Holanda

O importante é ser constante

A história de Merab Jordania já foi repetida aqui nesta coluna à exaustão: ex-jogador, georgiano, com histórico que dá razão para, digamos, ligeiras desconfianças. E que comprou o Vitesse, em 2010, prometendo levar o clube de Arnhem, em apenas cinco anos, à disputa do título holandês. Claro, parecia daquelas histórias que resultarão em risadas de escárnio sobre um mecenas trapalhão que joga um clube mediano na vala da desgraça, mais cedo ou mais tarde.
Pelo menos por enquanto, os aurinegros estão calando as bocas que proferiam palavras de desconfiança. Porque, neste primeiro terço do Campeonato Holandês que vai se completando (entramos, agora, na décima rodada), o Vitesse é a equipe mais confiável. Não que seja a única equipe pronta para a liderança: o Twente ainda consegue se segurar, o PSV cresceu de produção e parece mais calmo, o Ajax dá a impressão de que disputará sério o tricampeonato assim que se assentar, o Feyenoord vai beliscando pontos aqui e ali…
Só que a equipe mais regular é a de Arnhem. Ao lado do Ajax, é a única ainda invicta na Eredivisie: em nove partidas, seis vitórias e três empates. A defesa é a mais eficiente, embora não seja a menos vazada: sofreu sete gols, um a mais do que o Twente, mas teve mais chutes a gol contrários (111, vendo apenas 6,31% deles virarem gols). E o que é melhor: essa regularidade não significa que a equipe de Fred Rutten é daquelas pragmáticas e sem graça. Ao contrário.
O meio-campo do time, por exemplo, é marcado pelo bom nível técnico. Nada de encher os olhos, mas é um setor em que a maioria é formada por jogadores que têm alguma técnica. Por exemplo, Marco van Ginkel, apontado há algum tempo como uma possível revelação vinda do time, consegue desabrochar: ainda que seja mais marcador, consegue fazer um bom trabalho na saída de bola, e até se arrisca na armação. Não impressiona que Van Ginkel seja, hoje, titular absoluto na seleção sub-21 da Holanda.
Aqui, ponto para o trabalho de Fred Rutten e da diretoria de futebol na contratação de jogadores. O foco no meio-campo trouxe atletas que sabem ditar o ritmo de um time – caso de Theo Janssen, que fracassou no Ajax, mas cujas qualidades são conhecidas e voltam a aparecer aos poucos. E a vinda do alemão Simon Cziommer trouxe um aspecto mais “cerebral” à criação, já que gente como o nipo-holandês Mike Havenaar são mais velozes e esforçados do que propriamente hábeis. Sorte do ataque, que conta com um Jonathan Reis aparentemente sem mais problemas pessoais que o perturbem, e revelando-se versátil a ponto de poder jogar no ataque ou ser recuado para o meio.
E que, principalmente, conta com Wilfried Bony. O marfinense já é um capítulo à parte, no Vitesse: nos 44 jogos que já fez com a camisa 9 aurinegra, desde 2011, Bony marcou 25 vezes. E, em todas as partidas em que deixou bolas nas redes adversárias, o seu time não perdeu: 15 vitórias e cinco empates. Não dá para ser titular da Costa do Marfim, ainda (até porque o concorrente direto é simplesmente um certo Didier Drogba, talvez o grande jogador da história marfinense), mas já é o suficiente para ser nome certo nas convocações dos Elefantes.
Some-se a isso uma defesa que já se conhece, com destaque para o goleiro Velthuizen (aos poucos, retomando o nível que tinha antes da malograda passagem pelo Hércules-ESP) e os laterais Kashia e Van Aanholt – este, emprestado pelo Chelsea – e o resultado é um time regular o suficiente para crescer de produção e terminar o primeiro terço do Campeonato Holandês com tudo para se consolidar entre os candidatos ao título, daqui a algum tempo. Basta apenas todos dentro do Gelredome – Rutten, Jordania, a equipe – continuarem o crescimento sustentável, pé ante pé, para que o Vitesse continue surpreendendo. Afinal de contas, já dizia uma personagem feminina em série mexicana de sucesso no Brasil: “De grão em grão, a galinha enche o papo. O importante é ser constante”.
Olha o que um jogo me faz
3 a 1 no Heracles Almelo, fora de casa. Sem dúvida, bom resultado para o Ajax, embora os Almelöers não sejam lá muito temíveis. No entanto, o relaxo dos Ajacieden rendeu um duro castigo: nos últimos dez minutos do tempo regulamentar, Luis Pedro e Thomas Bruns impuseram o 3 a 3 que deixou o time de Frank de Boer apenas na quarta colocação. A cara desalentada dos jogadores na saída do estádio Polman, em Almelo, e a raiva de Frank de Boer mostravam que aquele quinto empate em nove partidas atrapalhava o Ajax na disputa pela ponta.
Agora, era enfrentar o Manchester City, cumprindo a via-crúcis na Liga dos Campeões. Que era especialmente cruel: quando o time era melhor, na etapa inicial, Nasri abriu o placar para os Citizens. E nova derrota melancólica em plena Amsterdam ArenA parecia certa. Não foi. Porque Siem de Jong empatou o jogo ainda antes do intervalo, e reconheceu ter sido um “momento muito importante”. Ali a chama se acendeu. Se a equipe já voltou a adotar o estilo que a fez famosa (o 4-3-3, a troca incessante de passes), o espírito que andava ausente, uma certa esperança, reapareceu. Os Godenzonen se animaram, foram à frente e fizeram 3 a 1, numa das surpresas mais agradáveis da terceira rodada da fase de grupos da LC.
Claro, a eliminação na fase de grupos ainda é o cenário mais provável: fazer o que se fez na última quarta, tanto no City of Manchester quanto no Santiago Bernabéu, seria o maior feito do Ajax em muito tempo. No entanto, a vitória contra o City serviu para reanimar uma equipe bem desapontada pela pane contra o Heracles. E essa injeção de vontade era necessária. Até porque o Feyenoord já espera, no clássico do próximo domingo.
Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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