O passado traz uma lição

O amistoso do dia 18, contra o Paraguai, no Abe Lenstra Stadion, em Heerenveen, tem lá sua importância para a seleção da Holanda, que enfrentará uma das melhores equipes da América do Sul, atualmente. Aliás, tem importância até para o próprio estádio, já que o Heerenveen pretende modernizá-lo, com vistas a torná-lo uma possível sede da candidatura conjunta do país com a Bélgica, para concorrer à sede da Copa de 2018 – ou da de 2022.
Todavia, é óbvio que o olhar mais carinhoso da Oranje vai para o amistoso contra a Itália, em Pescara, neste sábado. A equipe de Bert van Marwijk terá mais um rival de respeito em seus amistosos – coisa que poucas vezes chegou a ter, desde que o ex-comandante de Feyenoord e Borussia Dortmund assumiu a equipe, logo após a Eurocopa. Bem, talvez, com as exceções de Rússia, que marcou a estreia de Van Marwijk, com o empate em 1 a 1, e a Inglaterra, em agosto, contra quem fez bom primeiro tempo, mas fraquejou no final, permitindo o empate do English Team.
Jogar contra uma equipe sempre alerta para aproveitar eventuais oportunidades, como a Azzurra, obriga a Holanda a não desperdiçar oportunidades no ataque, bem como a manter a defesa constantemente atenta. Sim, é fato que Marcello Lippi tem sido cada vez mais pressionado por suas escolhas controversas, como deixar de fora Antonio Cassano e apostar exageradamente na geração campeã mundial de 2006 – que já inclui jogadores fora da melhor fase, como Zambrotta e Camoranesi.
Mesmo assim, seria bobagem da linha de quatro defensores, mais a dupla Van Bommel-De Jong, deixar espaço para que Andrea Pirlo possa mostrar sua habilidade já conhecida para lançamentos e jogadas de bola parada – ainda mais levando em conta que o meia voltou a atuar razoavelmente no Milan. E a dupla formada por Gilardino e Iaquinta precisa receber atenção. Sem contar que a linha Zambrotta-Cannavaro-Chiellini-Grosso é a melhor que a Holanda enfrenta em muito tempo. E, passando dela, há Gianluigi Buffon, sempre respeitável barreira no gol.
De certa forma, a Holanda já aprendeu que com os transalpinos não se brinca. Mais especificamente, há quatro anos, em outro amistoso. Em 12 de novembro de 2005, a equipe de Marco van Basten vinha de uma ótima campanha nas Eliminatórias, a reformulação promovida pelo treinador começava a dar resultado, a Azzurra andava ligeiramente em dúvida sobre seu favoritismo para o Mundial do ano seguinte… e aplicou categóricos 3 a 1, em plena Amsterdam Arena, numa ótima performance de Luca Toni.
Porém, o time dá mostras de que parece mais confiável para encarar os italianos, desta vez. No amistoso de 2005, havia jogadores titulares que sequer iriam à Copa, caso de Vlaar e Romeo Castelen, ou que até ficariam na lista dos 23 de Van Basten, mas sem a titularidade, como Kromkamp, Landzaat e Babel. Agora, Van Marwijk deverá escalar força total.
De mais a mais, a última lembrança holandesa em partidas com a Itália foi melhor citada pelo capitão Van Bronckhorst: “Quando penso na Eurocopa de 2008, não me lembro imediatamente da eliminação contra a Rússia, mas sim do jogo contra a Itália. O clima estava muito bom na seleção.” De fato, os 3 a 0 ocorridos em Berna tornaram-se um dos jogos ideais para mostrar o que a Holanda pode fazer, caso as peças do time se encaixem.
E Van Marwijk se esforça para que isso ocorra. Sua nova mudança será no ataque. Como Huntelaar ainda não conseguiu emplacar no Milan (e, a bem da verdade, duvida-se que isso ocorrerá), o técnico decidiu escalar Van Persie como único homem de finalização, no meio. De fato, uma alteração útil, já que o nativo de Roterdã anda acostumado a atuar dessa maneira no Arsenal – e tem feito ótimas atuações assim, pelos Gunners. Pela direita, enquanto Robben não se recupera, Dirk Kuyt continua provendo mais movimentação na marcação da saída de bola. E Wesley Sneijder tem, enfim, grande chance para provar até que ponto ser titular na Internazionale voltou a colocar seu jogo em ordem.
O jogo em Pescara é, em suma, uma grande oportunidade de mostrar que a Holanda olhou para trás. Justamente para poder seguir bem em frente.
A seriedade continua
Dick Advocaat estreou com bastante barulho no comando da seleção da Bélgica. Ao tomar decisões controversas, como deixar de convocar o antigo capitão Timmy Simons e demitir o treinador de goleiros, Franky Vandendriessche, o “Pequeno General” mostrou que iria levar bastante a sério o trabalho para o qual foi contratado pela KBVB. Isto é, formar um time sério, com espírito renovado para as eliminatórias da Euro 2012.
Se ainda havia alguma dúvida da intenção de Advocaat em manter controle total sobre os Diabos Vermelhos, ele se esvaiu por completo no início das preparações para os amistosos contra a Hungria, no próximo sábado, na CrystalArena de Genk, e o Catar. As primeiras frases já dão uma mostra de que o tom até ríspido será voz corrente nos próximos anos: “Os jogadores não podem pensar que esses são amistosos. São as duas últimas chances para mostrarem o que podem fazer. E, acima de tudo, para mostrarem que querem fazer parte do grupo.”
Já tendo cometido alguns atos que desagradaram Advocaat, Fellaini foi novamente alfinetado pelo holandês (“Sinto fortemente que alguns jogadores se acham mais importantes do que o grupo. Eles terão problemas comigo. Fellaini, por exemplo, não está correto, ao deixar de lado um amistoso para ter uma consulta no dentista.”).
E não foi só. Após ser indagado sobre o interesse do brasileiro Dante, zagueiro do Borussia Mönchengladbach, em defender a Bélgica, Advocaat saiu-se com “não tenho o hábito de basear meus planos em 'se' e 'talvez'.” Mas não deixou de ser mais maleável, dizendo que “todo jogador de nível internacional com nacionalidade belga me interessa.” É ver se a exigência que Advocaat apresenta resultará numa equipe que finalmente corresponda às expectativas, ou se logo o técnico entrará em rota de colisão.



