Mudança de bastão

Aos 35 minutos do segundo tempo, um escanteio foi cobrado, no clássico entre Standard Liège e Anderlecht, pela 22ª rodada do Campeonato Belga. E a bola foi parar em Moussa Traore. E o atacante, que havia substituído Mehdi Carcela-Gonzalez, acabou desviando a bola acidentalmente para o gol defendido por Bolat. Era o terceiro gol do Anderlecht, em pleno Maurice Dufrasne. Três minutos depois, a mesma cena, só com um protagonista diferente: Eliaquim Mangala, que acabou desviando a bola para as redes de Bolat, de cabeça. 4 a 0 Anderlecht.
Os dois gols contra, em sequência quase imediata, mostraram o domínio exercido pela equipe de Ariël Jacobs na partida entre o atual bicampeão nacional e o líder do campeonato. Se bem que, a rigor, a goleada fora de casa apenas confirmou o que já se via há algum tempo: o Anderlecht é, hoje, o melhor time a atuar na Jupiler League.
O que se viu no “Inferno de Sclessin” foi apenas a cereja no bolo, a prova provada do quão grande é a superioridade da equipe de Ariël Jacobs. Basta dizer que a equipe já não perde há onze rodadas – e, destas onze, em apenas uma rodada os Mauves saíram de campo com um empate (2 a 2 contra o Gent, na 20ª rodada, quando a equipe conseguiu evitar a derrota por 2 a 0 que ocorria). De resto, só vitórias.
O ambiente antes daquele que, hoje, é o principal clássico da Bélgica era de tensão. Evidentemente, para que se evitassem as cenas violentas pelas quais o 1 a 1 do primeiro turno ficou conhecido – culminando, evidentemente, com as graves lesões de Jan Polak e Marcin Wasilewski, sendo que o caso deste último também respingou sobre Axel Witsel, que cometeu a grave entrada sobre o lateral polonês. O esforço para que nada de mais acontecesse foi tamanho que Michel van Holsbeeck e Dominique D'Onofrio, presidentes dos dois clubes, trocaram camisas durante a semana.
E, a rigor, nada aconteceu. Até porque o rápido gol de Jonathan Legear, já aos sete minutos de jogo, aproveitando rebote de Bolat em cabeçada de Van Damme, esfriou bastante o ânimo com que o Standard havia entrado em campo. Porém, os momentos que praticamente dizimaram os Rouches não envolveram gols. Um deles, como no primeiro turno, envolveu expulsão de Witsel.
E expulsão injusta, segundo alguns: o meio-campista acabou recebendo o vermelho de Johan Verbist após entrar em dividida com Legear, aos 43 minutos do primeiro tempo. Para completar, logo no início do segundo tempo, aos cinco minutos, Romelu Lukaku fez o terceiro, após receber passe do brasileiro Kanu. E, colocando um fim definitivo nas esperanças dos donos da casa, Mbokani cobrou pênalti que sofrera nas mãos de Sylvio Proto. Depois… bem, basta ler o parágrafo inicial.
Mas é bom que se repita: o Anderlecht continua fazendo por onde merecer a vantagem de seis pontos que ostenta na liderança (favorecido, óbvio, pelo cancelamento do jogo entre o vice-líder Club Brugge e o Westerlo, em razão das chuvas que deixaram o gramado impraticável). Impressiona o nível de entrosamento que a defesa atingiu: a linha formada por Deschacht, Juhasz, Mazuch e Van Damme dá raros motivos para que se sinta falta de Wasilewski.
No meio-campo, enquanto Mbark Boussoufa continua armando com a classe habitual, Lucas Biglia (que já anunciou o desejo de deixar o clube na próxima janela de transferências) é o destaque, por prover total segurança na marcação. Tanto é que foi o destaque contra o Standard. No ataque, a alternância de destaques só faz bem a Ariël Jacobs, que tem liberdade para implantar uma rotatividade de finalizadores: ora Lukaku, ora Legear, ora Tom de Sutter.
Já o Standard deve se concentrar apenas em garantir lugar na fase de play-offs. O time mostrou total falta de concentração, que já tem vitimado a equipe nos últimos jogos – e pode ser um fator de desvantagem para a partida contra o Red Bull Salzburg, nos 16-avos da Liga Europa. Competição na qual o Anderlecht ainda tem o que provar, contra o Athletic Bilbao. Porque, na Bélgica, o Standard já passou o bastão.



