Holanda na Copa: a análise final
A campanha da Holanda na Copa do Mundo já ficou para trás, há quase uma semana. Os jogadores já desembarcaram, no domingo passado, em Roterdã, com recepção calorosa, embora calma, da torcida. Louis van Gaal tirou dois rápidos dias de descanso antes de ir para o Manchester United. O ranking da Fifa foi mais uma das provas da ótima campanha da Oranje na Copa, com a ascensão ao terceiro lugar.
Portanto, sem mais delongas, é hora da coluna fazer uma análise especial, em duas partes. Neste sábado, uma abordagem sobre cada um dos 23 jogadores convocados para a Copa. Afinal, todos eles jogaram pelo menos um minuto, algo raro numa Copa do Mundo.
No domingo, virão as impressões de três jornalistas brasileiros que acompanharam a Oranje de perto na Copa: Lédio Carmona e Maurício Noriega, ambos comentaristas do SporTV, que acompanharam fielmente a Holanda: Lédio esteve nas partidas contra Espanha e Chile, e Noriega trabalhou em todos os jogos da Holanda no mata-mata (desde as oitavas de final, contra o México, até a decisão do terceiro lugar); e ainda André Kfouri, repórter dos canais ESPN, que seguiu a Laranja a partir do jogo contra o Chile – sem contar a partida contra a Espanha, quando ainda era “setorista” da Fúria – e foi até o final com ela.
Sem mais delongas, as opiniões da coluna.
Goleiros
Cillessen (7 jogos, 4 gols sofridos)
Sai na mesma. O fato de não ter defendido nenhuma cobrança da Argentina, nas semifinais, pode até depor contra ele, mas é ínfimo. Quando exigido nas partidas, o camisa 1 foi discreto e seguro. Não fez milagres como Ochoa e Navas, nem ostentou ares de “insuperável” como Neuer, mas mostrou o suficiente para continuar bem vivo na disputa pela titularidade.
Krul (1 jogo, nenhum gol sofrido)
Sai em alta. Assim como Cillessen não pegar pênaltis contra a Argentina não significa que ele é um fracasso, não é por sua entrada decisiva nas quartas de final, contra a Costa Rica, pegando duas cobranças, que Krul é um prodígio na meta. Mas é inegável que sua participação rápida e inesquecível na Copa aumentou muito a curiosidade sobre ele. Se não sofrer mais com contusões e jogar a maior parte da temporada pelo Newcastle, tem tudo para aumentar suas chances de conseguir ser o titular no gol.
Vorm (1 jogo, nenhum gol sofrido)
Sai na mesma. Impossível opinar qualquer coisa sobre um jogador que esteve apenas por um minuto em campo, na Copa. O que se pode dizer é que só a sequência no Swansea poderá revelar se o goleiro é opção viável para Guus Hiddink e Danny Blind na Oranje. Talento para isso, Vorm tem.
Defensores
Janmaat (5 jogos, nenhum gol)
Sai em alta. Eis um caso que começou mal e terminou bem. O lateral direito começou ligeiramente inseguro em seu setor, principalmente contra a Austrália. Uma lesão muscular “terminou” o serviço, e ele perdeu espaço na equipe. Só que se recuperou. De mais a mais, sua entrada na esquerda, contra a Argentina, melhorou a marcação num setor que estava frágil durante a partida em São Paulo. Terminou titular a Copa, e participou do gol de Wijnaldum na decisão do 3º lugar. Sua transferência para o Newcastle só deverá fazer bem a sua carreira, tornando-o um nome definitivamente confiável para os próximos anos.
Vlaar (7 jogos, nenhum gol)
Sai em alta. Zagueiro lento e teoricamente sem muitos requisitos técnicos, Vlaar tinha tudo para ser um ponto de grande fragilidade na defesa holandesa. Sabedor disso, Louis van Gaal deixou o camisa 2 como líbero, em sua zaga com três defensores. O resultado pagou plenamente a aposta: “Ron Beton” (em holandês, “Ron de concreto”) mostrou um tempo de bola afinado e uma segurança insuspeita, até acalmando os colegas mais jovens. Vlaar fez seu nome crescer muito, e só a idade – 29 anos – o impede de pensar mais alto em termos de seleção.
