Levante-se e lute

Dá para se dizer que dois clubes monopolizaram o futebol belga, nos últimos quatro anos. Em 2007/08 e 2008/09, o Standard foi o destaque, ao pulverizar 25 anos de jejum e voltar a ser protagonista, depois de um longo tempo. Na temporada posterior, com um time mais experiente e bem entrosado, o Anderlecht nadou de braçada e recuperou o domínio na Jupiler League. E, finalmente, em 2010/11, o Racing Genk apresentou dedicação admirável, além de boas surpresas individuais, e foi premiado com o título.
E o Club Brugge apenas assistiu a tudo isso. De modo mais decepcionante (como em 2008/09, quando o time de Jacky Mathijssen naufragou) ou mais honroso (como na temporada passada), os Blauw-en-Zwart já vão para a sexta temporada seguida sem comemorar um título nacional. Incômodo, para o segundo maior vencedor do Campeonato Belga, com 13 títulos – e, de certa forma, o segundo clube mais conhecido do país antes do ressurgimento do Standard.
E, aparentemente, a crise dentro do Club poderia continuar. Para começo de conversa, foi perdido o homem que monopolizava as ações ofensivas dentro da base treinada por Adrie Koster. Justamente eleito o melhor jogador da Jupiler League (sem contar a participação razoável na Liga Europa, quando foi o único jogador a ter escapado ileso da péssima campanha), Ivan Perisic recebeu o prêmio da transferência para o Borussia Dortmund, onde certamente poderá ser utilizado.
Para piorar, o peruano Ronald Vargas, segundo melhor jogador da equipe, provável sucessor de Perisic como o “homem-esquadra”, reforçou justamente o carrasco Anderlecht. E uma possível revelação, o camaronês Dorge Kouemaha, foi pego pelo Kaiserslautern. Sinal de que, outra vez, o Club Brugge veria a caravana dos adversários passar sem fazer nada?
Não. Porque o clube, dos grandes belgas, é quem mais tem se esforçado nas contratações. A melhor delas, para o ataque. No último Campeonato Holandês, Bjorn Vleminckx tinha tudo para ser o artilheiro. Não foi porque diminuiu o fôlego na reta final – justamente quando Dmitri Bulykin subiu, tornando-se o principal goleador e o grande destaque do ADO Den Haag. Mas seus 21 gols o tornam um destaque em potencial no FCB.
Do mesmo NEC de onde veio Vleminckx, também chegou Niki Zimling, que foi bem nos Nijmegenaren, como meio-campista. Também buscado na Eredivisie foi Fredrik Stenman, do Groningen. Com relação aos rivais, de importante, o Standard apenas trouxe Geoffrey Mujangi Bia, do Wolverhampton. E o Anderlecht, a princípio, reforçou apenas a defesa, trazendo o sueco Behrang Safari do Basel.
A princípio. Porque os Mauves já negociam firmemente para trazerem Milan Jovanovic de volta ao futebol belga. O próprio sérvio assumiu as negociações: “Tivemos um jantar, e, sim, foi interessante. Mas ainda precisamos ver. Eu ainda sou jogador do Liverpool. Mas, se eu achar um clube interessado, posso sair.” A ver se os Mauves passarão à frente do Club Brugge, que levanta-se e luta para recuperar o terreno perdido.
De novo! De novo?
Quem lê a coluna já ouviu, volta e meia, a história de Johan Cruyff ter-assumido-uma-vez-um-projeto-de-reformulação-no-Ajax-em-2008-junto-do-técnico-Marco-van-Basten-mas-os-dois-discordaram-quanto-aos-rumos-Cruyff-foi-embora-e-blá-blá-blá. Assim como não é novidade que Cruyff é um sujeito absolutamente temperamental e intransigente quanto à visão do que é futebol.
E, mais uma vez, a absoluta vontade de “Jopie” em colocar o seu modus operandi dentro do Ajax causou um choque perigoso. Em meio às eleições dentro do Conselho Deliberativo para escolher o novo diretor geral do clube, o ex-jogador sugeriu o nome de Tscheu La Ling, que também defendeu os Ajacieden em campo.
Só que o holandês de ascendência chinesa, hoje dono do Trencin, clube tcheco, é visto por alguns conselheiros como “muito leniente, e pouco confiável”. Bastou para que o “Nummer 14” viesse, supostamente, com nova ameaça de deixar o projeto de reformulação do clube.
Mas as duas partes trataram de por panos quentes no assunto. O conselho aceitou melhor o nome de La Ling, e Cruyff disse que não fora tão enfático em sua ameaça. “Foi tudo meio exagerado, como acontece sempre na imprensa”, declarou o ex-jogador, ao site da revista Voetbal International.
Tal temor revela: se estava fraco para bancar uma mudança em 2008, Cruyff conseguiu virar a mesa, definitivamente. E, com o título holandês, não convirá muito desafiar o “Pitágoras de Chuteiras”.



