Grandes médios, médios grandes

No começo de 2008, a Eredivisie parecia um campeonato definido, mesmo que o segundo turno da temporada estivesse começando. Ainda que com um time cada vez mais prejudicado por transferências (Alex e Arouna Koné) e aposentadorias (Cocu), o PSV não enfrentava a menor dificuldade no Campeonato Holandês. Aproveitando um Ajax que ainda não se dera conta do quão necessária era uma reformulação – basta lembrar que, no começo do ano, ainda figuravam no elenco jogadores longe da melhor fase, como Luque, Kuffour e até Davids -, um AZ ainda de ressaca pela perda de um título quase ganho em 2006/07 e um Feyenoord mergulhado numa crise sem prazo para terminar, o time de Eindhoven nadava de braçada e tinha o tetracampeonato nacional na alça de mira. Tanto que, ainda no primeiro turno, após vencer o Ajax, fora de casa, em 30 de janeiro, o título desta coluna, ainda escrita por Leonardo Bertozzi, indagava: “Não perde mais?”
E não perdeu. Por mais acidentado que tenha sido o caminho (três técnicos usados, sendo que o campeão Sef Vergoossen era interino e terminou a Eredivisie sabendo que daria lugar a Huub Stevens), os Boeren ganharam o tetra e tiveram desempenho digno na Copa da UEFA, onde caíram só nas quartas-de-final, frente à Fiorentina. Todavia, a conquista não escondia sinais perigosos de queda: dos nove empates da equipe na temporada, quatro vieram nas últimas sete rodadas. O perigo de repetição da pane de 2007 foi debelado, mas o clube chegou ao fim apenas três pontos à frente do vice Ajax.
Na semana seguinte ao triunfo, Gomes acabou, por vias tortas, expondo a fragilidade interna em De Herdgang: em entrevistas, o goleiro brasileiro, ídolo no clube, fez críticas duras ao diretor técnico Jan Reker, ainda em meio às comemorações. Claro, o clima dentro do clube ficou constrangedor. Perdendo a queda-de-braço com Reker, Gomes saiu rumo ao Tottenham. Não é exagero imaginar que sua saída, aliada à de Farfán (Schalke 04), além de enterrar o último grande time do PSV – dos semifinalistas da Liga dos Campeões 2004/05, só Simons e Afellay são titulares regularmente -, mostrou que a hegemonia nacional relaxara demais a equipe. Bastaram declarações ácidas de um expoente do time e a aparente superioridade esfarinhou-se imediatamente.
Ao mesmo tempo, o Ajax teve a prova definitiva da necessidade de uma reestruturação com o desempenho vexatório nos playoffs para a outra vaga na Liga dos Campeões, quando, em plena Amsterdam Arena, não foi capaz de superar um Twente ascendente. E o Feyenoord, mesmo campeão da Copa da Holanda, sofria com a descoberta de que nem a contratação de veteranos como Makaay e Van Bronckhorst podia esconder o desalentador cenário causado pelos problemas financeiros. Logo, como esta coluna analisou, a Eredivisie 2008/09 iniciaria-se com uma menor diferença entre o Trio de Ferro e clubes médios e pequenos. Um equilíbrio maior era previsível.
E o primeiro turno da liga holandesa comprovou isso. Em determinados momentos, quatro clubes “médios” ocupavam as primeiras posições da tabela. Muitos tiveram suas rodadas de “clube grande”: Groningen, NAC Breda, Heerenveen… enquanto isso, o PSV sofria com desempenhos irregulares, a reformulação por que passava o Ajax trazia alguns solavancos dentro de campo e o Feyenoord via que o poço parecia não ter fundo, com vários jogadores importantes contundidos e derrotas assustadoras até no De Kuip.
Contudo, o tempo, só ele, acabou colocando as coisas do primeiro turno da Eredivisie 2008/09 em seus lugares. Em que pesem os problemas que Huub Stevens teve com alguns jogadores e a goleada sofrida para o Ajax, o PSV começou a mostrar poder de reação e chega à pausa de inverno ainda sonhando com o inédito pentacampeonato, mesmo de longe. Os Ajacied, por sua vez, aparentam ter entrado nos eixos, conseguiram a classificação à segunda fase da Copa da UEFA e podem, ainda, ganhar o “título de inverno” holandês. Entre os menores, seqüências de maus resultados diminuíram, por enquanto, as cotações de NAC e Groningen. O Heerenveen até poderia estar melhor, não fosse pela inconstância (o mesmo time que aplicou 5 a 2 no Ajax perdeu, na rodada passada, por 4 a 1 para o Sparta Rotterdam) e pelo alto número de empates (cinco). AZ e Twente, que também penaram nas primeiras rodadas, chegam ao fim do turno em alta, com destaque para a liderança dos Alkmaarders.
