Guia do Campeonato Holandês 2016/17 – Parte I
Já está na hora de recomeçar. Bem, na verdade, vai demorar um tempo: faltam exatamente duas semanas para o início do Campeonato Holandês. Mas a precocidade no recomeço da Eredivisie (é uma das ligas europeias que começam mais cedo) já faz a coluna iniciar nesta semana a apresentação da temporada 2016/17. Além do mais, os clubes holandeses já estão na parte final de suas preparações. Até porque alguns deles já têm jogos muito importantes pela frente. Que o digam AZ e Heracles, ambos já olhando para os respectivos duelos na terceira fase preliminar da Liga Europa (o time de Alkmaar pega o PAS Giannina, da Grécia; os Heraclieden enfrentam o Arouca, de Portugal).
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E que o diga principalmente o Ajax, que está altamente angustiado para os jogos contra o PAOK, da Grécia, pela terceira fase preliminar da Champions League. A menos de uma semana do jogo de ida, os Ajacieden ainda sofrem com as incertezas táticas sob o comando de Peter Bosz: o novo técnico deseja um estilo ofensivo, com a defesa jogando em linha alta, mas os jogadores ainda não se desacostumaram ao estilo habitual dos tempos de Frank de Boer. Resultado: uma pré-temporada com resultados temerários, trazendo apenas uma vitória (contra o amador Béziers, da França) e mantendo a fragilidade defensiva. O temor de um novo vexame, como em 2015/16, é real.
Do lado do PSV, se a tranquilidade já fora descrita na semana passada, ela aumentou ainda mais. Afinal de contas, ao pegar adversários de nível um pouco melhor, o bicampeão da Eredivisie seguiu satisfazendo. Contra o Sporting-POR, na segunda passada, os Boeren golearam por 5 a 0. Está certo que tiveram facilidades: afinal, os Leões jogavam com um time reserva, e ainda perderam Alberto Aquilani, expulso. Mas o que dizer então da vitória do time de Eindhoven nesta quinta, contra o Porto, pela FOX Sports Cup, torneio amistoso organizado pela filial holandesa do canal? 3 a 0 inapelável, contra uma equipe próxima do titular nos Dragões – jogaram com a alviazul tripeira Miguel Layún, André André, Silvestre Varela, Yacine Brahimi…
Por isso, pode-se imaginar que as mudanças na Eredivisie 2016/17 serão maiores fora de campo do que dentro. Primeiro, a federação holandesa instituiu a regra de que as equipes terão 12 reservas no banco, ao invés dos cinco anteriores, para “desenvolver os jogadores mais jovens”. Na segunda passada, outra alteração: os times terão de padronizar seus gramados. Todos jogarão em campos com 105m de comprimento e 68 metros de largura – segundo o diretor técnico da KNVB, Jelle Goes, são medidas “mundialmente aceitáveis”.
Enfim, melhor voltar para dentro de campo. O guia da Eredivisie começa pelas seis equipes mais ameaçadas de ficarem nas últimas posições.
Go Ahead Eagles
Técnico: Hans de Koning
Destaque: Leon de Kogel (atacante)
Fique de olho: Teije ten Den (atacante)
Temporada passada: 5º colocado da segunda divisão (promovido na repescagem, ao superar o De Graafschap)
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Sander Fischer (D, Excelsior), Kevin Brands (M, NAC Breda), Joey Suk (M/A, NAC Breda), Sam Hendriks (A, Ajax) e Henrik Ojamaa (A, Wacker Innsbruck-AUT)
Principais saídas: Bart Vriends (D, Sparta Rotterdam), Jeffrey Rijsdijk (M, Almere City) e Nick de Bondt (A, De Treffers)
A volta rápida do clube de Deventer à primeira divisão do futebol holandês foi até surpreendente. Afinal, em fevereiro, o clube pelejava para se manter entre os clubes que iriam aos play-offs de acesso/descenso, e os resultados irregulares forçaram a demissão do técnico Dennis Demmers (que já estivera na campanha da queda na Eredivisie, em 2014/15). Após um tempo sob o comando de interinos, chegou o técnico Hans de Koning. Que aprumou o time suficientemente, a ponto de conseguir colocá-lo na Nacompetitie, disputando uma vaga de acesso.
