No momento certo

Em condições normais, as rodadas da Jupiler League vinham sendo até monótonas. O Anderlecht vencia e assumia a liderança provisória, enquanto Standard Liège e Club Brugge não jogavam suas partidas. Quando atuavam, então, Rouches e Blauw-en-Zwart passavam novamente à frente na tabela do Campeonato Belga. Mas a 15ª rodada, antepenúltima antes da parada de inverno (a partir do próximo dia 19, último dia do turno, seis semanas de folga, com retorno em 16 de janeiro), mudou, finalmente, o cenário.
Porque, aproveitando-se da excessiva fraqueza dos rivais para evitarem surpresas e vencerem adversários mais fracos, a equipe de Ariël Jacobs conseguiu voltar ao primeiro lugar da tábua de classificação, justamente num momento em que as coisas começam a se definir. E o fez colaborando para que a 15ª rodada fosse a que teve mais gols, até agora, na temporada. Dos trinta e três gols marcados, cinco vieram dos Mauves, graças aos 5 a 1 em cima do Tubize.
Sim, sabe-se que o Tubize é um time fraco, que briga para não cair. Mas nem isso eclipsa o fato de que a equipe do Constant Vanden Stock voltou a mostrar bom futebol. Principalmente na parte ofensiva. Mesmo que os jogadores não figurem muito na lista dos principais artilheiros da Jupiler (o mais efetivo, Nicolás Frutos, está com seis gols, a cinco do topo da artilharia), o estilo coletivo que a equipe adotou no meio-campo e no ataque justifica o fato do time, com 38 gols, ter o melhor ataque da Liga. E ajuda, também, a ótima fase por que passam jogadores fundamentais em ambos os setores.
No meio, Mbark Boussoufa e Jan Polak se sobressaem, ao armarem as jogadas e ainda serem dois atletas a mais para ajudarem na conclusão. Por sua vez, no ataque, a responsabilidade fica com dois terços da “armada argentina” que tomou conta da equipe: Matías Suarez e o citado Frutos são responsáveis por boa parte dos tentos, além de um terceiro argentino, Lucas Biglia, na meia. E ainda há a defesa, com um Gillet inspirado na temporada. Além de ajudar na marcação, os avanços do lateral-esquerdo já lhe renderam cinco gols na temporada. Sem contar que a versatilidade de homens como Deschacht, Kruiswijk e Juhász permite a Ariël Jacobs colocar o time num 3-5-2 ou num 4-3-3, sem perda de desempenho.
Por isso, o Anderlecht cresce. Azar de Club Brugge e Standard. O Brugge tinha tudo para manter-se à frente, no campeonato. Mas cometeu o grave erro de ignorar que o Lokeren vem subindo no campeonato, ancorado na defesa menos vazada – 11 gols -, nas ótimas atuações de Boubacar Copa Barry, no gol, e, principalmente, do artilheiro da Jupiler League, o irresistível Moussa Maazou. O avante nigerense fez mais um na vitória por 2 a 0 sobre os de Jacky Mathijssen, o que comprovou ser o time de Georges Leekens o “exterminador de grandes” do ano, por somar à vitória contra os Brugeois outra vitória contra o Anderlecht e um empate contra o Standard.
Sobre os Rouches de Laszlo Bölöni, pode-se até compreender que o time, apesar dos pesares, ainda mostra o melhor e mais bonito futebol na Bélgica, bem como que a equipe vinha cansada da ótima atuação na Copa da UEFA, com os 3 a 0 contra a Sampdoria. O que é difícil de se tolerar é o fato do time, jogando em casa, com a equipe titular, ganhando por 1 a 0, ter deixado o Zulte-Waregem empatar e, no último minuto de jogo, virar para 2 a 1. A equipe só não caiu para o quinto lugar graças a tropeços não menos lamentáveis de Genk (perdeu para o Kortrijk, 3 a 2) e, principalmente, Westerlo (derrota por 1 a 0 para o lanterna Roulers).
Portanto, ambos chegam em baixa para tentar a recuperação no confronto direto que jogarão nesta 16ª rodada. Será a hora de ver quem conseguirá desgarrar para enfrentar o Anderlecht na briga pelo título. Ou de, empatando, ver os Mauves, provavelmente, passarem sem dificuldades contra o Roulers e se distanciando na ponta.
PSV: medo e esperança
Eliminação melancólica de seu grupo na Liga dos Campeões. Além de ter ficado até mesmo sem vaga na Copa da UEFA, a equipe fica na lanterna de sua chave. Pior: com apenas três pontos, o time só fez campanha pior em sua história na LC ao terminar com um ponto em seu grupo, na temporada 1992/93. 2007/08 é um período irremediavelmente perdido para o PSV, certo? Talvez.
Porque, ainda que os Boeren continuem sofrendo com desempenho irregular na Eredivisie, o time mostrou, nas últimas duas partidas, espírito de luta e capacidade de reação admiráveis, que possibilitam, sim, a esperança de que a equipe ainda tenha fôlego para brigar pelas primeiras posições da tabela. Contra o Heerenveen, um jogo que parecia terminado, com a vantagem de 2 a 0 para os frísios, viu a entrada do peruano Reimond Manco pôr fogo no jogo e um empate com sabor de vitória, com dois gols nos últimos dez minutos.
Contra o Groningen, foi ainda melhor: em casa, o 2 a 0 sofrido num primeiro tempo assustador de tão ruim transformou-se, em apenas onze minutos da segunda etapa, numa virada admirável para 4 a 2. Além da vontade, o mérito por desempenhos mais alentadores vem da habilidade que, justiça seja feita, Lazovic e Dzsudzsák mostram lá na frente. Além de um meio-campo em que Afellay, mesmo quando não tem inspiração, sempre tenta alguma coisa. Ou até de substituições que mudam o espírito do jogo – ao entrarem em lugar de Nijland e Wuytens, respectivamente, Amrabat e Bakkal arrebentaram contra o Groningen. Principalmente o primeiro, jogando pela direita.
Mas nem mesmo tais reações apagaram os problemas do time. Se o meio e o ataque tentam algo, a defesa, além das atuações deficientes de alguns jogadores, sofre com as alterações freqüentes de Huub Stevens. Um jogador, pelo menos, já se rebelou contra isso. De saída, Carlos Salcido não só reafirmou que deixa Eindhoven, como disparou várias críticas contra Stevens, reclamando de possível boicote do treinador e de sempre ser colocado em outras posições que não a sua, no miolo de zaga.
Stevens tem até conduzido com recomendável cautela os pepinos que enfrenta, como as infantis reclamações que Lazovic já fez. Porém, deve corrigir os seus erros e mudar menos o time, deixando de esperar que as reações continuem caindo do céu. Afinal, só espírito de luta não ganha campeonatos.