Enfim, 2009 chega com a promessa de um segundo turno equilibrado na Holanda. Pena que ainda não signifique alto nível no futebol do país.
Seleção: o ano do anticlímax
2008 começou trazendo uma pergunta para rondar as especulações sobre a Oranje: dá? Obviamente, os questionamentos se referiam à possibilidade de uma boa campanha na Eurocopa, bem como à passagem pelo “Grupo da Morte”, com Itália, França e Romênia. E os resultados nos amistosos não ajudavam a solucionar a questão. Marco van Basten não conseguia dar solidez a uma equipe que tanto conseguia vencer, fora de casa, os croatas, com ótimo 3 a 0, como podia chegar ao fim do primeiro tempo da partida contra a Áustria perdendo por 3 a 1, embora conseguisse chegar à vitória por 4 a 3 no fim.
Os últimos amistosos antes da Euro deram mais razões para a alta desconfiança: além do 3 a 0 contra a Ucrânia e do 2 a 0 contra País de Gales terem sido obtido de modo apático e contra times que não ofereceram resistência, o empate em um gol contra os dinamarqueses mostrou que, excetuando-se Van der Sar, nenhum dos quatro defensores era confiável o bastante. Heitinga, Mathijsen, De Cler, Melchiot, Bouma, Ooijer, Boulahrouz: todos davam calafrios, maiores ou menores, na torcida. Meio-campo e ataque não conseguiam dar o dinamismo que o novo 4-2-3-1 adotado no ano passado exigia. Pior: pouco antes da ida para a Suíça, com a convocação já feita, Seedorf, sem garantias de que seria titular, pediu dispensa. Junho chegou e a torcida preparou-se para o torneio com a sensação de que o “dá?” do começo do texto teria um “não” categórico.
E fez-se a mágica. Como por encanto, a estréia contra a Itália mostrou uma Holanda irresistível. Apostas temerárias de Van Basten, como Engelaar (só titular na Euro pelos bons desempenhos contra Ucrânia e País de Gales, além da ótima Eredivisie no Twente) e a volta de Van Bronckhorst à lateral-esquerda, foram largamente premiadas. A lufada de boas performances que bafejara Van der Sar no fim da temporada, pelo Manchester United, continuava forte na Euro. Van der Vaart armava o jogo com maestria, Sneijder era incansável na marcação e no apoio, Kuyt seguia a saída de bola com aplicação, Van Nistelrooy era letal na frente do gol, Robben e Van Persie entravam com tudo no segundo tempo dos jogos, atormentando os marcadores pelas pontas; enfim, tudo parecia lógico, coeso, exuberante.
Não por acaso, após o 3 a 0 contra a Azzurra, o 4 a 1 ainda mais incrível contra a França e o digno 2 a 0 contra os romenos fizeram com que os torcedores que ficaram na Holanda, além da “onda laranja” que assolou Berna, exclamasse aliviada e esperançosa: dá! Porém, a euforia impediu que jornalistas e torcedores olhassem o bom desempenho da Rússia, adversária das quartas-de-final, bem como que as atuações sem firulas não significavam que os defensores haviam virado foras-de-série.
Guus Hiddink olhou tudo isso. E, no 21 de junho, os russos entraram em campo sufocando a Holanda, assim como ela sufocara os adversários. Do resto, se encarregaram o cansaço dos jogadores pelo fim de temporada na Europa Ocidental, a tristeza que tomara conta do grupo (esta, devido à morte de Anissa, filha recém-nascida de Boulahrouz) e, principalmente, as performances de Arshavin, Pavlyuchenko, Zhirkov e Anyukov. O 3 a 1 encerrou o sonho do bi na Euro, transformou o clímax esperado num gosto amargo na boca. E encerrou também a carreira de Van der Sar na Oranje, após 13 anos. A julgar pela eleição de “jogador da Oranje no ano”, sendo realizada até 14 de janeiro no site oficial da seleção, deixou boas memórias: é o primeiro colocado, por enquanto.
E as Eliminatórias para a Copa de 2010, iniciadas já com Bert van Marwijk de técnico (e sem Van Nistelrooy, também aposentado da seleção), além da volta de Van Bommel, mostraram um time sem muita motivação. Nenhum dos destaques da Euro retomou, após o torneio, as boas atuações em terras suíças. E, a despeito do time ocupar o primeiro lugar de sua chave e já ter a classificação bem encaminhada, aquela pergunta voltou, adaptada: em 2010, dá?



