Holanda

Holanda demonstra querer cuidar mais de sua formação. Adianta?

Claro que o torneio olímpico de futebol (no caso, o masculino) tem valor próximo do nulo para boa parte das nações europeias, atualmente. Todavia, não deixa de ser uma vitrine a mais para que alguns jogadores apareçam defendendo as seleções de base, e até fortaleçam a imagem de um país na formação de novas gerações. É o caso atual de Portugal, talvez a equipe mais regular dos Jogos Olímpicos, classificada para as quartas de final – onde enfrentará… a Alemanha, que não mostra grandes atuações, mas pelo menos sabe que tem um grupo sub-23 de jogadores relativamente capazes de se destacarem, seja nos clubes ou na própria versão adulta do Nationalelf (quem sabe?).

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E o que tudo isso tem a ver com o futebol holandês? É que momentos elogiáveis como o de Portugal, da Alemanha e da França (recém-coroada campeã europeia sub-19) indicam que até mesmo essa primazia a Holanda perdeu: a de ser um país considerado revelador constante de grandes talentos. A bem da verdade, o país já tinha sofrido com entressafras anteriores (que explicam, em grande parte, o afastamento das competições internacionais na década de 1980), mas desde que retomou uma certa frequência, na década de 1990, a Laranja sempre conseguia exibir jovens promissores aqui e ali. Não só usando a camisa da seleção, mas também as dos clubes.

Não é o que se vê atualmente. A Holanda caiu na primeira fase dos Europeus, nas categorias sub-17 e sub-19. Não participa de um campeonato continental sub-21 desde 2013 – e tem dificuldades nas eliminatórias para a edição de 2017: é a segunda colocada no grupo 8, três pontos atrás da Eslováquia, que venceu os dois confrontos diretos. Ou seja, se a seleção adulta sofre com a desconfiança deflagrada pela ausência da Euro 2016 (e é incógnita nas eliminatórias para a Copa de 2018), as equipes de base também não trazem um cenário dos mais confiáveis.

E aí, há duas coisas a se falar. A primeira é uma notícia até auspiciosa: sim, a federação holandesa reconhece essa crise. Tanto que a preocupação com o modo de revelar jovens jogadores é um dos pontos principais do relatório que a federação holandesa lançou neste ano. No documento “Winnaars van Morgen” (em holandês, “vencedores do amanhã”), apresentado em maio, após dois anos de conversas e palestras com uma lista que teve de Johan Cruyff a Arsene Wenger, a KNVB mostrou uma meta: trazer o futebol holandês de volta ao grupo dos melhores da Europa até 2026.

Para isso, seria necessário melhorar alguns itens da formação dos jogadores. O relatório reconhece, por exemplo, o tamanho da defasagem tática do futebol holandês em relação a outros centros da Europa. As equipes jogam de forma mais compacta; no futebol europeu de altíssimo nível, marcar em zona é a regra; a velocidade na saída para o ataque é fundamental; a marcação por pressão, com a “linha alta”, é a tendência… enfim, muita coisa que se sabe e que o fracasso nas eliminatórias da Euro mostrou.

Não ficou de fora nem a necessidade de incutir no jogador holandês uma certa “mentalidade de vencedor”, procurar desenvolver nos garotos uma motivação pessoal e um espírito de liderança, mencionado pelo diretor de futebol profissional da federação, Bert van Oostveen: “Só menciono o exemplo do Chile: quando aqueles jogadores entram em campo, eu penso ‘ih, não queria tê-los como rivais’. Eles exalam essa mentalidade de vencedor. E os esportistas holandeses têm menos isso. Antes, tínhamos Jan Wouters, Mark van Bommel e Nigel de Jong, hoje há uma lacuna na seleção”.

Diagnóstico feito, passou-se às ações. E uma delas até ampliou o espaço para a base: a partir da temporada recém-iniciada do Campeonato Holandês, os bancos de reservas terão doze jogadores, ao invés dos cinco anteriores. Tudo para que os clubes deem mais oportunidades nos times de cima a quem for criado nas categorias inferiores. Não parece lá muito prático. De fato, não é.

Esta é a segunda coisa a ser falada. E não é boa: se reconhece que há problemas (e isso é um grande passo), a federação holandesa também não assumiu sua responsabilidade na reestruturação das categorias de base. E nem obrigou os clubes a fazê-lo. Até há o projeto de construção de um centro nacional de treinamentos – na cidade de Zeist, onde fica a sede da KNVB -, para a formação de atletas (pensou-se em Louis van Gaal como diretor técnico desse centro, mas o ex-treinador do Manchester United recusou a proposta). Mas… ainda é algo muito mais teórico do que prático.

Enquanto isso, a Holanda segue em queda. No Europeu sub-19, a equipe treinada por Aron Winter até começara bem contra a Croácia, mas caiu para a Inglaterra, no segundo jogo. E a partida derradeira da fase de grupos, contra a França, mostrou o tamanho do desnível: um 5 a 1 inapelável para os Bleuets, em que atuações como as do atacante Jean-Kévin Augustin deixaram os jovens laranjas atarantados. Um dos raros destaques, o meio-campista Abdelhak Nouri assumiu: “A gente ficou com medo. Os franceses eram bem maiores fisicamente, mas também tinham mais coragem. Abriam 2 a 0, e aí se viu todo mundo fazendo coisas estranhas [na Holanda]: dar chutão, sair do posicionamento…” Ainda restava disputar uma vaga no Mundial sub-20, contra a Alemanha. E mesmo com os rivais continentais bem melhores, a Oranje quase conseguiu. Seria até injusto. Mas, no fim, os alemães ganharam a vaga nos pênaltis.

Se os jovens tivessem já lugar cativo em seus clubes, tudo bem. Não é o que acontece. Basta ver o Ajax: a falta de confiança nos atacantes que surgem em De Toekomst (a escola do clube) é tamanha que há ansiedade pelo empréstimo de… Bertrand Traoré, que deve chegar do Chelsea. No PSV, de revelação, há apenas o atacante Steven Bergwijn; no Feyenoord, nem isso. Não que a Holanda precisasse ser um prodígio papa-títulos em torneios de base, em clubes ou em seleções. Mas bem poderia usá-los para o que se espera: revelar jogadores. A não ser por um ou outro (como Jetro Willems ou Tonny Trindade de Vilhena, campeões sub-17 em 2011), a revelação é esparsa.

De nada adiantarão medidas paliativas se ela não for mais frequente e capacitada, como em outros tempos. Pelo menos, sabe-se quais são os erros. Corrigi-los é a tarefa do presente.

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