Holanda

Não tiveram calma

A coluna da semana passada pretendia-se uma espécie de conclusão da participação caótica da seleção da Holanda na Euro 2012. Claro que ela foi vexaminosa (agora que a Espanha chegou à final e a Alemanha teve participação honrosa, dá para dizer: foi a maior decepção da Euro). Mas nada estava perdido: a geração atual que comanda a Oranje ainda tem plenas condições de chegar à Copa de 2014 sem tantos problemas, algumas reposições seriam naturais etc. Tanto é que estas linhas mal traçadas deveriam falar sobre o mercado ainda fraco em Holanda e Bélgica – para que se tenha uma ideia, o NAC Breda tem sido o maior fornecedor de reforços nos times do Campeonato Holandês.

Mas estas linhas, mais uma vez, falarão sobre a seleção que terminou em penúltimo lugar na Eurocopa (só ficou à frente da Irlanda no saldo de gols). Óbvio, por causa da demissão de Bert van Marwijk, ocorrida na última quarta-feira, antecipando uma decisão que só deveria sair em 6 de julho. Ela foi laconicamente explicada tanto pelo demissionário (“Eu duvidei muito, mas decidi que devia dar este passo”) quanto por Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da federação holandesa (“Ele foi muito bem, nos levou à final da Copa do Mundo e ao primeiro lugar no ranking da Fifa. Pessoalmente, vejo com um sentimento muito bom nosso trabalho em conjunto. Naturalmente, é ruim nos separarmos de maneira tão precoce, mas devemos ser realistas”).

A opinião é clara: mostrar a Van Marwijk o caminho da rua é de uma injustiça tremenda. Afinal de contas, o trabalho do técnico não era posto em xeque antes da viagem a Polônia/Ucrânia – em que pesassem algumas críticas ao estilo retraído com que o treinador normalmente escalava e armava taticamente a Oranje, o vice-campeonato mundial praticamente calara os críticos. E, no entanto, por apenas três derrotas, todo um trabalho paciente de quatro anos foi desmoronado em questão de aproximadamente um mês.

E, no entanto, mesmo que tenha sido injusta, a demissão foi absolutamente compreensível. Porque, se a KNVB fez um relatório antes da Euro dizendo que chegar às semifinais era o resultado mais aceitável, e a Holanda parou na primeira fase, com três derrotas, é óbvio que o técnico, no mínimo, seria chamado para explicar desempenho tão ruim. Próprio de um ambiente profissional. E, de mais a mais, os poucos episódios internos vividos na concentração em Cracóvia (Polônia) que vazaram na imprensa mostram como o controle do grupo foi perdido.

Tome-se como exemplo a disputa de posição no ataque. Desde antes da viagem para a Euro, Van Marwijk já decidira que Van Persie seria o titular. Até aí, tudo bem. O problema foi ter revelado isso a Huntelaar, que acreditava-se dono da posição, já durante os treinos. Bastou para que o camisa 9 tornasse infernal, sozinho, o ambiente na concentração. Faltou pouco, pouquíssimo, para que “Hunter” fosse cortado. E, mesmo sem ser, Van Marwijk teria prometido uma geladeira generosa ao atacante, que demoraria bastante para sair dela. Se é que sairia.

Pior ainda foi Van Marwijk ter contradito uma regra que colocara ao elenco, antes mesmo da Copa de 2010: só jogaria em seu time quem estivesse jogando também no clube. Ponto para Rafael van der Vaart, há muito o principal nome do Tottenham. E, no entanto, o camisa 23 perdeu a posição na última hora para Afellay, que pouco jogou no Barcelona (até por causa da contusão no joelho), mas arrebentou nos amistosos de preparação. Resultado: quebra de confiança. Uma coisa que jogadores de futebol detestam. Mais ainda quando os jogadores de futebol são holandeses. Além disso, após a Euro, soube-se que Van Marwijk já fizera uma lista de atletas que ficariam um tempo sem ser convocados, e talvez jamais voltassem à seleção. Pelo relato do jornal “De Telegraaf”, a lista tinha os nomes de Kuyt, Van der Vaart, Huntelaar, Boulahrouz, Heitinga e Mathijsen – além, claro, de Van Bommel.

Assim, embora injusta, entende-se a decisão da federação. No entanto, ela foi prejudicial. Porque não há nomes prontos para comandar a equipe nos amistosos contra a Bélgica, no dia 15, e Turquia, em 7 de setembro. Tudo que houve após o anúncio da demissão de Van Marwijk foi apenas jogar possíveis substitutos no ar: Frank de Boer? Ronald Koeman? Frank Rijkaard? Ruud Gullit? Guus Hiddink? Co Adriaanse? Quem sabe fazer Johan Cruyff finalmente aceitar?

E, aos poucos, os candidatos vão se retirando. Primeiro foi Koeman, dizendo que ficará no Feyenoord. Depois, Frank de Boer não só também se declarou fora da disputa, como ainda encorajou a contratação de Louis van Gaal. O agente de Frank Rijkaard, Perry Overeem, também disse que o ex-jogador cumprirá o contrato com a seleção da Arábia Saudita até o fim de 2013. Co Adriaanse e Ruud Gullit até têm experiência como treinadores, mas vêm de trabalhos medianos; Foppe de Haan, respeitadíssimo na Holanda por seu trabalho nas seleções de base (algo semelhante a José Pekerman, na Argentina), já está praticamente aposentado.

E acreditar que Cruyff aceitará treinar a Holanda agora, aos 65 anos, é ser ingênuo demais. Afinal, todos sabem que, com Jopie, ou é do jeito dele, ou não é de jeito nenhum. A federação nunca o convidará, sabendo que ele não aceitará injunções de nenhuma ordem em seu trabalho. Então, quem sabe alguém estrangeiro? Não é o que quer Gerard Marsman, presidente da associação de técnicos profissionais da Holanda: “Espero, de coração, que Van Marwijk seja sucedido por um holandês, e que a KNVB continua trabalhando no estilo clássico da seleção.”

A torcida também se mostra indecisa. Na pesquisa que o diário “Algemeen Dagblad” faz em seu site, Cruyff lidera, com 19 por cento; já no “De Telegraaf”, Van Gaal sai na frente, com 24 por cento. Mas, por enquanto, tudo o que se sabe é que Van Marwijk está demitido. Algo que até se entende. E que não deverá por em risco a classificação holandesa para a Copa de 2014: o técnico novo terá as eliminatórias e os amistosos para formar um time. Só que a federação preferiu a indecisão. Porque não tiveram calma…

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