De Vrij (7 jogos, 1 gol)
Sai em alta. Se Vlaar surpreendeu e foi o líbero a sempre estar atento para evitar que as coisas estourassem em cima de Cillessen, De Vrij confirmou suas expectativas. Foi um zagueiro bastante sério e firme, demonstrando maturidade. A transferência já falada antes da Copa é ainda mais provável. E o camisa 3 ainda tem três clubes à sua procura: Lazio, Borussia Dortmund e Manchester United. Presença bem possível para a Oranje nos próximos anos.
Martins Indi (6 jogos, nenhum gol)
Sai na mesma. O zagueiro foi mais discreto do que De Vrij, é verdade. Não apareceu tanto quanto poderia, até pela concussão cerebral sofrida num lance assustador contra a Austrália. No entanto, não perdeu sua firmeza nem demonstrou qualquer temor após a lesão. Inclusive, teve papel importante ao entrar contra o México, liberando Blind para a zaga, na esquerda. Falhou um pouco na semifinal contra a Argentina, mas nada que o desabonasse. Atuou sem brilho, mas cumpriu seu papel. Com a ida para o Porto, sua frequência e a experiência em competições europeias deverá aumentar. O que pode consolidá-lo na Oranje.
Blind (7 jogos, 1 gol)
Sai em alta. Lateral esquerdo ou volante? Vai dar certo? Eram duas dúvidas que perturbavam bastante torcedores e jornalistas holandeses sobre o camisa 5. A Copa respondeu claramente as duas questões: deu certo, muito certo. Blind é tudo isso, e ainda consegue ser zagueiro. De quebra, realizou todos esses papéis com bastante eficiência e segurança, ousando até ir ao ataque. Na maioria das vezes, com ótimo resultado. Como nos lançamentos contra a Espanha, que resultaram em gols de Van Persie e Robben. Ou no seu próprio gol, feito contra o Brasil. O papel tático de Blind se revelou importantíssimo para a Oranje na Copa. O Ajax pode até segurá-lo, mas isso será muito difícil. Fácil mesmo é só cravá-lo como opção preferencial para a lateral esquerda da seleção. Ou para o meio-campo, na volância, na zaga… a opção é do técnico.
Verhaegh (1 jogo, nenhum gol)
Sai em baixa. Aparentemente, nem há motivos para o camisa 12 sair em baixa da Copa do Mundo. Porém, no jogo contra o México, único em que Verhaegh atuou na Copa, ele sofreu com os avanços de Layún. E foi um dos que mais sofreu com o calor de Fortaleza nas oitavas. De quebra, com a saída do lateral direito, Depay entrou e acelerou o ataque, medida decisiva para a difícil vitória. A idade avançada de Verhaegh torna sua continuidade na seleção holandesa bastante duvidosa. Até chato, pois ele não foi irremediavelmente mal. Mas podia ter mostrado mais vontade.
Veltman (2 jogos, nenhum gol)
Sai na mesma. O zagueiro do Ajax só atuou em 14 minutos na Copa, contra Espanha e Brasil. E quando os jogos já estavam definidos: a Holanda já vencia os espanhóis por 5 a 1, assim como o 3 a 0 final sobre a Seleção Brasileira estava feito. Quem sabe tornar-se mais maduro no Ajax siga mantendo o camisa 13 como opção válida para os próximos anos. É possível.
Kongolo (1 jogo, nenhum gol)
Sai na mesma. Curiosamente, Van Gaal teve com o jovem lateral esquerdo o temor que não mostrou com outros novatos, como Depay. O técnico pensou em escalá-lo contra o Chile, mas decidiu deixá-lo na reserva ao pensar que uma falha decisiva poderia queimar Kongolo em definitivo, até para os próximos anos. E o camisa 14 só atuou por um minuto contra os chilenos. Depende dele crescer e fazer com que Hiddink e Danny Blind confiem nele.
