Holanda

Guarida encontrada

Desde quando herdou o jornal “Adelaide News” de seu pai, que falecera, Keith Rupert Murdoch começou a construir, pouco a pouco, um verdadeiro império das comunicações – impulsionado em 1969, quando assumiu o controle do diário inglês “News of the world”, partindo para a lista de conglomerados de mídia que aglutinou desde então: “The Sun”, “The Times”, a 20th Century Fox, a BSkyB… não impressiona que o empresário australiano tenha virado uma das pessoas mais poderosas e controversas do planeta, à frente da NewsCorp, sua empresa.

Mas, em 2011, o poder de Rupert Murdoch na Inglaterra foi abalroado pela séria acusação de que o “News of the World” havia implantado um sistema de escutas telefônicas clandestinas, de modo a poder captar ligações de celebridades, que lhe dessem notícias bombásticas o suficiente para serem estampadas na capa do tabloide – de gosto duvidoso. Sendo assim, logo o magnata teve de ampliar seus horizontes, afastando-se da Inglaterra que o impulsionara.

E um desses interesses foi concretizado na semana passada. Com o futebol holandês como destaque. Em uma lacônica nota, a Eredivisie CV, entidade que cuida dos direitos dos times do campeonato (simplificando, é para a Holanda o que o Clube dos 13 foi, durante anos, para o Brasil), anunciou que estava vendendo 51% dos direitos do Campeonato Holandês para a FOX de Murdoch. Justificativa clara: o montante de dinheiro oferecido pela FOX beira os 60 milhões de euros, na temporada 2013/14, primeira coberta pelos 12 anos de contrato.

E o montante irá crescendo ano a ano. Ao final dele, em 2025, a Eredivisie CV poderá receber cerca de 100 milhões de euros. 960 milhões de euros, no total. Simplesmente, o maior contrato de televisão que o futebol holandês viu em toda a sua história profissional. Nada mal para um país que não tem lá um dos melhores campeonatos do mundo. E o comunicado da Eredivisie CV trouxe este clima de otimismo: “Ligando o sucesso atual da Eredivisie Live ao conhecimento internacional, experiência e a rede da FOX International Channels no campo dos canais esportivos, as duas partes querem oferecer aos torcedores holandeses uma experiência ainda melhor.”

No que diz respeito à qualidade jornalística do canal, até está certo: o Eredivisie Live, canal pago administrado pela Eredivisie CV, único a mostrar todos os jogos do Holandês, tem uma qualidade de imagens e informações admirável. Basta entrar no site do canal que há o Sidekick, mostrando as estatísticas e eventos da rodada em tempo real. Fora a farta página de vídeos, incluindo até os melhores momentos dos jogos. Tudo em parceria com uma gigante holandesa de telecomunicações: a Endemol, criadora do fenômeno midiático chamado Big Brother.

Porém, o nível de isenção é discutível. Basta dizer que Kees Jansma, assessor de imprensa da federação holandesa, é também apresentador do canal. Pelo que consta, até agora, nada de discutível foi feito. Mas tal acúmulo de papéis traz uma desconfiança que o experiente Kees, dos mais célebres e queridos jornalistas de esporte do país, não precisava ter contra si. Outros apresentadores, como Barbara Barend e Humberto Tan, são bons, mas têm uma proximidade não lá muito saudável dos objetos de cobertura – em seu perfil no Twitter, Barbara chegou a postar uma foto dela com as esposas de Nigel de Jong, Boulahrouz e Van Persie, durante a Euro 2012.

Mas o interesse inicial é o dinheiro. E, aí, fica a dúvida de como se dará a divisão do montante. Ela já é feita de modo elogiável, seguindo um sistema de solidariedade aos clubes menores e de mérito, de acordo com o desempenho esportivo. Ainda assim, talvez ele precise ser aprimorado. Porque, se o Ajax, mesmo ganhando agora € 8 milhões, não chegará nem perto de fazer frente aos adversários maiores na Europa, pelo menos seria importante ver os clubes pequenos recebendo dinheiro suficiente para não serem ameaçados pela falência.

De todo modo, o butim está aí para ser dividido. Graças a Rupert Murdoch, que decidiu estender seus domínios a outras partes da Europa, depois do golpe duro que recebeu, e encontrou guarida no futebol da Holanda. Controverso como sempre. Mas não é o único de seu meio a ser assim.

Ruim demais para ser verdade. E é

Dependendo do grupo em que caísse na Liga dos Campeões, o Ajax podia até sonhar com a classificação para as oitavas de final. Quem sabe ficar com Porto e Dynamo Kiev, no grupo A. Ou no B, com Arsenal e Schalke 04. Mas quis o destino que Ruud Gullit sorteasse a mais temida bolinha: a do grupo D, com Real Madrid e Manchester City. Bastou para que Frank de Boer postasse, brincando, em seu perfil no Twitter, mantido em parceria com o irmão: “Agora só falta o Dortmund para a festa (dos campeões) ficar completa.”

Logo não faltaria mais. Tão logo soube que os aurinegros completavam a chave, Frank voltou à baila, ainda brincalhão: “Quando é a final?” Mais sério, foi definitivo: “Vamos jogar em alguns estádios fantásticos. É ótimo para os fãs, e talvez seja a única coisa positiva nisso. Pretendemos terminar em terceiro. Vamos manter nossa filosofia de jogo e fazer nosso melhor.” Não há mais o que fazer, a princípio.

Sonhar com vaga nas oitavas de final, em um grupo com Real Madrid (motivado e aparentemente pronto para enfim superar o arquirrival Barcelona) e Manchester City (com caixa mais do que generoso, e time bem entrosado), já seria duro. Ter como rival no “prêmio de consolação” o Borussia Dortmund, com Reus e Götze, dois dos mais cobiçados jogadores da Europa, foi a pá de cal na esperança de que as coisas fossem menos difíceis.

A princípio, só resta trabalhar jogo a jogo para os Ajacieden. Tentar evitar a expectativa negativa de que o time seja saco de pancadas – bastante exagerada, já que o Ajax não é o Nordsjaelland. E pensar que o futebol pode dar uma reviravolta capaz de fazer com que o “quando é a final” de Frank de Boer vire uma pergunta séria, não apenas blague. Daquelas de rir para não chorar.

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