Holanda

O adeus a Wim Jansen, importante engrenagem do Carrossel Holandês e símbolo de uma vida no Feyenoord

Wim Jansen era titular da seleção da Holanda nos vices de 1974 e 1978, além de ter participado dos maiores feitos do Feyenoord

“Wim Jansen é um dos quatro únicos homens no mundo que vale a pena ouvir quando falam sobre futebol”

Se a frase acima parece forte o suficiente para qualificar a relação de Wim Jansen com o futebol, ela ganha um peso ainda maior quando foi proferida por Johan Cruyff. Os dois foram companheiros por muitos anos na seleção da Holanda e, embora menos lembrado que outros astros, Jansen seria instrumental ao sucesso da Laranja Mecânica nos anos 1970. O meio-campista também construiu uma história gigantesca com a camisa do Feyenoord, presente nos maiores sucessos do clube, com uma idolatria que nem mesmo uma curta (e vitoriosa) passagem pelo Ajax no fim da carreira impactou. E, além do jogador cerebral, Jansen ainda teve uma longa trajetória como treinador, campeão novamente no Feyenoord e adorado no Celtic por um feito simbólico. Aos 75 anos, Jansen seguia aclamado como uma referência de futebol na Holanda. Deixa gravadas diversas lembranças, após falecer em decorrência das complicações do Mal de Alzheimer.

Outra ótima definição sobre Wim Jansen foi dada por seu biógrafo, Yoeri van den Busken: “Ele respirava futebol, mas respirava tão suavemente que o mundo exterior não conseguia ouvir”. Inteligente e multifuncional dentro de campo, o holandês atuou durante grande parte da carreira como meio-campista, mas também foi lateral e líbero. Muitos contemporâneos o viam como um jogador excepcional por sua leitura tática e por sua capacidade técnica, embora a modéstia e o sacrifício pelo coletivo quase sempre o tornassem um coadjuvante. Mesmo assim, seria considerado uma lenda pelo Feyenoord, no qual esteve fortemente ligado por mais de 60 anos e que ele mesmo considerava “a sua vida”.

Wim Jansen contra Cruyff

Wim Jansen nasceu e cresceu em Roterdã. Assim, a paixão pelo Feyenoord desabrocharia naturalmente no garoto. Tinha boas companhias para tanto, aliás. Um de seus vizinhos era ninguém menos que Coen Moulijn, nove anos mais velho, que se tornaria ponta esquerda lendário do Feyenoord e é considerado por muitos como o maior ídolo da história do clube. Jansen chegou ao clube antes que o amigo realmente estourasse. O meio-campista fez parte das categorias de base desde os dez anos de idade. Pedalava 14 quilômetros de bicicleta todos os dias para treinar.

A progressão de Wim Jansen dentro do Feyenoord aconteceu num momento importante ao futebol holandês, de profissionalização e desenvolvimento. O inteligente meio-campista ajudaria a representar também a geração que eclodia, ao fazer sua estreia como profissional em 1965, aos 19 anos. O novato teria outros tantos companheiros emblemáticos em Roterdã. Nomes como Rinus Israël, Eddy Pieters Graafland e Ove Kindvall compõem a maior parte das listas de grandes ídolos do clube. No meio-campo, Jansen contava com a parceria particular de Willem van Hanegem, outro gigante do futebol nacional e também seu melhor amigo.

As conquistas de Wim Jansen começaram logo cedo, com o título da Eredivisie em sua primeira temporada, em 1964/65. O protagonismo se tornou maior até ser um dos principais nomes do time que voltou a faturar a Eredivisie em 1968/69. E aquela equipe conquistaria fronteiras inéditas em 1969/70, com o primeiro troféu da Copa dos Campeões da Europa para um clube holandês. Jansen disputou todos os nove jogos da caminhada como titular, inclusive os 120 minutos da decisão contra o Celtic.

Jansen teria seu momento de maior brilho nas oitavas, quando marcou o primeiro gol na vitória por 2 a 0 sobre o Milan, campeão continental na temporada anterior. Ainda hoje é considerado um dos gols mais bonitos da história do Estádio De Kuip: o camisa 7 recebe pelo lado direito, escapa da marcação e, quase da linha lateral da grande área, dá um chute por cobertura cheio de efeito, que beija a forquilha antes de entrar. Era a prova eterna do talento do meio-campista, que compôs uma trinca histórica ao lado de Van Hanegem e do austríaco Franz Hasil na meia-cancha do time de Ernst Happel.

Wim Jansen comemora pelo Feyenoord

Aquele Feyenoord era o time que batia de frente com o incensado Ajax na disputa pela Eredivisie. Wim Jansen conquistou o Campeonato Holandês mais duas vezes, em 1970/71 e 1973/74. Também faturou a Copa da Holanda em 1968/69. Mesmo internacionalmente, a lista de façanhas não se restringiu à Copa dos Campeões. Levou o Mundial Interclubes / Copa Intercontinental em 1970 e seria campeão também da Copa da Uefa em 1973/74. Não perdeu um minuto sequer daquela campanha continental e usaria a braçadeira de capitão em parte dos compromissos, na ausência de Rinus Israël.

