Holanda

Goleadas e más atuações colocam Ajax em fase díficil

É óbvio que perder para o Barcelona, na Liga dos Campeões, era algo esperado até pelo mais otimista torcedor do Ajax, mas a equipe esperava compensar fazendo um bom jogo contra o PSV, no domingo passado, pelo Campeonato Holandês. E havia razões para supor isso. Um clássico, com a equipe mantendo um retrospecto de quatro anos sem derrota em Eindhoven (desde o bom 4 a 3 do turno da temporada 2009/10), uma equipe jovem, enfim, esperar por uma vitória era até natural.

O time até atacou bastante no primeiro tempo, após um bom início do time da casa. Porém, perdeu algumas chances. E se arrependeria amargamente após o que ocorreu entre os oito e 23 minutos do segundo tempo. A partir do momento em que Memphis Depay cruzou a bola para a área, da esquerda, aproveitando rebote, e Kenneth Vermeer falhou ao tentar agarrá-la sem soltar, deixando-a nos pés de Tim Matavz, que abriu o placar, a sorte do jogo estava selada.

Uma onda de ataque do PSV, somada à falta de confiança que acometeu Vermeer, facilitou a construção do 4 a 0 final. As boas atuações de Jetro Willems, Stijn Schaars, Oskar Hiljemark e Park Ji-Sung, com contragolpes rápidos, pegou de surpresa a defesa do Ajax. Afinal, o time de Frank de Boer atuava como sempre: pressionando no campo de defesa adversário. E a jogada do quarto gol mostrou perfeitamente como manter esse estilo foi algo suicida: ao se cuidar para não ficar em impedimento, Park teve uma metade inteira de campo livre para chegar à área e tocar na saída de Vermeer. Mais do que isso, até o árbitro Bas Nijhuis chegou à área antes da defesa.

Claro, goleadas inesperadas num clássico acontecem. E o Ajax não será time de mudar seu esquema e se tornar defensivo de uma hora para outra – o que é até um mérito, dependendo do ponto de vista. Mas que o time vive uma crise que já não lhe acometia há muito tempo, isso é inegável. Levar 4 a 0 do Barcelona, tudo bem. Mas ser goleado pelo PSV, em baixa após a derrota para o Ludogorets, da Bulgária, pela Liga Europa, é algo para se preocupar. E enfim, o estilo tradicional (4-3-3, posse de bola, ataque marcando a saída de bola adversária, uso massivo dos jogadores da base etc.) recebeu os primeiros ataques.

O mais virulento talvez tenha vindo de Nico Dijkshoorn, colunista da revista “Voetbal International”. No texto publicado na edição desta semana, Dijkshoorn não poupou críticas a uma aparente falta de personalidade dos jogadores do time de Amsterdã: “Frank de Boer escolheu pelo coletivo, que é incrivelmente chato, e nunca opta pelo individualismo brilhante. Driblar quatro jogadores sozinho merece prisão perpétua. Ter personalidade é uma desvantagem. Ter autoconfiança pode ser fatal. A autoestima é suprimida. Todas as coisas que fizeram o Ajax ser o que ele era até há quinze anos desapareceram sob Frank de Boer”.

Por um lado, é sempre agradável ver alguém desafinando o coro dos contentes (que no caso holandês, elogiava constantemente a volta do Ajax ao seu tradicional estilo de jogo), apontando falhas e levando a discussões que podem ser úteis, se feitas por quem sabe do assunto. Por outro lado, fosse um técnico adepto da linha do “eu ganhei, nós empatamos, eles perderam”, Frank provavelmente teria queimado um sujeito que virou o bode expiatório de todas as reclamações: Kenneth Vermeer.

O goleiro do Ajax, de fato, não é o mais confiável que há no país. Aliás, sua falha no primeiro gol do PSV pode ter influenciado na pré-convocação de Louis van Gaal para os jogos contra Hungria e Turquia, pelas eliminatórias para a Copa do Mundo: Vermeer, frequente nas listas de Van Gaal, não foi lembrado entre os três goleiros, abrindo espaço para a volta de Tim Krul (junto ao titular Vorm e Zoet). Mas, definitivamente, fica longe do frangueiro a que tentaram relegá-lo. Até porque já teve algumas performances elogiáveis na carreira.

De todo modo, após domingo, imprensa esportiva e torcida começaram a cogitar seriamente a possibilidade de Vermeer perder lugar para Jasper Cillessen debaixo das traves. Até porque, pelo hábito, Cillessen começaria como titular o jogo contra o Volendam, pela terceira fase da Copa da Holanda, na última quarta. Aliás, partida que trouxe novas dificuldades ao Ajax: atormentado pela ótima atuação de Robert Mühren, autor de dois gols (e sobrinho do ex-meio-campista Gerrie Mühren, falecido na última quinta, que atuou pelas duas equipes e foi homenageado antes da partida), só na prorrogação os Ajacieden fizeram o 4 a 2 que os levou à próxima fase.

Neste fim de semana, o Ajax segue seu caminho na Eredivisie, enfrentando o Go Ahead Eagles, no sábado. Frank de Boer nada disse sobre alterar o goleiro. Nem sobre mudar o estilo de jogo da equipe. E talvez seja o mais correto a se fazer. O golpe sofrido contra o PSV foi duro, mas foi um golpe. É hora de levantar a cabeça e seguir em frente.

Só para constar

Na pré-convocação de Van Gaal mencionada, Nigel de Jong e Gregory van der Wiel retornaram à Laranja. A ver se ficam na lista final de 23 jogadores.

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