Seria difícil já no duelo da segunda fase, quando o Kowet encarou o VVV-Venlo. A vaga na decisão do acesso veio a duras penas, com um 2 a 2 fora de casa após vencer na ida, em seu estádio. Aí, ficou ainda mais difícil: o GAE tinha pela frente um esforçado De Graafschap, que conseguira a chance da salvação após parecer condenado na Eredivisie. Pois as “Águias” surpreenderam: fizeram 4 a 1 na ida, praticamente encaminhando a promoção à elite, após apenas um ano. E agora, mesmo perdendo um importante jogador no zagueiro Bart Vriends, conseguiram razoáveis contratações – principalmente com os meias Brands e Suk. Tendo superado o Excelsior num amistoso de pré-temporada, quem sabe o clube de nome simpático consiga ficar mais tempo.
Sparta Rotterdam
Técnico: Alex Pastoor
Destaque: Thomas Verhaar (atacante)
Fique de olho: Ryan Sanusi (meio-campista)
Temporada passada: Campeão da segunda divisão
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Bart Vriends (D, Go Ahead Eagles), Abdul Bai Kamara (D, NEC), Craig Goodwin (M, Adelaide United-AUS), David Mendes da Silva (M, sem clube) e Zakaria El Azzouzi (A, Ajax)
Principais saídas: Christian Supusepa (D, não renovou contrato), Huseyin Dogan (M, não renovou contrato), Giovanni Hiwat (A, Helmond Sport) e Johan Voskamp (A, RKC Waalwijk)
É comum, na segunda divisão holandesa, haver uma equipe que se destaque a partir da metade do campeonato, para partir célere rumo ao título – e consequentemente, ao acesso direto à Eredivisie. Foi o caso do Sparta: desde 2010/11 fora da primeira divisão, enfim a equipe de Roterdã conseguiu um time bem focado e entrosado, que se sobressaiu quando precisava para garantir o título e o retorno, após cinco anos. E as perspectivas para a reestreia na primeira divisão são boas. Afinal de contas, a base da equipe promovida na temporada passada continua a mesma.
Nenhum dos destaques deixou Het Kasteel, o estádio do Sparta. O atacante Thomas Verhaar, um dos goleadores da segunda divisão passada, segue vestindo a camisa dos Kasteelheren (“donos do castelo”) – assim como Loris Brogno, seu colega na frente, e os meio-campistas Ryan Sanusi e Paco van Moorsel, principais armadores das jogadas. As contratações de Bart Vriends (para a zaga) e do experiente David Mendes da Silva (para o meio-campo) só aumentam a boa sensação de que a marcação também se fortaleceu. De quebra, sob o 4-3-3 bem treinado por Alex Pastoor, o Sparta já teve bons resultados na pré-temporada, como o empate com o Groningen. Voltar à Eredivisie para ficar é algo possível, se o nível técnico se mostrar aceitável em campo.
Willem II
Técnico: Erwin van de Looi
Destaque: Erik Falkenburg (meio-campista)
Fique de olho: Bartholomew Ogbeche (atacante)
Temporada passada: 16º
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Thom Haye (M, AZ), Elmo Lieftink (M, Vitesse), Jari Schuurman (A, Feyenoord) e Fran Sol (A, Villarreal-ESP)
Principais saídas: Frank van der Struijk (D, não renovou contrato), Rochdi Achenteh (D/M, não renovou contrato), Robbie Haemhouts (M, NAC Breda), Robert Braber (M, Helmond Sport), Guus Hupperts (M/A, AZ), Lucas Andersen (A, Ajax), Terell Ondaan (A, Excelsior) e Adam Nemec (A, não renovou contrato)
A rigor, o Willem II viveu uma temporada surpreendentemente decepcionante em 2015/16. Em tese, não era time para sofrer com a ameaça de rebaixamento. Mas não mostrou técnica razoável dentro de campo, além de sofrer com as atuações inseguras de alguns jogadores. E enfim, mesmo tendo um grupo de jogadores (um pouco, bem pouco) mais qualificado, teve de superar a repescagem, a duras penas, para se segurar na Eredivisie. Todavia, passou por problemas: perdeu vários jogadores de certa importância, como Lucas Andersen e Terell Ondaan, titulares no ataque. Ainda assim, os Tricolores parecem mais animados do que outros clubes da parte de baixo da tabela.