A relevância de Wim Jansen no Feyenoord o levou para a seleção da Holanda já em 1967, aos 20 anos. O jovem não demorou a ganhar a posição, mas precisou se acostumar com os insucessos da equipe que levou um tempo até conquistar sua classificação às competições internacionais. Tal escrita se quebraria com a Copa do Mundo de 1974, um momento revolucionário para a Laranja Mecânica. Mais uma vez, o camisa 6 era um dos intocáveis do time de Rinus Michels e costumava fechar o lado direito do meio-campo, ao lado do amigo Van Hanegem e de Johan Neeskens.

Wim Jansen era uma peça importante para o funcionamento da Laranja Mecânica, por sua polivalência e leitura de jogo. Costumava fechar muito bem os espaços e estava sempre no lugar certo, o que contribuía à movimentação do Carrossel Holandês. Contudo, não aparecia tanto nos momentos decisivos. Participaria com passes para gols contra Bulgária e Argentina, mas o lance mais lembrado daquela Copa que teve influência do camisa 6 não foi dos mais felizes. Na decisão contra a Alemanha Ocidental, ele cometeu o pênalti sobre Bernd Hölzenbein, que permitiu o empate dos anfitriões, em duelo que terminaria na derrota mais amarga do futebol holandês.

Apesar disso, Wim Jansen não ficaria marcado negativamente e seguiu como titular da seleção. Ainda era uma figura de destaque na equipe que alcançou as semifinais da Euro 1976 e também continuou bem cotado no Mundial de 1978, quando se reencontrou com Ernst Happel. Foi titular em todas as partidas, no meio-campo e também na lateral direita. Na decisão contra a Argentina, todavia, acabaria substituído por Wim Suurbier durante o segundo tempo, pouco antes do empate da Holanda. De qualquer forma, o título seria novamente negado à Oranje, com a derrota por 3 a 1 na prorrogação.

Wim Jansen na final de 1978

Ao todo, Wim Jansen disputou 65 partidas pela Holanda e anotou um gol. Permaneceu nas convocações até janeiro de 1980 e foi capitão no fim deste período. Aquele seria também o último ano de sua longa trajetória pelo Feyenoord como atleta. O camisa 7 totalizou 15 anos na equipe principal, com 476 partidas disputadas e 39 gols. Tinha seu lugar assegurado entre os maiores da história do Estádio De Kuip. Às vésperas de completar 34 anos, aceitou uma proposta dos Estados Unidos e passou um tempo vestindo a camisa do Washington Diplomats, da NASL, onde seria companheiro de Cruyff. Isso até voltar ao seu país.

Apesar da enorme identificação com o Feyenoord, Wim Jansen jogou pelo Ajax por duas temporadas no final de sua carreira. Tal decisão não agradou os antigos torcedores e sua estreia, justo num clássico, veria o velho ídolo ser atingido no olho por uma bola de neve atirada por um menino de 14 anos. “Eu subestimei o ódio pelo Ajax entre os torcedores do Feyenoord”, confessaria anos depois, em sua autobiografia. Ainda assim, a estadia em Amsterdã rendeu um brilho final, com o título da Eredivisie em 1981/82. Fixado como líbero, o veterano participou de 32 partidas na campanha e daria sua contribuição num momento de reconstrução dos Ajacieden. Seria a glória final de sua história dentro de campo, mas que teria ainda outros momentos de destaque do lado de fora.

O Feyenoord não indicou ressentimento e abriu as portas para Wim Jansen assim que ele pendurou as chuteiras. O veterano treinou as categorias de base e foi assistente da equipe principal, antes de trabalhar por Lokeren e SVV. Já em 1991, o antigo meio-campista assumiu o comando do Feyenoord e passou dois anos à frente da equipe principal, num período difícil por conta das dificuldades financeiras no De Kuip. Em tempos nos quais o futebol local estava polarizado entre Ajax e PSV, o time ainda conseguiu faturar a Copa da Holanda e alcançar as semifinais da Recopa Europeia. Aquele seria considerado um ponto de virada para o retorno às glórias. Jansen saiu para virar o diretor esportivo, enquanto o amigo Van Hanegem assumia como técnico e reconquistaria a Eredivisie, após um jejum de nove anos do clube.

Wim Jansen e Larsson

Em 1993, Wim Jansen deixou o Feyenoord. Virou assistente de Leo Beenhakker na seleção da Arábia Saudita e na sequência também dirigiu o Sanfrecce Hiroshima. Seu trabalho mais relevante como treinador viria em 1997/98, à frente do Celtic. Seria ele o responsável por um título bastante simbólico no Campeonato Escocês, que impediu o Rangers de faturar um inédito decacampeonato nacional. Astro daquela campanha, Henrik Larsson chegou graças aos contatos de Jansen com o Feyenoord. Contudo, as discordâncias internas levaram o holandês a deixar Parkhead logo depois do feito.

Wim Jansen ainda realizou outros trabalhos menores na área técnica, antes de encerrar sua história no futebol novamente junto ao Feyenoord. Entre 2005 e 2008, o ídolo trabalhou como diretor técnico, antes de passar um período mais breve como assistente. Saiu do clube em solidariedade ao técnico demitido, antes de retornar para atuar como conselheiro dos técnicos das categorias de base – cargo que manteve por uma década, a partir de 2011. Independentemente do vínculo empregatício, Jansen seguiu aclamado no Estádio de Kuip por muito tempo. Bastava voltar para que o ídolo fosse reconhecido por toda a sua contribuição. Diagnosticado com Mal de Alzheimer recentemente, Jansen se afastou do dia a dia da agremiação. Seu adeus deixa uma lacuna insubstituível na história do Feyenoord, de um personagem que muito orgulha o clube.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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