Holanda

O mundo não deu voltas

Deu a lógica. De modo um pouco mais difícil do que se pensava, mas deu. O placar final de 4 a 1 aplicado pelo Ajax em cima do PSV, no clássico do último domingo, deu aos Godenzonen o resultado que faltava para provar que, do Trio de Ferro, a equipe é a única que parece capaz de fazer frente ao AZ e ao NAC Breda, os outros dois detentores da ponta na Eredivisie. Porém, embora a goleada possa fazer pensar em um massacre Ajacied sobre os Boeren (e, em alguns momentos, até o foi), o resultado não foi alcançado sem alguns percalços.

Mas, se as dificuldades vieram, não foi nos primeiros minutos de partida. Pois Marco van Basten escalou bem o time: ao invés de “inventar” algum substituto de Huntelaar no papel de “referência” no ataque, como Sno (que entrara bem na partida contra o Sparta), ou de jogar na fogueira um Sulejmani já no banco de reservas, mas ainda convalescendo, Van Basten preferiu uma escolha mais conservadora, colocando entre os titulares Rommedahl. Além disso, preferiu aproveitar o potencial ofensivo de Emanuelson, colocando-o no ataque e deixando a lateral esquerda a um Vermaelen que saberia defender melhor. E, no meio, Kennedy Bakircioglu, mesmo jogando mais recuado do que Lindgren, conseguia auxiliar a chegada da bola ao ataque. E ainda havia Suarez. Mesmo jogando no centro do ataque, ele não ficou parado na área esperando a bola (mesmo porque provavelmente isso não daria certo), voltando para ajudar Kennedy no meio. Ou seja: na prática, o 4-3-3 era um 4-4-2 ligeiramente acéfalo no ataque, já que nenhum dos atacantes centralizava em si as tentativas de chegar ao gol.

Ou seja: se a intenção de Van Basten ao escalar Rommedahl era fazer do dinamarquês um atacante fixo ao estilo de Huntelaar, o tiro saiu pela culatra. Mas, se a vontade era fazer do Ajax um time que variasse as formas de atacar o PSV, aí o plano deu muito certo. Até porque, com apenas um minuto de jogo, Kennedy, sozinho na área, quase abrira o placar numa cabeçada. E a integração Kennedy-Suarez-Rommedahl-Emanuelson, jogando principalmente pela direita (aproveitando dia fraco de Marcellis e as deficiências de Rodríguez), só não abriu o placar mais cedo pela boa atuação de Isaksson. Não que o sueco tenha feito defesas milagrosas, mas estava sempre no lugar certo para impedir a abertura do placar na Amsterdam Arena. Até os 28 do 1º tempo, quando mais uma das várias triangulações entre Emanuelson, Rommedahl e Suarez deixou o charrúa na cara do gol para fazer o primeiro.

E aí começaram as primeiras dificuldades do Ajax na partida. Achando que a vantagem de então já era suficiente, o time começou a jogar mais cautelosamente. Como sói acontecer, o PSV começou a aproveitar o maior espaço que tinha em campo (falha que foi apontada até mesmo por Van Basten, na entrevista pós-jogo). E a pressão sobre o gol de Vermeer começou a acontecer de modo mais constante, ainda que não tão eficaz quanto a dos donos da casa fora. A falta de eficácia só seria resolvida no início do 2º tempo. Na única atitude sua que deu resultado no jogo, Huub Stevens tirou o inativo Wuytens para colocar Lazovic, de modo a ajudar na resolução do crônico isolamento de Koevermans no ataque. Quatro minutos bastaram para que o sérvio mostrasse serviço, fazendo fila pela direita – e finta belíssima sobre Vermeer – e dando a Afellay o simples trabalho de escorar para as redes e empatar o jogo. Ali, sim, deu para o Ajax temer que a história de não conseguir superar o rival em casa se repetisse. Mesmo que um grave sinal de falta de harmonia no elenco de Eindhoven tenha sido dado enquanto Lazovic comemorava o gol (mais nas Curtas).

