no clássico. Com a diferença reduzida para dois pontos, todos já sabem: na Bélgica, a emoção não faliu. Tudo ainda pode acontecer.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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