Meio-campistas
Nigel de Jong (5 jogos, nenhum gol)
Sai em alta. De Jong mostrou nesta Copa que não era apenas um volante botinudo e maldoso. Sim, tem pegada, seu forte é a marcação. Mas é possível dizer que sem ele as coisas poderiam ter estourado com frequência maior na defesa. De Jong foi o grande responsável por limpar as coisas no meio-campo e fazer os desarmes. E seu esforço notável no trabalho de recuperação, que transformou uma lesão que o tiraria da Copa em algo menor o suficiente para possibilitar sua entrada nas semifinais, só mostra que o volante trouxe apenas o seu melhor lado para a Copa do Mundo, com muita garra. Ah, sim: nem um cartão amarelo De Jong levou no torneio.
De Guzman (3 jogos, nenhum gol)
Sai em baixa. Escalado inicialmente como parceiro de Nigel de Jong no meio-campo, o camisa 8 mostrou-se ligeiramente inseguro, aparecendo pouco no ataque. A entrada definitiva de Wijnaldum em seu lugar, contra o Chile, aumentou o esforço e o toque de bola no setor. Pelo menos, na decisão do terceiro lugar, De Guzman até foi elogiável. Mas não passou no teste de substituir Strootman, e deverá perder espaço na Oranje com a volta do volante da Roma.
Sneijder (6 jogos, 1 gol)
Sai em baixa. Certo, Sneijder foi decisivo contra o México, ao marcar o gol de empate num jogo dificílimo. Também apareceu bastante contra a Costa Rica, com chutes perigosos. No entanto, o camisa 10 falhou em sua tarefa principal: armar as jogadas, ser o jogador cerebral desta seleção holandesa nesta Copa do Mundo. Sneijder mostrou apenas esforço, e lampejos de craque. Pouco, para um jogador com sua técnica. Dos “trintões”, foi quem mais decepcionou. Pode até estar no início do trabalho de Guus Hiddink, mas corre sério risco.
Clasie (2 jogos, nenhum gol)
Sai na mesma. O mesmo que se escreveu aqui sobre Kongolo pode ser escrito sobre o meio-campista. Clasie podia ter sido mais utilizado durante a Copa, já que demonstrou qualidades na armação, principalmente no chamado “passe vertical”. Ainda assim, Van Gaal preferiu confiar na experiência de Sneijder. Compreensível. Mas Clasie tem tudo para, pouco a pouco, ocupar o lugar do jogador do Galatasaray.
Fer (1 jogo, 1 gol)
Sai em alta. Assim como Verhaegh só saiu em baixa da Copa por ter sofrido quando entrou e já ter idade avançada para o próximo ciclo, o volante não teve tantos motivos assim para sair em alta. Todavia, quando Fer entrou contra o Chile, trouxe vitalidade à marcação no meio-campo, e ainda fez o gol que abriu o placar daquele jogo truncado. Uma lesão muscular o tirou da Copa. Mas pelo que mostrou nos 15 parcos minutos em que jogou, é confiável para o próximo ciclo.
Wijnaldum (7 jogos, 1 gol)
Sai em alta. O camisa 20 nem apareceu tanto assim durante os sete jogos. No entanto, trouxe o toque de bola que De Jong nunca teve em sua carreira. E apareceu bem mais do que De Guzman em campo. De quebra, quando escalado como armador, contra o Brasil, fez sua melhor partida na Copa, coroada com um gol. Wijnaldum não foi brilhante, mas volta de cabeça erguida ao PSV, afastando o perigo de ser um “foguete molhado”. Cabe a ele seguir crescendo e manter-se no radar de Guus Hiddink e Danny Blind.
Atacantes
Van Persie (6 jogos, 4 gols)
Sai na mesma. Um torcedor holandês comentou que o primeiro gol contra a Espanha foi a melhor e a pior coisa que podiam ter acontecido a Van Persie na Copa do Mundo. A melhor, porque aumentou a vontade do atacante a ponto de ele ter mostrado oportunismo tanto na goleada em Salvador quanto nos 3 a 2 contra a Austrália, quando empatou jogo que estava difícil. A pior, porque Robin foi caindo gradativamente de produção, a ponto de ter atuações horríveis contra Costa Rica e Argentina. Reagiu contra o Brasil, mas já era tarde. Entre a alta da primeira fase e a baixa dos momentos decisivos, Van Persie fica na mesma: atacante de categoria, mas que segue devendo um pouco na Oranje.
