Na segundona holandesa, Dordrecht vê o acesso como possibilidade real
Em geral, a segunda divisão holandesa não tem muitas novidades em relação aos clubes que sobem. Nas últimas temporadas, quase sempre o campeão é o clube rebaixado do ano anterior – e, na Nacompetitie, quase sempre um dos vindos da Eredivisie se salva, quando não os dois. Em 2012/13, isso mudou: o Cambuur conquistou a Eerste Divisie, e o Go Ahead Eagles ganhou a vaga na repescagem posterior. E a temporada atual dá boas chances de acesso a um clube ausente da divisão de elite há muito tempo: o Dordrecht, da cidade homônima.
Os Schapenkoppen (é o apelido do clube, e dos moradores de Dordrecht: literalmente, “cabeças de cabra”, como a estampada no distintivo do clube, por uma lenda na cidade) estão seguros na liderança da segunda divisão: passadas 20 rodadas, a equipe treinada por Harry van der Ham tem 43 pontos, seis acima do Willem II, rebaixado na temporada passada. Não bastasse isso, já interferiu na divisão dos períodos que decidem quem jogará a Nacompetitie, repescagem pela segunda vaga na primeira divisão: ao vencer os dois, acabou dando um dos lugares ao Sparta Rotterdam – isso porque o Jong PSV, time de aspirantes do clube de Eindhoven, terminou o segundo período na vice-liderança, mas não pode subir.
Um dos méritos do centenário clube (aliás, mais do que centenário: entre algumas mudanças de nome, já vai pelos 130 anos, completos em 16 de agosto) está em corresponder nos duelos contra os competidores diretos pela ponta. A única derrota veio justamente quando enfrentou o Willem II: 2 a 0, em pleno estádio GN Bouw. De resto, só vitórias. Contra o FC Eindhoven, terceiro colocado, 4 a 3 (após chegar a perder por 3 a 1); contra o Sparta Rotterdam, em quarto lugar, 3 a 2 fora de casa; contra o De Graafschap, quinto, 2 a 1.
E mesmo quando o time tropeça, os rivais diretos também se encarregam de deixá-lo na ponta. Exemplo veio na 20ª rodada, quando o time não passou de um empate por um gol contra o De Graafschap: o Sparta, que vinha na segunda posição, também ficou no 1 a 1, contra o Excelsior. Na 19ª rodada, outro empate: 2 a 2 contra o Volendam. Sem problemas: o Sparta ficou no 1 a 1 contra o Jong Twente.
Mas o principal mérito do Dordrecht é, provavelmente, a sabedoria com que o clube foi armado. Nada de querer fazer grandes contratações de veteranos. O foco foi em jovens com experiência até de Eredivisie, mas ao mesmo tempo com nível e vontade suficientes para jogarem bem na segunda divisão. Como o meio-campista Adnan Alisic, com algum tempo de Excelsior, originado no Feyenoord. Ou o lateral direito Josimar Lima, cabo-verdiano que esteve no Willem II. Ou então Erixon Danso, atacante cedido pelo Utrecht. Ou o atacante Giovanni Korte, emprestado pelo ADO Den Haag e artilheiro do clube na temporada, com 11 gols.
E de um desses jovens que achou guarida no Dordrecht vem o principal destaque. Aparentemente, o goleiro Warner Hahn não é nada seguro. Mas só pela estampa: de grande estatura (1,98m) e com agilidade, o goleiro de 20 anos não recebia chances no Ajax, onde se criou. Sorte do Dordrecht, que o comprou e o vê ser o porto seguro da defesa, titular da seleção holandesa sub-21 e merecedor de uma aposta, por parte do Feyenoord, que já o contratou para a próxima temporada. Mas se Hahn já garantiu seu futuro, precisa ajudar o Dordrecht a garantir o dele, voltando à Eredivisie após 19 anos.
Outra vez, reclamações
Não se pode dizer que o Ajax não teve chances no San Siro. A classificação às oitavas de final da Liga dos Campeões esteve próxima – principalmente após a merecida expulsão de Montolivo, deixando o Milan com 10 jogadores já aos dez minutos de jogo. Mas, no frigir dos ovos, os Ajacieden não mereceram ir além do 0 a 0. Por quê? Porque, justamente num jogo onde manter o seu estilo era fundamental e provavelmente resultaria em vitória e vaga, o Ajax facilitou a vida milanista.
Ao invés de usar e abusar do toque de bola que tanto pode fazer, o Ajax começou cedo demais a apelar para os cruzamentos na área. Os únicos momentos em que se arriscavam jogadas de passe vinham principalmente pela direita, com Van Rhijn, Schöne e Klaassen (estes dois últimos, os destaques da equipe). De resto, somente bolas para a área. Daí, sem referência, ficava fácil para a defesa rossonera devolver a bola para o meio-campo, que a prendia à perfeição – destaque para Balotelli.
No fim, Frank de Boer ainda tentou resolver o problema, colocando Sigthórsson (ainda recuperando-se de lesão) e Van der Hoorn para cabecearem. Sem resultado algum. Pior: quando o toque de bola resolvia e alguém ganhava chance de chutar, Abbiati fazia as defesas que o tornaram o melhor da partida, provavelmente. Pior ainda foi ouvir declarações que levantavam novamente o velho estilo holandês de colocar a culpa da eliminação no estilo defensivo do adversário.
Aqui, cabe citar a frase lapidar de Frank de Boer, após o fim da partida: “O antifutebol venceu”. Ou então, o clichê máximo dito por Christian Poulsen: “Pode-se dizer que a sorte não esteve do nosso lado nesta edição da Liga dos Campeões”. Nem a sorte, nem a inteligência para aproveitar cenários favoráveis. De todo modo, se serve de consolo, o Ajax ganhou a certeza de que subiu mais degraus na tentativa de voltar a ser levado a sério na Europa. Resta colocar os aprendizados em prática na Liga Europa.



