O ponto mais baixo

Após a demissão de Gertjan Verbeek, do diretor técnico Peter Bosz e do auxiliar técnico Wim Jansen, esperava-se que o Feyenoord, mesmo com um técnico interino (Leon Vlemmings), ganhasse, com as mudanças, incentivo suficiente para tentar ganhar as duas partidas consecutivas contra o Heerenveen, pela Eredivisie e pelas oitavas-de-final da Copa da Holanda. Não foi o que aconteceu: no Campeonato Holandês, o 3 a 1 sofrido fora de casa representou a nona derrota do time no torneio. E, em pleno De Kuip, o 3 a 0 dos frísios representou a eliminação da KNVB Beker – e o aprofundamento de uma crise cada vez mais grave.
Como em muitas crises, talvez não haja um só culpado. O caso seria dizer que há um culpado principal. E tal papel provavelmente cai sobre os ombros da diretoria do clube. Antes consultor, Wim Jansen decidiu tomar mais diretamente as rédeas do clube, desde o meio do ano passado, ao tornar-se auxiliar do recém-contratado Verbeek. E, se teve sucesso em seus quinze anos jogando pelo Stadionclub, não repetiu a dose atuando nos bastidores. A partir da escolha do diretor técnico, incentivada por ele em seus tempos de consultor. Sem grande experiência para assumir o cargo – fora apenas técnico do AGOVV Apeldoorn, De Graafschap e Heracles Almelo -, Peter Bosz acabou focando as contratações em jogadores veteranos e caros.
Isso acabou por alargar mais o já grande rombo nas contas. Aliás, o ponto nevrálgico da crise é este. Por mais dinheiro que tenham rendido ao clube da Het Legioen vendas como as de Kuyt, Salomon Kalou e Drenthe, as dívidas já não eram tão fáceis de serem pagas – herança da tétrica administração Jorien van den Herik. O ex-diretor comercial, Chris Woerts, sonhava com uma oferta de 200 milhões de euros pelo clube; o atual diretor financeiro, Onno Jacobs, já sorriria por metade de tal valor. Seja como for, em tempos de crise financeira global, é difícil encontrar alguém que queira torrar tal valor em um clube de futebol.
Voltando à cadeia de fatores que jogou o Feyenoord na lama, o elenco montado por Bosz acabou não sendo o ideal para os métodos de trabalho de Gertjan Verbeek, que notabilizou-se por treinos físicos pesados e por não ser lá muito afeito ao diálogo. Tal modo de atuação até deu certo no Heerenveen, que contava com um elenco mais jovem, e o trouxe ao De Kuip. Mas foi fundamental para ir de encontro com os jogadores mais experientes no Feyenoord, como o capitão Van Bronckhorst e o zagueiro Hofland. Tanto que Verbeek foi considerado o responsável pelo alto índice de contusões no elenco. Sem contar o fator que foi o estopim de sua queda: na intertemporada, realizada na cidade turca de Belek, Van Bronckhorst fez uma sondagem a todo o elenco, perguntando se Verbeek ainda tinha respaldo entre os jogadores. A opção “não” ganhou facilmente, e, abandonado pelo grupo, restou ao técnico a demissão.
O que não significa que os jogadores sejam completamente vítimas da crise interna. A parcela de culpa que lhes cabe está na montagem deficiente do time: se meio-campo e ataque têm mostrado espírito de luta, acabam por deixar a defesa muito desguarnecida. Sem contar que, dos veteranos, só Makaay e Van Bronckhorst têm dado conta do recado. A torcida teve justamente nos atletas o seu alvo principal: se, com Verbeek, ela sempre teve paciência (tanto que gritou o nome do treinador após a entrevista coletiva em que ele, Jansen e Bosz anunciaram suas saídas), não é raro ouvir, nas últimas partidas do Feyenoord, o grito “werken voor je kankergeld” (algo como “trabalhamos para pagar o seu salário de m****”).
Fracassada a tentativa de contratar Mario Been, resta agora evitar o rebaixamento, já que a temporada entrou para a história como aquela em que o Feyenoord igualou, em 27 jogos, seu recorde histórico de derrotas numa mesma temporada (16, como nos 41 jogos da temporada 1957/58). Tarefa até possível e provável, uma vez que os jovens do time têm provado seu valor – principalmente Biseswar, Fer e Wijnaldum. Quem sabe sejam eles a esperança de um futuro melhor. Que, segundo os boatos, terá a aquisição de Leo Beenhakker para ser o treinador até o fim da Eredivisie. Depois, Don Leo viraria o diretor técnico e oferta mais concreta seria feita a Been.
A dois
Não é algo absolutamente definido, mas é cada vez mais plausível: as brigas pelos títulos de Jupiler League e Eredivisie começam a se concentrar sobre dois times. Na Bélgica, Anderlecht e Standard são os dois favoritos; na Holanda, o AZ permanece seguro na liderança, mas observa no Ajax um concorrente insistente.
Em campos belgas, parece ter chegado a hora do Standard tentar o salto definitivo em busca do bi. Primeiramente, pela falta de competência demonstrada pelo Anderlecht contra o Cercle Brugge, na abertura do returno. Não que os Paars-wit tenham jogado mal: ao contrário, o trio Gillet-Polak-Boussoufa foi muito elogiado pelas várias jogadas criadas para o ataque. Mas este não aproveitou as chances. Quem aproveitou as que teve foi um ex-jogador dos Mauves, hoje no Cercle: Oleg Iachtchouk foi o autor dos dois gols na vitória por 2 a 1. Era passar pelo Dender e os Rouches encurtariam a vantagem do time bruxelês a apenas um ponto.
Encurtaram. Mas a duríssimas penas: se Jovanovic abriu o placar no primeiro minuto da partida, Onyewu, contra, empatou três minutos depois. Se Mbokani fez o 2 a 1 ainda no primeiro tempo, aos 29 minutos, De Pever não levou mais de um minuto para igualar tudo de novo. A vitória só veio pelos pés de um Steven Defour que foi decisivo como há um tempo não era, em cobrança precisa de falta.
Na Holanda, se o AZ não precisou jogar tudo o que pode para passar pelo Volendam (2 a 0), o Ajax arrancou, contra o NEC, uma vitória também dura, daquelas que pode embalar um time. E, com seu desempenho, Miralem Miki Sulejmani prova ser valioso companheiro de Suarez e Cvitanich. O avante sérvio abriu o placar e também fez o segundo gol do Ajax. Mas, comprovando a coesão do time, os Nijmegenaren conseguiram o empate por duas vezes. Sem o expulso Cvitanich, seria duro para os Godenzonen conseguirem o triunfo. Aí, a sorte apareceu: após cobrança de Sulejmani, Dani Fernandez desviou contra o próprio gol. Era o 3 a 2 sonhado para os de Marco van Basten.



