Holanda

Juntando os cacos

O tempo passou. Bert van Marwijk saiu, Louis van Gaal retornou, as eliminatórias da Copa de 2014 começaram, a campanha é promissora… Mas será difícil pensar no 2012 que a seleção holandesa teve sem lembrar da campanha vexatória na Eurocopa. As marcas ainda doem, e nem poderia ser diferente. A Oranje chegou com a marca de vice-campeã mundial, tinha praticamente a mesma base que atuara na África do Sul, Van Persie e Huntelaar foram dois dos melhores atacantes da Europa na temporada 2011/12… E tudo terminou com três derrotas. O pior desempenho que a Holanda teve numa fase de classificação, nos torneios de que já participou.

Apesar de seis meses já terem se passado, as feridas ainda estão cicatrizando. E são abertas de vez em quando. E uma ocasião dessas ocorreu na semana passada. Em entrevista à edição especial de Natal da revista Voetbal International, Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da federação do país, abriu o jogo em relação a um dos problemas da equipe durante o torneio continental: “Os jogadores pareciam fora de forma. Uma pesquisa revelou esse cenário”.

A pesquisa (feita por Frank Backx, professor de medicina esportiva da Universidade de Utrecht) também apontou erros na logística da KNVB para a Euro: os jogadores reclamavam de dificuldades no sono, pela viagem relativamente longa entre Carcóvia, na Ucrânia, onde a Holanda disputou seus três jogos, e Cracóvia, na Polônia, onde a delegação se instalou durante a competição. Van Oostveen reconheceu tal erro: “Pode-se perguntar se fizemos bem ao escolher a concentração com base no clima. É uma lição que levaremos para 2014”.

Se a autoanálise tivesse ficado nisso, tudo bem. Afinal de contas, Van Oostveen falou isso, Bert van Marwijk teve uma leve reação, dizendo que o elenco de 23 jogadores estava tão em forma quanto na Copa de 2010, não houve nenhum problema, e ficou o dito pelo não dito. No entanto, o diretor da KNVB ainda comentou a escalação de Van Persie em lugar de Huntelaar, uma das opções mais discutidas durante a Euro: “Falei com o técnico algumas vezes, durante o torneio, e dei minha opinião a ele. Sabe-se que os resultados não estavam bons, mas, num momento daqueles, ninguém quer colocar outra pessoa sob uma pressão desnecessária”.

E o próprio tratou de comentar sobre as suas atuações criticadíssimas em campos ucranianos/poloneses: “Joguei três partidas e marquei um gol. É bem pouco, o que posso dizer mais? Se eu fizesse isso pelo meu clube, também estaria desapontado”. Além disso, o fato de não ter falado com a imprensa durante a Euro também recebeu uma explicação, até óbvia: “Eu tinha uma razão. Acima de tudo, tinha a ver com minha situação no clube. Algumas pessoas entenderam isso, outras, não. É assim, não posso agradar a todos”.

Mas, como já se disse, o tempo passou. Van Persie deixou a pressão cada vez maior que sofria no Arsenal – decisão polêmica, mas que só pode ser explicada por ele –  para continuar sendo destaque no Manchester United. E o próprio Huntelaar, reserva na Euro, assumiu que tornou o ambiente infernal (“Naturalmente, eu estava bem irritado. Pelas derrotas contra a Dinamarca e a Alemanha, o ambiente não estava bom, e ninguém estava sorrindo”, comentou o atacante ao diário “De Telegraaf”).

Cabia a Van Gaal ajudar a curar as feridas da Euro, que ainda latejavam bastante quando ele assumiu o posto, como o próprio comentou a uma rádio. “Não foi um começo fácil, eu lidava com um grupo dividido. Havia relatos de distúrbios no grupo, segundo a imprensa, e isso passava para eles. O mais importante era eliminar isso, no começo”.

De certa forma, isso foi feito. O meio-campo cansado da Euro foi renovado – e tinha de ser, mesmo -, e os resultados foram satisfatórios, com Clasie e Strootman sendo os destaques no início das eliminatórias. Narsingh tomou conta da ponta-esquerda, enquanto Lens aproveitou os contínuos problemas físicos de Robben para ir se garantindo na ponta-direita. Na defesa, houve a grata revelação de Bruno Martins Indi, que subiu bastante de produção e termina o ano como destaque na Oranje.

Resolver os eventuais problemas que a equipe ainda tem (por exemplo, o goleiro titular, e a má forma de alguns protagonistas, como Sneijder), e concretizar seu desejo de aliar o tradicional estilo técnico à competitividade vista sob Van Marwijk, são as tarefas que ficam com Van Gaal para 2013. Ele já está juntando os cacos do que foi quebrado com as atuações péssimas na Euro. Falta colocá-los no lixo, e formar um belo vaso com o que se tem agora. Há perspectivas para que isso ocorra. É esperar.

Desejo

A coluna espera que os leitores tenham alegrias inversamente proporcional à decepção protagonizada pela seleção holandesa na Euro 2012. E que elas venham em número tão grande quanto os gols de Wilfried Bony e Alfred Finnbogason na Eredivisie atual. Vamos para 2013, que o tempo não para.

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