Holanda

O organizado

Após uma primeira temporada de adaptação, o Anzhi parece mais pronto para obter os resultados que o dono Suleyman Kerimov deseja. O time do Daguestão está em segundo lugar na Premier League russa, acompanhando o líder CSKA Moscou a par e passo. E, na Liga Europa, o clube de Makhachkala está em primeiro lugar no Grupo A, com ótimas chances de avançar à segunda fase da competição. Além do time coeso e de alguns destaques (Eto’o e Lacina Traoré são os principais), a maior organização interna é clara no Anzhi.

Parte do mérito disso é de um sujeito bem conhecido. Um tal de Guus Hiddink. Que foi notícia, nesta semana, ao declarar à rede de televisão NOS: “A princípio, é meu último ano. Você precisa se cuidar, para não se repetir muito, senão o pessoal vai dizer: ‘Lá vem ele de novo'”. Ou seja: um dos grandes técnicos holandeses de todos os tempos vive seus últimos momentos como treinador. Nada mais justo, então, do que um texto analisando toda a sua carreira no banco, desde 1982, quando tornou-se auxiliar do De Graafschap.

E os grandes trabalhos de Hiddink exibem uma característica pouco comum ao futebol holandês, mais conhecido por ter usado o conceito de troca de posições e “múltiplas funções” como poucos países fizeram, em todo o mundo. Ao invés de seguir a escola ditada por Rinus Michels (e Jack Reynolds, e Vic Buckingham), no Ajax, Hiddink seguiu um estilo tático muito mais ordeiro do que a “desorganização organizada”, apresentada na Copa de 1974 e até hoje lembrada, quando se fala de futebol holandês.

Para tanto, pegue-se o primeiro exemplo de time treinado pelo nativo de Varsseveld, cidade na província da Géldria: o PSV que conquistou a Tríplice Coroa, na temporada 1987/88. Todos os protagonistas do maior time da história dos Eindhovenaren tinham suas funções bem definidas: Eric Gerets tinha a lateral direita como seu setor. Na defesa, enquanto Ronald Koeman tinha liberdade para ser o “homem-surpresa”, Ivan Nielsen era o puro marcador. No meio, Berry van Aerle fazia o papel de cão de guarda, e Gerald Vanenburg era o principal armador. E, finalmente, Wim Kieft era o responsável para colocar a bola nas redes – lembremos, Romário só foi para Eindhoven na segunda metade de 1988.

E o grande título da Tríplice Coroa foi responsável pela pecha de “retranqueiro” que perseguiu Hiddink, por algum tempo: na conquista da Copa dos Campeões 1987/88, desde as oitavas de final, o PSV não ganhou nenhuma partida, se classificando sucessivamente pelos gols fora de casa. Nas quartas de final, fez 1 a 1 com o Bordeaux, na França, e empatou sem gols em Eindhoven; nas semifinais, contra o Real Madrid, 1 a 1 em Madri e novo 0 a 0 em casa; e, na decisão, 120 minutos sem gols contra o Benfica, e a vitória final, por 6 a 5, nos pênaltis.

E mesmo o grande time seguinte da carreira de Hiddink, embora tendo um estilo ofensivo, era marcado por certa organização. A Holanda da Copa de 1998 se valia da grande fase de Bergkamp, no ataque, e da capacidade de Frank de Boer na saída de bola – sem esquecer da altíssima qualidade de Davids, no meio-campo, tendo liberdade para roubar a bola e avançar, iniciando as jogadas ofensivas. Mas esse espírito não tinha a “volúpia” de seleções anteriores, sendo mais justificável pela qualidade dos jogadores. Stam não avançava, Kluivert marcava apenas o necessário.

Talvez isso tenha prejudicado Hiddink em sua carreira na seleção holandesa. Mas certamente o ajudou quando ele começou a correr mundo, passando por várias seleções. Onde havia jogadores, mas não havia senso de organização, Hiddink chegou e o trouxe. Sem grandes jogadores, mas com grande esforço (e algum talento – e alguma ajuda da arbitragem, é verdade), a Coreia do Sul alcançou as semifinais na Copa de 2002. A Austrália, após bater na trave várias vezes, enfim foi a uma Copa, em 2006 – e Hiddink deu um padrão tático ao time, seguido até hoje.

Isso também foi visto no PSV que alcançou as semifinais da Liga dos Campeões 2004/05: no meio-campo, havia uma divisão clara entre os que marcavam (Van Bommel e Vogel), e a armação, concentrada em Philip Cocu. Somente Park Ji-Sung – e Alex, em escala muito menor – tinham liberdade para percorrer o campo todo. E o melhor momento da seleção da Rússia sob o comando de Guus mostrou novamente essa organização: na Euro 2008, além de gente como Arshavin e Pavlyuchenko viver sua melhor fase, todo o meio-campo se desdobrava na marcação.

Por essas e outras é que Hiddink recebeu na Holanda o apelido de “Guus Geluk” (“Guus Sortudo”, como é chamado o primo do Pato Donald, conhecido como “Gastão” no Brasil). E que mereceu ter a carreira observada, por essa “organização” que fugiu ao ofensivismo e à polivalência que Rinus Michels ditou e Louis van Gaal retomou, com algumas alterações.

Carreira que pode nem ter acabado, como o treinador do Anzhi comentou, nesta quinta, no programa de rádio “Evers Staat Op”, na rádio 538: “A princípio, é isso. Ainda tenho muito prazer e energia. Se ainda me quiserem, pode ser que tudo mude completamente”. E ainda deu uma dica de onde gostaria de estar: “Uma Copa do Mundo é insuperável. Eu já participei de algumas, e a preparação, a festa, o ambiente e a atenção do mundo são realmente fantásticas. E o Brasil, claro, é o país do futebol”. Quem sabe alguma seleção classificada para a Copa mude a decisão do Achterhoeker (como é chamado quem nasce na região leste da Holanda – caso de Hiddink). A conferir.

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