Holanda

Jongbloed não era o melhor goleiro, mas era o certo na revolução holandesa

Falecido na última semana, Jongbloed foi o goleiro titular da Holanda nas finais das Copas de 1974 e 1978

Disputar uma final de Copa do Mundo é privilégio para poucos. E mais seletos ainda são os goleiros que puderam jogar uma decisão de Mundial. Apenas 38 arqueiros tiveram a honra de estar na maior final do esporte. Somente seis destes conseguiram figurar na decisão duas vezes. A presença neste olimpo rende um reconhecimento maior a lendas como Gylmar e Taffarel, enquanto concede também a inoxidável lembrança a quem não teve uma carreira tão condecorada. Até por isso, a façanha de Jan Jongbloed consegue ter contornos maiores. Dos 24 jogos em que o goleiro defendeu a meta da Holanda, 12 foram em Copas do Mundo. E foram duas finais, em 1974 e 1978. O arqueiro não tinha um talento tão aclamado quanto outros colegas de posição, mas era o escolhido em meio à revolução da Laranja Mecânica. Não levou a taça, mas ficou com a eternidade.

Na Holanda, discute-se até mesmo se Jongbloed figura na primeira prateleira de melhores goleiros do país. Não teve o reconhecimento internacional de um Edwin van der Sar, não teve o papel decisivo em grandes títulos como Hans van Breukelen, não foi uma referência inicial como Eddy Pieters Graafland. No entanto, o camisa 8 (sim, camisa 8) certamente integra a lista de maiores da posição. Foi o homem que ganhou a confiança de Rinus Michels e Johan Cruyff num período crucial em 1974, muito por sua qualidade em também jogar com os pés, quando nem de longe essa era uma das prioridades para um arqueiro. Os recuos ainda eram permitidos, mas sair jogando acelerava a equipe e garantia uma melhor leitura de jogo na dinâmica tática do Futebol Total. Era o que o já veterano oferecia como seu trunfo.

Jongbloed teve uma carreira longeva, embora não tão badalada, e ao mesmo tempo conseguiu dois ápices altíssimos. Podia não ser impecável, mas teve competência suficiente para disputar duas Copas do Mundo e segurar o rojão em duas finais. Como não era muito alto, com apenas 1,79 m, tentava compensar a partir de suas antecipações e saídas do gol. Aventurava-se fora da área, inclusive. Destacava-se também por um estilo mais arrojado, de defesas pouco ortodoxas. Mas não era tão sólido, o que o coloca num degrau abaixo de outros holandeses da posição sob as traves.

“Joguei como um ponta esquerda no começo da minha carreira e só me tornei goleiro aos 16 anos. É por isso que minhas qualidades técnicas eram muito boas e isso tinha grande importância para nosso time. Michels tinha total confiança em mim. Van Beveren era bem mais alto e naturalmente eu gostaria de ser da altura dele, mas não era. Eu tentava compensar com outras qualidades. Se você tem braços longos, maneja bem a bola e tem habilidades nos saltos, então você pode ser um bom goleiro. Mas você precisa pular na hora certa, esticar seus braços, e então você terá vantagem sobre qualquer atacante. Tamanho não importa de verdade, na minha opinião”, analisou Jongbloed, em entrevista à revista The Blizzard.

Na última quinta-feira, aos 82 anos, Jongbloed faleceu. O ex-goleiro recebeu homenagens na rodada do final de semana na Eredivisie, num justo reconhecimento a quem contribuiu para a consolidação da aura holandesa no esporte. Não era um dos gênios da Laranja Mecânica, longe disso, e viu as circunstâncias conspirarem a seu favor. Ainda assim, será o seu nome que sempre abrirá as escalações da Holanda em duas finais de Copa. O privilégio é todo seu, também por méritos. Seu sobrenome sempre estará em páginas importantes do futebol, como raríssimos arqueiros conseguiram. Nenhum outro com a camisa 8.