Robben (7 jogos, 3 gols)
Sai em alta. Para muitos, o melhor jogador da Copa. Decisivo, foi o principal ponto do início das jogadas de ataque da Oranje, com aquelas arrancadas pela direita que originaram gols, direta e indiretamente. De quebra, não demonstrou por nem um minuto a fragilidade física que tanto o atormentou em outros momentos de sua carreira. Em suma: não só Robben foi o grande protagonista da Holanda no torneio, como também pode sonhar com a presença na Euro 2016.
Kuyt (5 jogos, nenhum gol)
Sai em alta. Kuyt, originalmente, é atacante. Não fez nenhum gol na Copa. Logo, suas atuações foram decepcionantes, certo? Errado. O camisa 15 foi daqueles jogadores que apareceram pouco, mas foram altamente úteis para a equipe. A versatilidade tática de Kuyt apareceu como, talvez, nunca o fizera em sua carreira: jogou como ponta, atacante, lateral… e isso tudo pelos dois lados. Além disso, seu esforço foi reconhecido pela torcida holandesa, que o aplaudiu pelo esforço na marcação contra o Chile e, principalmente, por ter aguentado os 90 minutos sob forte calor contra o México, e jogando bem. Ele provavelmente fez seu último grande torneio pela Oranje. Se o fez, despediu-se deixando ótima impressão.
Lens (4 jogos, nenhum gol)
Sai em baixa. A mudança forçada de esquema por que a seleção holandesa passou já havia colocado Lens em perigo. Afinal de contas, no 4-3-3 ele fora titular absoluto nas eliminatórias. Já no 5-3-2, não havia muito espaço para o atacante. Pior: nas vezes em que entrou, não impressionou. Ao contrário de Depay, que roubou a cena na Copa do Mundo. E pode roubar as chances de Lens nas próximas convocações.
Huntelaar (3 jogos, 1 gol)
Sai na mesma. Huntelaar, pobre Huntelaar. Nunca foi um grande atacante, mas é o sexto maior goleador da história da Oranje, com 35 gols. Jogou relativamente pouco na Copa, mas apareceu num momento decisivo, ao converter o pênalti da vitória contra o México. E nem assim conseguiu se sobressair sobre Van Persie, que era o titular. Pode ser convocado sob Guus Hiddink, mas já tem 30 anos. E segue sendo um atacante que muitas vezes é destaque. E poucas vezes é notado.
Depay (4 jogos, 2 gols)
Sai em alta. Sejamos honestos: o atacante do PSV só foi convocado para a Copa pelo talento demonstrado no Campeonato Holandês e pela personalidade apresentada nas raras chances que tivera sob Van Gaal. Era uma aposta. Que foi ganha por Van Gaal: o camisa 21 esbanjou coragem, indo sem medo para cima dos adversários e ajudando em momentos difíceis da Holanda na Copa. Como contra a Austrália, quando foi útil e virou o jogo. Ou contra o México, quando acelerou a equipe rumo ao ataque. Sem dúvida, é nome de destaque para os próximos anos.
Técnico
Louis van Gaal (técnico)
Sai em alta. Van Gaal estava em baixa antes da Copa. Tudo que pensava para a Holanda era uma incógnita. Já confirmado no Manchester United, teria entusiasmo? E o 5-3-2, daria certo? Questões que tiveram respostas afirmativas. E falar que ele foi o melhor técnico da Copa, conhecendo perfeitamente seu elenco e as potencialidades dele, também é chover no molhado. Após a saída por baixo do Bayern Munique, foi mais um ressurgimento na carreira daquele que se consolidou como um dos grandes técnicos holandeses de todos os tempos. Para arrancar elogios de Cruyff, seu desafeto, é porque Van Gaal fez trabalho primoroso.