Holanda

O caso do ocaso

Na última quarta, Louis van Gaal divulgou a pré-convocação da seleção holandesa, para o amistoso contra a Itália, no dia 6 de fevereiro, em Amsterdã. E, entre os 23 nomes, não havia o capitão Wesley Sneijder. E nem Arjen Robben. Claro, com justificativas aceitáveis: Robben está voltando de lesão, e Sneijder estava às voltas com as negociações de sua transferência. Ainda assim, é a confirmação: os dois grandes protagonistas da Oranje nos últimos anos ficarão fora de mais uma partida, que será a sétima sob o comando de Van Gaal.

Isso diz pouco? Olhe a lista dos convocados: dos 23, apenas seis jogadores estiveram na Copa do Mundo de 2010. E quando se fala de titulares absolutos, o número cai para três: apenas Van Persie, Kuyt e Mathijsen entraram em campo para jogar os 90 minutos (que viraram 120) contra a Espanha, em Joanesburgo, no 11 de julho de 2010. Vorm era o goleiro reserva; Boulahrouz, lateral direito que só seria usado em último caso; e Huntelaar entrou regularmente durante a Copa, mas saindo do banco.

Não é suficiente? Pois bem: no último domingo, após a novela que já ensaiava ir até o fim de janeiro, Sneijder sacramentou a sua transferência para o Galatasaray. O meio-campista chegou feliz a Istambul, teve a recepção altamente calorosa que é típica das torcidas turcas, mostrou-se até motivado para estrear já na partida contra o Besiktas, no próximo domingo, pela 19ª rodada da Süper Lig. Mas a sensação de que Sneijder caiu de nível em sua carreira é indisfarçável. O que faz pensar: a decadência está chegando para a geração que teve o seu ápice na África do Sul, há quase três anos?

Claro, não é o caso de dizer que Sneijder acabou para o futebol em alto nível. O Galatasaray é um clube de segundo escalão em termos continentais, mas tem lá sua tradição: ganhou uma Copa Uefa, tem uma Supercopa da Europa e está nas oitavas de final da Liga dos Campeões. Mas é um destino menor para o seu novo camisa 14, que já viu momentos melhores na carreira, como em 2010, quando foi um dos grandes jogadores do planeta, por Internazionale ou Holanda.

Assim como Robben também já esteve melhor. Nem é pelas contusões: essas lhe perseguem há bastante tempo, e talvez continuem assim. Mas porque novamente fraquejou em momentos decisivos pelo Bayern (Petr Cech, diga algo sobre o assunto), e perdeu a chance que tinha para levantar o seu nome outra vez, com a Eurocopa apagada que fez. Hoje, além de seguir causando desconfiança sobre sua forma física, Robben não consegue atuações que lhe permitem diminuir as pechas de “amarelão” e “egoísta” coladas nele, em 2012. Perdeu espaço no Bayern. E é de se perguntar se o recuperará.

Van der Vaart, o primeiro representante da geração vice-campeã (afinal, foi quem primeiro atuou pela seleção, em 2001, sob… Van Gaal), também não anda muito melhor. Começou bem no Tottenham, mas também perdeu espaço. Retornou ao Hamburg onde tivera boa passagem, até é titular na equipe, mas não é o personagem principal dos hanseáticos. Huntelaar segue até razoável, mas faz temporada menos fulgurante do que a passada, pelo Schalke 04. Talvez, a única exceção que confirme a regra seja Van Persie, que manteve o nível do Arsenal vestindo a camisa do Manchester United – que, caso ganhe o título inglês, terá o nativo de Roterdã como destaque inquestionável.

E o preocupante é que todos esses jogadores, destaques absolutos do futebol mundial há não mais do que três, dois, um ano, ainda são relativamente novos, dentro de uma carreira cuja vida “útil” se estica cada vez mais. Robben fez 29 anos na última quarta-feira; Sneijder completará 29 em 9 de junho; no próximo dia 11, Van der Vaart vira um trintão, coisa que Huntelaar também será, a partir de 12 de agosto.

E as gerações antigas da seleção batava tiveram seus protagonistas jogando em alto nível até depois dos 30 anos. Na época da “Laranja Mecânica”, a equipe entrou os anos 1980 contando com Arie Haan, os irmãos Van de Kerkhof, Johnny Rep e, principalmente, com Ruud Krol, então dos melhores zagueiros do mundo; do time campeão da Euro 1988, três jogadores sobreviveram para atuar contra o Brasil na Copa de 1994, embora passados do ápice de suas carreiras (Ronald Koeman tinha 31 anos, como Rijkaard; Wouters, 33). E a geração que brilhou na Copa de 1998 teve Van der Sar como goleiro até os 40 anos, Phillip Cocu indo até os 36… bem, de fato, ela sequer acabou, se considerarmos Seedorf, elogiável no Botafogo, e Davids, insistindo no Barnet.

Faz-se necessário repetir: Sneijder tem elementos técnicos suficientes para reagir no Galatasaray, bem como Robben no Bayern, ou Huntelaar no Schalke 04. Mas enquanto isso, Van Gaal aposta na juventude: Van Rhijn, Martins Indi, Daley Blind, Clasie, Fer, Strootman, Maher, Van Wolfswinkel… todos eles deverão estar na lista final para o jogo contra a Azzurra. Jovens de técnica razoável, que têm condições de levar a Oranje facilmente à Copa de 2014. Mas que terão sua tarefa mais facilitada se os protagonistas voltarem a brilhar.

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