Campeão nacional num clube modesto

(Foto: federação holandesa)

Jongbloed nasceu em 25 de novembro de 1940. Os primeiros anos de vida do garoto se deram numa Amsterdã que se via assolada pela Segunda Guerra Mundial e, um pouco mais velho, ele cresceu numa cidade em reconstrução. Filho de um alfaiate, o menino era incentivado a bater sua bola até por uma questão de cuidado com a saúde. Porém, o que era uma diversão de início garantiu boas oportunidades a partir da adolescência. Jongbloed começou nas equipes juvenis do AFC DWS, em Amsterdã. Chegou a passar um tempo na linha, como ponta esquerda, antes de firmar-se no gol, o que garantiu uma condição privilegiada para seu jogo com os pés. A partir do final da década de 1950, ganhou as primeiras chances no Campeonato Holandês.

A ascensão de Jongbloed coincidiu com os anos dourados do DWS na Eredivisie. A equipe disputou 13 edições da primeira divisão entre 1959 e 1972, e sempre contou com o arqueiro entre suas principais referências. O destaque do camisa 1 rendeu convocações à seleção da Holanda a partir de 1960 e sua estreia em setembro de 1962, quando tinha somente 21 anos. Curiosamente, naquele momento, o DWS vivia um breve hiato na segunda divisão do Campeonato Holandês. O acesso veio de imediato em 1962/63. E, mais curioso ainda, a guinada da equipe rendeu o título da Eredivisie em 1963/64 – o único da agremiação. Jongbloed seria o goleiro menos vazado naquela edição da liga.

Jongbloed teve a oportunidade de disputar a Copa dos Campeões com o DWS em 1964/65. A equipe eliminou o Fenerbahçe e o Lyn, superada apenas nas quartas de final pelo Gyor, campeão húngaro treinado pelo lendário Nándor Hidegkuti. Os holandeses tinham seus talentos além do goleiro: Daan Schrijvers chegou a ser capitão da seleção e Frans Geurtsen por duas vezes faturou a artilharia da Eredivisie. Outro nome célebre era Rinus Israël, que depois conquistou a própria Champions com o Feyenoord e também integrou a Laranja Mecânica na Copa de 1974. E isso porque nem tinha despontado ainda no clube um garoto chamado Rob Rensenbrink, o mais talentoso dentre aqueles do DWS que depois fizeram história numa Copa do Mundo.

O auge de Jongbloed por clubes não coincidiu com seu destaque na seleção. O dono da posição na sequência da década de 1960 era Eddy Pieters Graafland, lenda do Feyenoord. Quando o veterano se despediu, a camisa 1 ficou com Jan van Beveren, grande nome do PSV. Jongbloed permanecia limitado ao DWS e a uma carreira que sequer o transformara totalmente em profissional. O arqueiro costumava conciliar os treinos e os jogos com o trabalho numa tabacaria da qual era proprietário. Disputava a primeira divisão holandesa, mas não que fosse um nome tão reconhecido fora do país.

O auge nas duas Copas

(Foto: federação holandesa)

A partir de 1972, Jongbloed passou a proteger a meta do FC Amsterdam, equipe originada a partir da fusão do antigo DWS. Frequentava o meio da tabela na Eredivisie, sem grandes ambições aparentes. A temporada de 1973/74 garantiu certo destaque ao camisa 1, com a quinta colocação de seu time na liga e bons números defensivos. Foi o exato momento em que ele voltou a ser lembrado para a seleção. Van Beveren se lesionou às vésperas do Mundial, e também não tinha boa relação com os companheiros. Rinus Michels precisava de um arqueiro que, além de segurar as pontas na meta, também pudesse auxiliar o fluido jogo com os pés da Laranja Mecânica. Foi quando a alternativa de Jongbloed veio à tona. Recebeu a aprovação também de Cruyff.

“Em nosso estilo de jogo para a Copa do Mundo, não havia espaço para um goleiro que não saía da área. É por isso que Jan Jongbloed foi escolhido em relação a Jan van Beveren. até então nosso goleiro titular. O grande ponto era que, em sua juventude, Jongbloed tinha sido um atacante. Como goleiro, ele não apenas gostava de se antecipar, ele também era bom nisso e muitas vezes evitava o gol porque era capaz de pensar como um atacante”, recontaria Johan Cruyff, em sua autobiografia.