Van Basten não deixou que o elenco se abatesse. E agiu com inteligência para debelar as deficiências que o time começava a mostrar em campo. Nem tanto na primeira mudança, quando, ao reparar que o trintão Rommedahl não conseguia manter a rapidez no ataque, trocou-o por Sulejmani. A segunda, sim, foi a alteração que definiu o jogo. Ao colocar Gabri no lugar de Kennedy, o treinador apostou que a inteligência do catalão poderia ser decisiva naquele momento agudo do jogo, quando o ponteiro dos minutos virava para a casa dos trinta. Na primeiríssima jogada em campo, Gabri premiou a aposta do comandante: teve perspicácia para, na extrema direita, observar Suarez acenando, na entrada da área, como quem diz “toca em mim que eu faço o pivô”. Dito e feito: o uruguaio escorou de testa o lançamento recebido para Emanuelson. Este, por sua vez, tirou Salcido da jogada com um leve toque de calcanhar e chutou. Isaksson salvou. Mas Sulejmani estava lá para aproveitar o rebote.

O segundo gol, feito exatamente um minuto após a entrada de Gabri, definiu o jogo. Dali para frente, o Ajax confirmou o massacre citado no começo da coluna. Cada estocada ofensiva era um tormento para a defesa dos Eindhovenaren, em péssimo dia. Mais quatro minutos e veio o terceiro gol, num lance de sorte (Suarez chutou sem ângulo, mas Erik Pieters desviou, tirando Isaksson do lance). E aí, bastou. A primeira vitória contra o PSV na Amsterdam Arena, após quatro anos de tabu, viria. O gol de Leonardo, nos acréscimos, serviu apenas para dar o tiro de misericórdia no cadáver do rival que estrebuchava.

A boa vitória não significa que os desafios acabaram. Afinal, o Ajax ainda tem confrontos diretos contra os rivais diretos AZ (este, justamente na próxima rodada) e NAC Breda. Mas, que a goleada ajudou a elevar a moral, ajudou. Já no PSV, o necessário foi dito. Por Huub Stevens: “Muito trabalho para mudar a situação”.

Rodada anticlimática. E o Westerlo sonha

Esperava-se muito da 11ª rodada da Jupiler League. O que veio foi pouco. Até mesmo no número de gols ocorridos nos dois duelos mais ansiados: dois empates em um gol na partida entre Standard e Lokeren e, principalmente, no clássico entre Club Brugge e Anderlecht. Foi a vez dos coadjuvantes se notabilizarem. O destaque ficou para o Tubize (que, com surpreendentes 3 a 0 sobre o Cercle Brugge, saiu, pela primeira vez, das duas últimas posições do campeonato belga) e, principalmente, para o Westerlo.

Havia já algum tempo que o time comandado por Jan Ceulemans ameaçava entrar na briga pelas primeiras posições. A carta de intenções foi apresentada com mais veemência nas últimas duas rodadas: após vencer outro aspirante ao Top 4 da tábua de classificação, o Genk, o time venceu com brilhantismo um jogo difícil contra o Gent. Tendo saído atrás no início da partida, o time conseguiu virar, ainda no primeiro tempo. O empate dos Gantoises, a dezoito minutos do fim, poderia representar um jato de água fria para as ambições dos Kempeeners. Mas o gol dos 3 a 2, marcado pelo colombiano Ruiz, trouxe, em lugar do desencanto, o direito de sonhar com feitos maiores, ao superar os Mauves e alcançar a terceira posição do campeonato, com 24 pontos.

Quem der uma rápida olhada no time-base montado por Ceulemans, pode até pensar “o destaque deve ser o Van Kerckhoven”. Não estará de todo errado, uma vez que o experiente zagueiro (a completar 38 anos em 14 de dezembro) é o único a ter estado em todas as partidas do time na Jupiler League. Mas estará longe de toda a verdade, que mostra outro bom zagueiro a fazer par com Nico, Gunther Vanaudenaerde. Que mostra um time invicto em casa, com seis vitórias e um empate dentro do Het Kuipje. E que mostra um Ruiz autor de seis gols na Liga, disposto a brigar pela artilharia com Sonck, Mbokani e Maazou. Resta ver se o time terá fôlego para brigar de igual para igual com o Anderlecht. Justo o rival da próxima rodada.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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