Nova iniciativa

No início de 2008, uma notícia parecia dar grandes esperanças de que o Ajax se reformulasse. Marco van Basten acertou sua vinda para treinar os Godenzonen, enquanto Johan Cruyff chegava ao clube para participar de uma reestruturação interna. Dois grandes ídolos da história do clube, com estofo para tal tarefa: era o melhor dos mundos.
No entanto, não durou quase nada a expectativa perto da Bijlmer Arena. Cruyff chegou com ideias revolucionárias, para mudar, principalmente, De Toekomst, a lendária escolinha de futebol do Ajax que tantos talentos já revelou. Van Basten, por sua vez, defendia uma mudança mais lenta, gradual e segura. Resultado: as duas personalidades se chocaram, e Cruyff deixou o projeto de renovação antes mesmo de começar qualquer coisa.
Dois anos depois, pouco mudou no Ajax. Está certo que o time até conseguiu avançar um pouco – bem ou mal, enfim, disputa a fase de grupos da Liga dos Campeões -, mas o projeto de reformulação ficou no passado, até pela saída repentina de Van Basten, no final do Campeonato Holandês 2008/09. O “Relatório Coronel”, trabalho coordenado pelo então diretor Uri Coronel, virou algo esquecido. Coronel assumiu a presidência – e nada mudou em Strandsvliet.
E a continuação do desempenho irregular do Ajax nas competições que disputa resultou em reclamações de Cruyff. No dia 20 de setembro, após a derrota para o Real Madrid, por 2 a 0, o craque maior da história do futebol holandês escreveu, em sua coluna no diário De Telegraaf: “Há dois anos e meio, o Relatório Coronel apareceu, com conclusões e sugestões para o futuro. Quando se vê onde tudo chegou, é um grande drama. (…) Após o fim do jogo contra o Real, todos estavam felizes que a derrota tivesse sido apenas por 2 a 0, enquanto poderia ter sido por 8 ou 9 a 0. Após estes dois anos e meio, chego à mesma conclusão: deve haver uma grande limpeza no Ajax.”
Mas o que fazer, então? Cruyff deu a sugestão, no lançamento da sua fundação, dois dias depois: “Se o Ajax quiser, pode sempre contar comigo. Há outros muitos ex-jogadores do clube que querem vir comigo. E, se for pedido a eles, eles virão. Eles também veem a experiência.” Bastou para que vários outros ex-jogadores se manifestassem a favor. Como Keje Molenaar: “Acho que é uma hora muito boa para que eu vá fazer algo pelo Ajax.” Ou Marc Overmars: “Sempre poderão me ouvir.” Ou Peter Boeve: “Deve-se chamar para conversas. Se isso acontecer, estarei bem aberto para uma conversa com o Ajax.” E a diretoria do clube? Também, como disse o diretor geral Rik van den Boog: “Eu acharia maravilhoso que nós conversássemos mais com os homens que construíram este clube. Grosso modo, é uma ideia muito boa.”
Obviamente, é saudável que Cruyff esteja tão interessado em ajudar o Ajax. Afinal de contas, sem ele, o clube não teria nem metade da grandeza e tradição que hoje tem. Mais: o futebol holandês em geral foi um antes de Cruyff, e outro após ele. O “Nummer 14” foi o gênio entre jogadores já muito habilidosos, o agente catalisador, o símbolo máximo de uma geração que elevou o futebol holandês ao patamar em que ele está até hoje.
No entanto, Cruyff, nos últimos tempos, tem tido atuações deletérias. De filósofo da bola, transformou-se num mero “corneteiro”, excessivamente idealista, alguém que acha que o futebol tem de estar alinhado com a sua vontade – e que critica todo e qualquer fator que não lhe agrada. Agarrado a filosofias já relativamente anacrônicas, como o 4-3-3, o ex-meia tornou-se, em suma, um chato. Alguém que, ao invés de colocar a mão na massa, apenas comporta-se como se estivesse numa redoma de vidro, apontando erros e criticando coisas e coisas, sem agir para melhorar.
Além disso, nos últimos tempos, a sexta maior personalidade da história da Holanda (conforme pesquisa da rádio pública KRO) tornou-se alguém mais influente na Espanha do que no próprio país. Basta ver a influência que o estilo de jogo defendido por ele tem no Barcelona – e na própria seleção campeã mundial. Porém, Cruyff é holandês. E ainda deve coisas a seu país.
Por tudo isso, espera-se que ele continue seguindo com sua intenção de ajudar o Ajax a crescer. Pois uma coisa é treinar a seleção da Catalunha – tarefa muito fácil, já que a equipe sequer disputa campeonatos oficiais. Outra é mergulhar de corpo e alma na reestruturação do clube que, um dia, ele levou a três títulos europeus.
A esperança cresce
Era um desafio bom. Nada que assustasse, mas enfrentar a Rússia, fora de casa, seria uma partida boa para que a seleção da Bélgica continuasse exibindo a evolução que mostrou sob o comando de Georges Leekens, na rodada mais recente das eliminatórias da Euro 2012. Toda a base estava lá: Daniel van Buyten, Vincent Kompany, Marouane Fellaini, Steven Defour, Eden Hazard, Romelu Lukaku… como se não bastasse, havia um desafio a mais: o técnico dos russos é simplesmente Dick Advocaat, que deixou a seleção repentinamente, em discussões com a federação.
Bastou um erro, de Igor Akinfeev, para que Hazard cruzasse e Lukaku fizesse 1 a 0. E a vantagem em Voronezh fez com que os Diabos Vermelhos ficassem tranquilos em campo. Tal característica facilitou o desenvolvimento de um jogo fluido e calmo, algo fundamental para uma equipe que, de veteranos, tinha apenas Van Buyten e Timmy Simons. Tudo isso resultou no segundo gol de Lukaku. E na vitória.
Portanto, nada mais natural que as palavras de Leekens tenham sido alegres: “Após uma viagem muito especial para a Rússia, fechamos o ano muito bem. Na quarta, foi provado o grupo maravilhoso que eu tenho.” Outra indicou qual será a intenção do treinador belga: “A ligação entre os jogadores não se quebrou, e é sobre essa base que nós trabalharemos no futuro.” É o que se espera, para que a Bélgica possa recuperar um relativo destaque.
(Ah, só para constar: antes do jogo, Advocaat cumprimentou de modo alegre Leekens e François de Keersmaecker, presidente da federação. Feridas cicatrizadas.)