Jongbloed esteve no banco de um amistoso contra a Áustria, em março de 1974. Reapareceu no time da Holanda depois de quase 12 anos em maio, numa vitória preparatoria contra a Argentina. E se firmou como dono da meta da Holanda a partir da abertura da Copa do Mundo. Piet Schrijvers e Eddy Treijtel eram seus reservas no Mundial da Alemanha Ocidental. Dois arqueiros até mais seguros sob as traves, mas não tão dinâmicos quanto Jongbloed. O titular recebeu a camisa 8, fruto da organização dos números por ordem alfabética.

Pela maneira como a Holanda dominou aquela Copa do Mundo, Jongbloed nem seria tão testado. O goleiro realizou apenas 12 defesas em todo o Mundial. Tomou apenas um gol na primeira fase, na goleada por 4 a 1 sobre a Bulgária, o que pouco contou. Depois passaria incólume pelo quadrangular semifinal que reunia Argentina, Alemanha Oriental e Brasil. Sua pior atuação aconteceu exatamente quando não podia titubear, na decisão contra a Alemanha Ocidental. Fez uma grande defesa num chute de Berti Vogts e também rebateu uma falta de Franz Beckenbauer, mas não teve como pegar o pênalti cobrado por Paul Breitner e se viu vendido diante de Gerd Müller quando o artilheiro decretou a virada por 2 a 1. O camisa 8 ficou mais lembrado por seu número e pela anedota de que preferiu não jogar de luvas a decisão, “só para sentir melhor a bola”.

A atuação de Jongbloed costuma ser criticada na Holanda. Acusam o goleiro de não ter saltado no penal de Breitner e de também ter ficado estático contra Gerd Müller, numa batida em seu contrapé. Porém, a percepção na época era de que sua atuação foi positiva. No Brasil, Jornal dos Sports e Jornal do Brasil elogiaram o desempenho do camisa 8 na finalíssima do Estádio Olímpico de Munique. “Perfeito nas saídas do gol, seguro e sempre bem colocado, foi um dos melhores jogadores de seu time”, escreveu o JB.

Nesta época, Jongbloed poderia ter aproveitado a fama para jogar num clube maior. Ele teria recebido uma proposta para defender a meta do Ajax, tricampeão europeu pouco antes. O clube procurava uma nova opção para o lugar de Heinz Stuy – titular nos três títulos da Copa dos Campeões, mas que também acabava mais conhecido por seu estilo arrojado e sequer frequentava as convocações. Reza a lenda que, diante da oferta dos Ajacieden, Jongbloed preferiu recusar a enorme oportunidade. Não queria sacrificar seu tempo livre e a rotina nas pescarias para treinar de forma mais frequente num elenco totalmente profissional. A pesca era um grande hobby do camisa 8, a ponto de ele admitir que preferia mais o anzol do que a bola de futebol. Não era um ávido apaixonado pelo esporte além das quatro linhas e sequer costumava assistir a outras partidas.

Depois da Copa de 1974, Jongbloed permaneceu como titular na meta da Holanda até 1975. Voltou a esquentar banco a partir de então, preterido por Piet Schrijvers, exatamente o contratado pelo Ajax. Jongbloed seria apenas reserva na Euro 1976. Também mudou de clube em 1977/78, depois de quase duas décadas no DWS / FC Amsterdam. O veterano de 36 anos passou a proteger a meta do Roda JC, outro clube que zanzava no miolo da tabela da Eredivisie. Mesmo assim, sua experiência era levada em alta conta. Não perdeu espaço nas convocações e lá estaria ele em mais uma Copa do Mundo, a segunda de sua carreira. Recebia o respaldo de Ernst Happel, que assumira o comando da Oranje.

Jongbloed retomou a titularidade em outubro de 1977 e participou da reta afinal das Eliminatórias. Também era o dono da posição na primeira fase da Copa do Mundo, mas não seria tão bem protegido quanto na edição anterior do torneio. Prova disso é que o camisa 8 perdeu a posição depois da terceira partida. Nem teve tanta culpa assim nos gols, mas a derrota por 3 a 2 para a Escócia pesou sobre suas costas, ainda mais depois do célebre tento de Archie Gemmill para fechar o placar. Piet Schrijvers retomou a posição de titular da Holanda no início do quadrangular semifinal do Mundial.

