Fraquejando de novo

Aparentemente, o Anderlecht já havia conseguido uma grande reação, durante a temporada. E ela havia sido dura. Afinal, mesmo como favoritos ao bicampeonato belga, os Mauves sofreram uma dura eliminação na terceira fase preliminar da Liga dos Campeões, perdendo para os nervos contra o Partizan, tendo desempenho paupérrimo na decisão por pênaltis, em pleno Parc Astrid. Até recuperar-se do trauma, a equipe teve de se esforçar para superar Racing Genk e Gent.
E, quando 2010 terminou, aparentemente, o time de Ariël Jacobs estava restabelecido como o favorito destacado para o título da Jupiler League. Não só era líder, como tinha uma segura vantagem de seis pontos para o Racing Genk, descontados os jogos atrasados. Além disso, jogadores-chave para a equipe, como Boussoufa e Lukaku, voltavam a render bem – para não dizer do goleiro Silvio Proto, que poderia quebrar um recorde (como, de fato, quebrou, conforme a coluna falará mais tarde). E parecia que o time voltava a navegar em mares mais tranquilos. Parecia.
Porque bastaram alguns tropeços para que a equipe, novamente, se visse em meio a alguns problemas. Tropeços até inesperados. Por exemplo: na 24ª rodada do Campeonato Belga, o time viu o Mechelen empregar um esforço muito grande para segurar o 0 a 0. Enquanto isso, o Racing Genk vencera o Zulte Waregem, por 1 a 0, fora de casa. Ou seja, a diferença caía para quatro pontos. Ainda era uma vantagem, mas não tão segura quanto a anterior.
Pior: um dia antes da partida contra o Malinwa, Ariël Jacobs simplesmente paralisou o treinamento, por estar absolutamente descontente com a falta de concentração dos jogadores. E o treinador dos Paars-wit foi curto e grosso em sua justificativa: “Algumas vezes deve-se entender. Ninguém subestimou o adversário, mas eu vi pouca qualidade. Eu acho que o recado foi dado. Quando você joga pelo Anderlecht, precisa se dedicar a cada dia. Caso contrário, nós cortaremos uma parte do salário. Simples assim.”
Duas vitórias conseguiram adiar o problema, contra Sint-Truiden e Cercle Brugge. A impressão era de que continuava tudo bem. Até porque, ao passar 809 minutos sem tomar gol no campeonato, Silvio Proto bateu o recorde de invencibilidade de um arqueiro dos Mauves na temporada (o detentor anterior da marca era Jean Trappeniers, em 1967). Não impressiona, portanto, que o nativo de Charleroi tenha retomado a titularidade na seleção da Bélgica.
Só que essa invencibilidade acabou porque o Westerlo abriu o placar, com Sacha Iakovenko convertendo pênalti. Pior: aos 32 minutos, Dieter Dekelver fez 2 a 0. O Racing Genk, por sua vez, venceu o Mechelen. E pronto: estava pulverizada a vantagem que o Anderlecht havia construído. Além de igualar-se nos 60 pontos, o Genk tornava-se líder da Jupiler League, pelo maior saldo de gols.
Caso o Anderlecht estivesse disputando seriamente uma vaga nas oitavas de final da Liga Europa, o impacto da perda da liderança poderia até ter sido amenizado. Não o foi. Porque, no jogo de ida da segunda fase, na quinta anterior, o Ajax havia sido o dono da partida. Impôs seu ritmo, em pleno Constant vanden Stock. Fez 3 a 0, e poderia ter feito mais. A mesma coisa ocorreu na volta: um 2 a 0 simples em Amsterdã. Ter caído nem foi tanta surpresa. O problema, para o Anderlecht, foi ter caído sem oferecer a menor resistência a um time de nível técnico parecido.
Vendo o cenário de incerteza retornar, o Anderlecht, agora, tem a obrigação de voltar a vencer no Campeonato Belga, para poder retomar a liderança. Até porque o próximo rival é exatamente o Racing Genk, em 4 de março (a Jupiler League só terá a realização de dois jogos atrasados neste final de semana). É uma boa oportunidade de matar a crise no nascedouro.
A esperteza comeu o esperto
Stijn Stijnen já era relativamente conhecido por sua personalidade, digamos, controversa. Uma amostra disso: ainda enquanto titular da seleção da Bélgica, em março de 2007, antes de um jogo contra Portugal, pelas eliminatórias da Euro 2008, o goleiro dissera que Cristiano Ronaldo deixaria o jogo de maca após dois minutos, pelas faltas que a defesa dos Diabos Vermelhos lhe faria. Teve de pedir desculpas ao atacante, suportar uma goleada por 4 a 0 dos Tugas, e ainda pagar uma multa.
Depois, Stijnen voltou a dar mostras de seu caráter temperamental quando teve a titularidade na equipe belga tirada por Dick Advocaat, tão logo o holandês assumiu o comando da equipe. Bastou para que, poucos dias depois, ele anunciasse sua aposentadoria da seleção.
E, recentemente, o goleiro começou a agir, novamente, de maneira impensada. Há algum tempo, ele perdera a titularidade no gol do Club Brugge para o jovem Colin Coosemans – que alterna posição com o veterano Geert de Vlieger. Pouco depois, fóruns de discussão na Internet sobre os Blauw-en-Zwart começaram a exibir críticas ácidas em relação ao ambiente no clube e a alguns jogadores. O autor das mensagens estava no anonimato.
O que não se sabia era que o clube iria atrás do autor das mensagens, através dos endereços de IP. Conclusão: quem estava por trás dos recados virulentos era Stijnen, além de sua namorada e seu irmão Steven. Só restou ao clube rebaixar o goleiro à sua equipe B. E, nesta semana, a turbulenta história teve um fim: as duas partes decidiram pela rescisão de contrato.
Stijnen só não terá do que reclamar na questão financeira: receberá um milhão de euros, como pagamento dos dois anos de compromisso que ainda tinha. Mas é pouco para apagar a falta de inteligência que teve em suas atitudes. E que vão prejudicando uma carreira que poderia ter mais êxito.