Quando nada, porque o técnico Erwin van de Looi recebeu opções consideravelmente razoáveis para o nível técnico da Eredivisie – o volante Thom Haye, constante no AZ, é um bom exemplo. Além do mais, o melhor jogador do time, Falkenburg, segue no clube de Tilburg. E livre de lesões, o atacante nigeriano Bartholomew Ogbeche pode se consolidar como o goleador que falta. Para terminar, entre os resultados na pré-temporada, figura um inapelável 8 a 1 no De Graafschap, outro clube holandês que teve de encarar (sem sucesso) a repescagem. Um indício de que o Willem II pode muito bem evitar os sustos do campeonato passado, se o entrosamento não demorar.
Excelsior
Técnico: Mitchell van der Gaag
Destaque: Ryan Koolwijk (meio-campista)
Fique de olho: Kevin Vermeulen (atacante)
Temporada passada: 15º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Jeffry Fortes (D, Dordrecht), Ryan Koolwijk (M, Trencin-ESQ), Anouar Hadouir (M/A, Moghreb Tétouan-MAR), Carlo de Reuver (A, Helmond Sport), Terell Ondaan (A, Willem II)
Principais saídas: Danilho Doekhi (D, Ajax), Daan Bovenberg (D, encerrou carreira), Sander Fischer (D, Go Ahead Eagles), Rick Kruys (M, encerrou carreira), Jeff Stans (M, NAC Breda), Adil Auassar (M, Roda JC), Tom van Weert (A, Groningen), Brandley Kuwas (A, Heracles Almelo) e Daryl van Mieghem (A, Heracles Almelo)
O Excelsior já é ameaçado pelo rebaixamento há pelo menos duas temporadas – e ainda não aprendeu as lições necessárias numa situação assim. Basta dizer que, tanto no Campeonato Holandês passado quanto no retrasado, ficou em 15º lugar, apenas uma posição acima da zona de repescagem/rebaixamento. E seguia com uma defesa insegura, e um ataque excessivamente dependente de alguns jogadores – no caso da temporada passada, dependente de Brandley Kuwas e Tom van Weert.
Pois bem, agora não há mais como depender de ambos, que deixaram o clube. Assim como Stans e Auassar, que ainda tentavam ajudar no ataque, e o experiente Sander Fischer, na defesa. Resta ao técnico novo, Mitchell van der Gaag (substituindo Alfons “Fons” Groenendijk, dispensado ao fim da temporada), formar um time completamente novo. Alguns reforços até ajudam, como o razoável volante Koolwijk e o atacante Ondaan, bem no Willem II. Só que os resultados de pré-temporada fazem prever um ano difícil: já houve derrota até para o Go Ahead Eagles. Um susto foi pouco, dois já foram demais… o terceiro é a queda?
Roda JC
Técnico: Yannis Anastasiou
Destaque: Tom van Hyfte (meio-campista)
Fique de olho: Mikhail Rosheuvel (atacante)
Temporada passada: 14º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento
Principais chegadas: Roel Brouwers (D, Borussia Mönchengladbach-ALE), Christian Kum (D, Utrecht), Abdul Ajagun (M, Panathinaikos-GRE), Nestoras Mytidis (A, AEK Larnaca-CHP), Dani Schahin (A, Mainz-ALE), Adil Auassar (A, Excelsior) e Mikhail Rosheuvel (A, Heracles Almelo)
Principais saídas: Henk Dijkhuizen (D, não renovou contrato), Arjan Swinkels (D, Beerschot-BEL), Jordy Buijs (D, Pandurii-ROM), Georgi Zhukov (M, Standard Liège-BEL), Ugur Inceman (M, Eskisehirspor-TUR), Hicham Faik (M, não renovou contrato), Tomi Juric (A, Luzern-SUI), Mike van Duinen (A, Fortuna Düsseldorf-ALE), Maecky Ngombo (A, Fortuna Düsseldorf-ALE) e Rydell Poepon (A, Boluspor-TUR)
Na temporada passada, o Roda JC só minorou o sufoco que passou quando fez contratações para todos os gostos na pausa de inverno, após péssimas atuações no primeiro turno. Algumas delas deram certo, principalmente no meio-campo (Marcos Gullón, Inceman) e no ataque (Van Duinen, Ngombo), e o clube da cidade de Kerkrade conseguiu manter-se na primeira divisão, mesmo sem brilho algum. E a diretoria reconheceu que o projeto para o campeonato fora desorganizado: tanto que demitiu o técnico Darije Kalezic, após discordâncias quanto ao rumo do futebol do clube. Assim, os Koempels chegam para 2016/17 tentando algo diferente.