Todavia, Schrijvers disputou apenas duas partidas completas. O camisa 1 se lesionou na terceira rodada do quadrangular semifinal, contra a Itália, justo no momento em que a Azzurra abriu o placar. Jongbloed entrou no meio do primeiro tempo e correspondeu, com dois milagres diante de Paolo Rossi, que evitaram um placar mais confortável para os italianos. Já na segunda etapa, os adversários não representaram o mesmo perigo e duas sapatadas de longe da Holanda venceram Dino Zoff, permitindo a virada por 2 a 1. Jongbloed teria a chance de disputar mais uma final.

A decisão contra a Argentina teve um desfecho amargo para a Holanda, com a vitória albiceleste por 3 a 1 na prorrogação. No entanto, mesmo com os três gols, Jongbloed trabalhou como nunca em Copas do Mundo. O arqueiro realizou sete defesas ao longo da noite, com intervenções seguras e saídas providenciais no mano a mano. É verdade que nem sempre o camisa 8 transmitiu total segurança, vide o lance do terceiro gol, em que ele parece perdido e totalmente fora de posição. De qualquer maneira, conseguiu adiar um pouco mais o que seria a segunda derrota consecutiva dos holandeses em finais. Aquele seria o último de seus 24 jogos pela seleção, numa carreira muito bem vivida com a Oranje. Desfrutou de dois momentos enormes.

A dolorosa perda e o recorde

(Foto: federação holandesa)

Jongbloed permaneceu como titular do Roda JC por quatro temporadas, até 1980/81. Aos 40 anos, o veterano ainda não quis pendurar as luvas e assinou com o Go Ahead Eagles. Teria mais uns anos na Eredivisie. O final de carreira, contudo, seria bastante doloroso ao arqueiro. Primeiro pela morte do filho, Eric-Jan, em setembro de 1984. O jovem também atuava como goleiro e figurava na meta do DWS, ainda em atividade independente nos níveis amadores do futebol local. Durante uma partida na qual Jan estava presente nas arquibancadas, um raio atingiu Eric-Jan em campo e o garoto sublimou na hora, sem sequer restar um corpo para ser enterrado.

Apesar do luto, Jongbloed seguiu em frente sua carreira. Até que se visse forçado a se aposentar em setembro de 1985: durante uma partida contra o Haarlem pela Eredivisie, o goleiro sofreu um ataque cardíaco. Reanimado, o veterano de 44 anos sobreviveu. Entretanto, aquela seria a última aparição de uma trajetória que superou os 25 anos na Eredivisie. Não à toa, Jongbloed permanece ainda hoje como recordista em jogos profissionais no futebol holandês – foram 717 partidas no total, nada mal para quem evitou compromissos mais sérios para continuar sua vida como pescador. Também segue como o mais velho a atuar na Eredivisie.

Jongbloed continuou envolvido com o futebol depois de pendurar as luvas. O ex-goleiro logo passou a integrar a comissão técnica do Go Ahead Eagles. Já a partir de 1988, o veterano se tornou assistente do Vitesse. Seriam mais de 20 anos nos aurinegros, num momento em que o clube se consolidava na primeira divisão e passava a chamar atenção pelo bom trabalho. Jongbloed teve inclusive algumas passagens como técnico interino, antes de se dedicar somente às categorias de base. Quando se despediu do Vitesse, em 2010, ainda trabalhou em clubes amadores e se voltou à carreira de comentarista numa rádio local. Ficaram as marcas de uma vida completamente dedicada ao futebol. E que, graças à bola, será lembrada muito além da morte. Os VT's das finais de 1974 e 1978 garantem ainda mais longevidade ao goleiro de camisa 8.

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Como leitura complementar, fica a recomendação do texto escrito por Felipe dos Santos Souza, eterno trivelista e dono do blog Espreme a Laranja. O artigo de 2020, que serviu como uma das bases para este texto e traz muitas outras informações complementares, foi publicado na ocasião dos 80 anos de nascimento de Jongbloed.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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