Grandes esperanças

A 18ª rodada do Campeonato Belga marcou o último jogo profissional apitado por Frank de Bleeckere. Na vitória do Mons sobre o Zulte Waregem por 3 a 2, chegou ao fim a carreira daquele que foi o único belga a ter algum tipo de representatividade em torneios internacionais de seleções nos últimos nove anos. De Bleeckere tornou-se um dos árbitros europeus mais requisitados dos tempos atuais, tendo apitado jogos na Copa de 2006 e na Euro 2008. De certa forma, foi um belga que cumpriu seu papel. Como não fez a seleção desde a Copa de 2002, quando o time de Robert Waseige caiu dignamente contra o futuro campeão Brasil.
Porém, neste ano, algo mudou. Os Diabos Vermelhos, apáticos nos tempos de René Vandereycken e Franky Vercauteren, e turbulentos na curta passagem de Dick Advocaat, voltaram a se focar. Mesmo que não tenha conseguido a classificação para a Euro 2012, a equipe comandada por Georges Leekens apresentou algo que lhe faltava há muito tempo: foco. Uma geração que sempre era qualificada como promissora, mas sofria de uma inaceitável falta de ambição, mostrou ter ânimo renovado para trazer a Bélgica de volta a uma competição internacional.
Mesmo que a chance de estar na Euro 2012 tenha terminado numa inapelável vitória da Alemanha, na última rodada do grupo A das eliminatórias (3 a 1, em Dusseldorf), a campanha deixou uma sensação otimista. Para uma equipe colocada atrás da Turquia como principal concorrente aos favoritíssimos germânicos no início da fase de qualificação, as atuações foram crescendo de nível a olhos vistos. Algo notável, principalmente, nos amistosos. E já desde o ano passado, quando o time de Leekens
encontrou a Rússia, treinada por Dick Advocaat, e venceu categoricamente, por 2 a 0.
Nesse ano, os resultados foram ainda mais honrosos. Houve vitórias sobre Estados Unidos (1 a 0, em 6 de setembro) e Romênia (2 a 1, em 11 de novembro). Na última
partida do ano, os Diabos Vermelhos conseguiram empatar sem gols com a França – resultado elogiável, tendo em vista a melhora dos Azuis sob o comando de Laurent
Blanc. E pode-se dizer que o fracasso nas eliminatórias só ocorreu em função de tropeços tardios. Por exemplo, o 4 a 4 contra a Áustria, ainda em 2010, quando o
último gol austríaco foi feito nos acréscimos. Ou o empate fora de casa com o Azerbaijão, em 1 a 1, sofrido aos 41 minutos do segundo tempo. Uma vitória em
qualquer um destes dois jogos deixaria o time na repescagem.
Melhor ainda: a geração de jogadores que Leekens tem à disposição sobe de produção na hora certa. Jogadores importantes, como Witsel e Defour, demonstraram ambição e se transferiram, enfim, para centros mais promissores do futebol europeu. O que já dá resultado: Witsel, por exemplo, pode ser considerado importante no Benfica. As novidades, por sua vez, surgiram muito bem, nas figuras de Vossen, Ogunjimi e, principalmente, Thibaut Courtois (ao jogar contra a França, o goleiro de 19 anos tornou-se o mais jovem de sua posição a estrear pela seleção). Todos bem direcionados pelos mais experientes, como Van Buyten e Timmy Simons.
O sorteio das eliminatórias para a Copa de 2014 trouxe mais uma boa surpresa: rivais acessíveis no grupo. Croácia e Sérvia trarão dificuldades, mas não são inatingíveis como a Alemanha era na qualificação para a Euro 2012. Ou seja, há grandes esperanças de que, daqui a três anos, enfim, os belgas voltem a ser representados numa Copa por 23 jogadores e uma comissão técnica. E não somente por um árbitro.
O melhor trecho sobre (quase) nada
Há muito a dizer sobre o incidente ocorrido em Ajax x AZ, pelas oitavas de final da Copa da Holanda. Que é um absurdo ver um infeliz embriagado invadir o gramado sem nenhum tipo de prevenção, para tentar agredir um jogador. Que o clube de Amsterdã errou ao não detectar o nome do jovem de 19 anos, que já estava proibido de
frequentar jogos na Amsterdam ArenA, mas que usou o “seizoenkaart” (espécie de cartão “sócio-torcedor”, que vale por toda a temporada) de outra pessoa para ter
acesso ao jogo. Que atos assim são inaceitáveis.
Ao mesmo tempo, não há quase nada a dizer sobre o episódio. Por mais que Esteban tenha tomado uma atitude tresloucada, é óbvio que o bom senso mandava poupar o goleiro costarriquenho do cartão vermelho que Bas Nijhuis aplicou: afinal, ninguém tem sangue de barata e precisa aguentar agressões pela retaguarda num campo de futebol, ainda mais vindas de “torcedores” (bote aspas nisso). É óbvio que Gertjan Verbeek agiu no seu direito ao tirar o time de campo. É óbvio que Nijhuis exagerouno apego às regras – atitude prontamente corrigida pela KNVB, ao cancelar a expulsão.
E é óbvio que o mais correto é realizar o jogo em outra data, a partir dos 37 minutos do primeiro tempo (momento da interrupção). Seja com portões fechados, seja
com a presença de mulheres e crianças, como acertadamente houve na Turquia, neste 2011. E melhor parar de falar nesse assunto, que tem soluções bastante claras. Só não serão tomadas por burrice.
Aviso
A quem sentir falta da análise dos clubes em 2011, calma: daqui a duas semanas, a coluna promete uma avaliação da primeira metade da temporada, em Jupiler League e Eredivisie. E bom Natal!