Várias das caras que chegaram para o returno e evitaram o rebaixamento na Eredivisie passada (Van Duinen, Ngombo, Juric, Faik, Poepon) já deixaram o clube. E as contratações, se foram em menor número, também parecem mais precisas: Christian Kum, Adil Auassar e Mikhail Rosheuvel têm nível técnico aceitável e chegam para ser titulares – bem como o defensor Roel Brouwers, que volta ao clube em que começou a carreira após nove anos no Borussia Mönchengladbach. Se tiverem sucesso no time aurinegro, e se o técnico Yannis Anastasiou desenvolver bem o trabalho, a temporada será mais sossegada do que as anteriores.
ADO Den Haag
Técnico: Zeljko Petrovic
Destaque: Mike Havenaar (atacante)
Fique de olho: Dennis van der Heijden (atacante)
Temporada passada: 11º colocado
Copas europeias: nenhuma
Objetivo: escapar do rebaixamento/vaga nos play-offs por Liga Europa
Principais chegadas: Ernestas Setkus (G, Sivasspor-TUR), Thomas Meissner (D, MSV Duisburg-ALE) e José San Román (D, Huracán-ARG)
Principais saídas: Martin Hansen (G, Ingolstadt-ALE), Gianni Zuiverloon (D, não renovou contrato), Timothy Derijck (D/M, Zulte Waregem-BEL), Vito Wormgoor (D, não renovou contrato) e Thomas Kristensen (M, não renovou contrato)
Se o ADO Den Haag terminou a temporada passada num confortável 11º lugar – nada de se comemorar, mas tranquilamente distante da zona de repescagem/rebaixamento -, então, por que colocá-lo entre os clubes que têm como missão evitar as últimas posições da tabela? Apenas e tão somente porque o clube auriverde da cidade de Haia talvez enfrente algumas dificuldades de readaptação. Afinal de contas, algumas coisas mudaram. Mais motivado pelas melhores condições de trabalho, o técnico Henk Fraser se foi rumo ao Vitesse; na defesa, as perdas da janela de transferência foram o goleiro Martin Hansen (autor do marcante gol contra o PSV, na Eredivisie passada), o lateral direito Zuiverloon e o zagueiro Wormgoor. Todos titulares. Sem contar o cenário interno, com a desconfiança contínua sobre o chinês Hui Wang, dono do clube.
Agora, o técnico montenegrino Zeljko Petrovic terá de remontar parte do setor, com os reforços que chegaram, como o zagueiro argentino San Román e o goleiro lituano Setkus. Para facilitar seu trabalho, pelo menos, os destaques do Den Haag em 2015/16 seguem no clube. Tanto no meio-campo, com Danny Bakker cuidando da marcação e Mathias Gehrt armando as jogadas, quanto (e principalmente) no ataque, onde segue bem o trio formado por Édouard Duplan, Mike Havenaar e Ruben Schaken – sem contar o promissor Dennis van der Heijden, que acabou de jogar o Europeu sub-19 pela seleção. Caso a defesa acompanhe rápido o entrosamento já existente no meio e na frente, e o mecenas Hui Wang não desapareça novamente da vida do clube, o ADO Den Haag evitará tranquilamente o rebaixamento, de novo. E até poderá aspirar a coisas maiores.



