O povo não quer

O jogo envolvendo os líderes do Campeonato Belga foi emocionante. Anderlecht e Racing Genk fizeram tudo o que se espera de uma partida entre dois times que disputam o título: jogaram com emoção, buscaram o gol, viram atuações ótimas de personagens-chave (principalmente o goleiro Thibaut Courtois, do Genk), protagonizaram uma partida tensa até o último minuto. Que, por sua vez, se desenrolou com o gol salvador de Roland Juhász que salvou os Mauves da derrota em pleno Constant Vanden Stock.
No entanto, o destaque principal do jogo bem poderia ser outro. Aos 17 minutos do primeiro tempo, torcedores das duas equipes começaram a agitar lenços brancos nas arquibancadas. E não foi só nessa partida: em Mechelen x Gent, os adeptos também levantaram lenços brancos após 17 minutos de jogo. Assim como em todos os jogos da 28ª rodada da primeira fase da Jupiler League. E também na EXQI League, a segunda divisão belga.
Tudo por um motivo que tem movimentado o cenário do futebol belga: a discussão a respeito do formato da Jupiler League. Formato que, desde a última temporada, consiste em uma liga com 16 times. Estes jogam uma primeira fase de 30 rodadas, em pontos corridos, todos contra todos. A partir daí, os seis primeiros vão para um hexagonal final, onde disputarão o título, começando com metade dos pontos conquistados na primeira fase.
Por sua vez, há outro play-off, entre o 7º e o 14º colocado. Estes se dividem em dois grupos de quatro equipes, que se enfrentam entre si dentro das chaves. Os vencedores dos grupos fazem uma decisão, para ver qual será o adversário do quarto colocado do hexagonal do título, na disputa por uma vaga na segunda fase preliminar da Liga Europa. O 15º colocado joga um play-off contra o rebaixamento, enquanto o 16º cai direto para a EXQI League.
E é esse regulamento tão intrincado que causa o protesto dos torcedores, que pedem o retorno ao antigo regulamento: 18 clubes, disputando uma liga comum, por pontos corridos, em 34 rodadas. O presidente da federação nacional de torcedores belgas, Eddy Janssis, justificou o protesto aos 17 minutos: “Para nós, os torcedores são o 17º time na primeira divisão. Por isso, decidimos também protestar desta forma. Queremos dialogar com a liga e a federação. Os formatos são difíceis de se entender pelos torcedores.”
E a voz da torcida já se faz ouvir. A ponto de o presidente da Pro League, Ivan de Witte, e o diretor da mesma entidade, Ludwig Sneyers, terem recebido representantes da torcida para um debate sobre a manutenção do formato atual para a próxima temporada, decidida em 25 de fevereiro. Debate, felizmente, sadio e racional. E Ivan de Witte prometeu a continuidade dele: “Ambas as partes estão de acordo para começarem um diálogo estrutural.”
Provavelmente, tal confusão não existiria se a decisão tomada em dezembro tivesse sido mantida. Àquela altura, os onze times “menores” da Jupiler League decidiram se posicionar pelo retorno do regulamento vigente até 2008/09. Os clubes grandes (a saber: Anderlecht, Club Brugge, Gent e Racing Genk) queriam a manutenção dos play-offs. O Standard propunha um meio-termo: a realização de um mata-mata pelo título. Sem ser ouvido pelo grupo dos quatro, fechou questão com os 11 menores. E a mudança foi anunciada pela liga: voltariam os 18 times e os pontos corridos em 34 rodadas.
Tal decisão foi saudada pelos torcedores: em pesquisa no site oficial da liga, 52% apoiaram o fim dos play-offs. Porém, para os dirigentes, a discussão ainda não acabara: em janeiro, novamente o assunto voltou à mesa e não houve acordo. Tudo pela insistência dos quatro a favor dos play-offs. E com argumentos compreensíveis: o hexagonal decisivo pelo título traria mais jogos entre os times grandes. O que resultaria em mais dinheiro das TVs. Logo, mais renda para os clubes.
Como já mencionado, em fevereiro veio a decisão: os play-offs continuam pelas próximas três temporadas. De quebra, haverá uma nova regra para o rebaixamento: uma média, baseada nas três competições anteriores. Teriam retorno as queixas dos torcedores. Queixas justas: afinal, estavam acostumados com o regulamento anterior – de compreensão muito mais fácil, é verdade.
Enquanto a discussão não termina, chega a penúltima rodada da primeira fase. Com jogos decisivos. E mais lenços brancos sendo balançados aos 17 minutos do primeiro tempo.



