Grandes da Holanda agora têm equipes B na segundona. E tudo bem
Quando o boato começou, os clubes da segunda divisão holandesa começaram a se preocupar. Até que a federação confirmou o que já corria à boca pequena, no dia 5 de junho: Ajax, PSV e Twente ganhariam o direito a colocarem seus times de “aspirantes” entre os 16 clubes da segunda divisão – aliás, não mais 16, mas 20, já que o Achilles ’29, campeão da “divisão do domingo” da Topklasse (a terceira divisão, contendo clubes profissionais e amadores), exerceu o direito de usar a vaga conquistada para entrar na Eerste Divisie – o campeão da Topklasse pode optar por não subir, caso tema não ter dinheiro para bancar sua participação, como escolheu o VV Katwijk, campeão da “divisão do sábado”.
E aqui, cabe um parêntese: iniciada em 2011, a Topklasse divide-se em dois “campeonatos” com 16 times. O nome desses campeonatos foi baseado na rotina antiga dos times amadores: na “divisão do sábado”, as equipes tinham jogadores de crença teoricamente católica (afinal de contas, domingo é um dia santo para os católicos, que deveriam se ausentar de jogos e coisas semelhantes para ficarem em repouso). Na “divisão do domingo” atuavam os times com atletas predominantemente protestantes, já que eles trabalhavam aos sábados. Evidentemente, essa prática perdeu-se ao longo do tempo na terceira divisão holandesa, bem como o completo amadorismo: vários dos clubes que atuam na Topklasse pagam salários e têm atletas profissionais.
Voltemos ao tema principal. As reclamações pela entrada do Jong Ajax, do Jong PSV e do Jong FC Twente foram grandes. De acordo com os dirigentes dos outros clubes da Jupiler League, eles poderiam monopolizar a disputa do título, diminuindo ainda mais a chance dos clubes “normais” aparecerem. Mas, obviamente, há restrições na participação desses times de aspirantes: não poderão disputar vaga na primeira divisão, nem mesmo entrarem nos play-offs pelo acesso. Além disso, somente poderão ter três jogadores (mais um goleiro) acima de 23 anos. E serão rebaixados para a Topklasse, caso o time principal caia para a segunda divisão.
Evidentemente, a queixa dos dirigentes é justa, por um lado. Afinal de contas, basta notar a escalação de alguns jogadores na equipe do Ajax que enfrentou o Telstar, na última segunda-feira, pela primeira rodada da Eerste Divisie, para notar alguns nomes que já são ligeiramente conhecidos do time principal: o goleiro Jasper Cillessen, o volante Thulani Serero, os atacantes Davy Klaassen e Danny Hoesen. Claro, contra o pequeno Telstar, não foi muito difícil fazer 2 a 0. Ou seja, há alguma injustiça em colocar gente que, às vezes, jamais saiu da segunda divisão holandesa contra jogadores que podem até ter partidas de Liga dos Campeões no currículo.
Porém (ai, porém) há uma série de razões para acreditar que a entrada das “equipes B” não significa um desnivelamento quase irreversível. Primeiramente, porque a Fox Sports Eredivisie – novo nome da Eredivisie Live, canal que transmite os jogos do Campeonato Holandês, agora propriedade da FOX – condicionou o pagamento de um milhão de euros para comprar os direitos da Jupiler League à presença dos grandes, por julgar que o campeonato seria mais atraente assim. Ou seja: mais dinheiro para os clubes pequenos dividirem entre eles.
Além disso, os times de aspirantes não têm o título na alça de mira, exatamente pela impossibilidade do acesso. Então, veem a segunda divisão apenas como uma possibilidade para dar ritmo de jogo a atletas mais jovens, que ainda não emplacaram na equipe de cima. O Ajax faz isso, com gente como o defensor Stefano Denswil ou o atacante Lesley de Sa. O Jong PSV, idem, com o lateral esquerdo Abel Tamata, o zagueiro Jorrit Hendrix e os meio-campistas Marcel Ritzmaier e Peter van Ooijen.
Ou seja, embora algum desequilíbrio haja, a entrada dos times B de clubes grandes holandeses não representa o fim da segunda divisão holandesa. Até porque dentro de campo, por exemplo, o Jong PSV não passou de um empate por 2 a 2 com o Sparta Rotterdam, na primeira rodada. Há possibilidades de convivência. Até porque os grandes não participam do acesso.
Vexaminoso
É impossível deixar de comentar: após o vexame do Utrecht, o Vitesse permitiu a eliminação para o Petrolul Ploiesti, da Romênia, na terceira fase preliminar da Liga Europa. Tendo empatado fora de casa, tendo buscado o empate na volta, em Arnhem, mas permitindo o gol da vitória romena aos 50 minutos do segundo tempo.
Antes, pelo menos, os clubes holandeses alcançavam as últimas fases preliminares das competições europeias. Faziam a lição de casa, vencendo de clubes mais fracos e perdendo dos mais fortes. Agora, nem isso. Tempos difíceis. Muito difíceis. E em nada colaboram vexames como o do Vitesse, como bem reconheceu Theo Janssen após a derrota: “É uma vergonha, é para ficar decepcionado demais”. Disse tudo.



