Holanda

Hiddink cansou-se do brinquedo. Blind é um voo cego?

Após certo momento de sua segunda passagem pela seleção holandesa, Guus Hiddink mostrava periodicamente cansaço da posição que ocupava. Na primeira crise, após a derrota para a República Tcheca, pelas eliminatórias para a Euro 2016, houve a discussão com a imprensa do país, sobre o abandono do 5-3-2 que tão certo dera na Copa do Mundo.  Depois de novo revés, para a Islândia, veio a ameaça de demissão em caso de mau resultado contra a Letônia, na rodada seguinte da qualificação. A vitória veio (6 a 0), mas Hiddink desconversou sobre sua permanência.

E tal hesitação prosseguiu até esta segunda-feira, quando Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da federação, confirmou a saída de Hiddink, após menos de um ano de trabalho e retrospecto fraquíssimo (10 jogos, 4 vitórias, 1 empate e 5 derrotas: desde 1974 um treinador da Oranje não tinha números tão ruins). Mas não se pode dizer que tal decisão era surpreendente.

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Basta ler um trecho da entrevista de Guus à edição de fevereiro da revista “Helden”. Nela, o nativo de Varsseveld reconheceu: “Não me arrependo [de ter assumido o cargo], mas achava que o time estaria num nível mais alto. Vi falhas que não esperava ver após a Copa do Mundo. E não é porque os jogadores estivessem com a cabeça nas nuvens, seguramente não é esse o caso”. E ainda comentava as diferenças naturais entre treinar um clube e uma seleção: “Quando treinei o Chelsea, tive esse sentimento [de que o time estava em minha mão] em uma semana. Na seleção, isso não veio imediatamente”.

Meses depois, mais precisamente há duas semanas, num trecho de entrevista ao jornal “De Telegraaf”, Guus indicou que o fim de sua passagem estava próximo: “Tenho a ideia de me tornar um conselheiro técnico, um ‘técnico-sênior’. Mas antes de tomar qualquer decisão e comunicá-la, quero comentar essas ideias com as pessoas que importam em minha vida. Quanto tempo pode durar [essa ideia]? Ah, pode ser que ela acabe em uma hora”. E Bert van Oostveen deu o sinal verde para isso, de certa forma: “Na avaliação que fazemos, isso sem dúvida é abordado. Se Hiddink e Blind estiverem prontos para isso, então a KNVB também estará pronta”.

E foi o que aconteceu. O que deveria ocorrer somente após a Euro 2016 (Hiddink tornando-se diretor técnico da federação, com Danny Blind, auxiliar da comissão técnica desde 2012, assumindo o comando da Oranje) provavelmente será antecipado, apenas com Hiddink deixando a federação em definitivo. A razão para isso resume-se a uma pequena frase: Hiddink cansou-se. Ganhou a vaga de técnico “no grito”, oferecendo-se nas colunas que escreve esporadicamente no “De Telegraaf”. Quando viu que o trabalho seria mais difícil do que parecia, enjoou-se. Foi como o caso da criança que deseja muito ganhar um brinquedo, tantas faz, até conseguir o que sonha dos pais. Daí, dias depois, o brinquedo antes cobiçado já está guardado num canto do quarto.

As lamentações foram lacônicas e previsíveis, de parte a parte. Em nota da federação, Guus foi sucinto: “Horrível que as coisas tenham caminhado desta maneira”. Bert van Oostveen explicou um pouco mais: “Eu lamento o rumo [das coisas], os resultados do trabalho de Guus não foram imediatamente vistos por todos, infelizmente. Nós o agradecemos por seu esforço”.

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E agora, com quase um ano de trabalho perdido e uma classificação para a Euro incerta (embora mais possível do que pareceu), a não ser que a federação mude os planos por completo, “Danny” Blind  – ou melhor, Dirk Franciscus Blind – terá o maior desafio de sua carreira como técnico. Carreira diminuta, aliás: apenas exatos 422 dias, entre 14 de março de 2005 e 10 de junho de 2006, treinando o Ajax após a demissão de Ronald Koeman.

Não se pode dizer que o pai de Daley seja “verde” para o cargo: tem vivência no futebol. Só que essa vivência ocorreu mais em cargos diretivos: entre 2008 e 2009, foi diretor técnico do Sparta Rotterdam – clube em que surgiu como jogador, atuando entre 1979 e 1986. E entre 2009 e 2011, ocupou o mesmo cargo no Ajax em que virou ídolo, como titular absoluto da zaga entre 1986 e o fim da carreira, em 1999. Como treinador, antes da rápida experiência no time de cima, Blind treinara equipes de base no Ajax – além, claro, de ser auxiliar da comissão técnica da seleção, desde 2012, trazido por Louis van Gaal.

Como jogador, pode-se dizer que Blind é até supervalorizado, por ter atuado no Ajax campeoníssimo entre 1994 e 1996. Era apenas um zagueiro correto, que se valia mais do bom posicionamento e da técnica do que da agilidade. Teve poucas oportunidades na seleção, até pela concorrência pesada na posição em sua época: foi convocado para as Copas de 1990 e 1994, mas não saiu do banco em nenhuma delas. Também não jogou na Euro 1992, em que também figurou no elenco. Quando teve seu momento de destaque na carreira – como já dito, entre 1994 e 1996, sendo parceiro de Rijkaard na zaga do Ajax, e depois sucedendo-o como líbero -, já era veterano demais (34 para 35 anos) para aproveitá-lo em sua plenitude.

Pior: quando enfim foi titular da seleção holandesa, na Euro 1996, foi um dos pivôs da célebre crise que dividiu alguns jogadores brancos (ele e os irmãos de Boer à frente) e alguns negros (Davids e Seedorf à frente). Quando Davids reclamou que Guus Hiddink, também técnico da Oranje então, deveria deixar de ouvir jogadores brancos quando fosse escalar a equipe, Blind era um dos alvos da crítica. Pagou o pato: depois daquele turbulento torneio, nunca mais voltou à seleção, mesmo que todos tenham feito as pazes depois da delicada questão étnica.

Mas como o importante aqui é sua passagem como treinador, e como ela é mínima, a imprensa e a torcida holandesas já se questionam se Blind está pronto para assumir antecipadamente a bucha de canhão, em meio a uma tentativa de classificação para a Euro que está mais complicada do que se avizinhava. Evidentemente, o provável novo treinador merece o benefício da dúvida. Talvez seja mais sensato taticamente do que Hiddink estava sendo. Mas é inegável: Blind deverá assumir a Oranje num voo cego.

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