Holanda

Frank de Boer assume a seleção reverenciado por seu passado laranja, mas precisando se reinventar como técnico

A oferta do Barcelona a Ronald Koeman deixou a seleção holandesa / neerlandesa de mãos atadas. O antigo ídolo blaugrana havia recusado outras ofertas dos catalães e prometia seguir à frente da Oranje até a Euro 2020. Entretanto, o adiamento da competição continental e as necessidades do Barça levaram Koeman de volta ao Camp Nou. Por conta disso, a Holanda / Países Baixos precisou correr atrás de um novo comandante. E a fórmula se repete em partes, com a contratação de uma antiga lenda da seleção para assumir a casamata. Frank de Boer não vem de bons trabalhos como treinador, mas terá boas condições de se reerguer.

De Boer não era a prioridade da federação holandesa / neerlandesa. A intenção dos dirigentes era buscar um nome tarimbado. Frank Rijkaard preferiu não deixar a aposentadoria, assim como Louis van Gaal não era bem visto pelos jogadores. Peter Bosz e Erik ten Hag também mantinham seus compromissos com os clubes. Assim, o antigo capitão da Oranje surgiu como o nome mais factível. A péssima sequência na carreira como técnico trazia justas reticências, mas seu vínculo com a seleção e a falta de outra opção melhor falaram mais alto.

Frank de Boer trabalhou como assistente de Bert van Marwijk na seleção neerlandesa / holandesa e compôs a comissão técnica durante o vice-campeonato mundial em 2010. Logo depois daria seus próprios passos e faria um trabalho expressivo no Ajax, levando os Godenzonen de volta ao topo da Eredivisie. Em cinco anos e meio na Johan Cruyff Arena, foi tetracampeão nacional e revelou talentos. Não à toa, virou um nome forte a ligas maiores da Europa. Quando teve a chance de dar esse salto na carreira, todavia, De Boer fracassou retumbantemente.

O trabalho na Internazionale durou 14 partidas, sem sair do lugar. Encarregado de uma reformulação, o técnico se tornou o primeiro sinal do que estava sendo feito de errado. No Crystal Palace, um vexame pessoal, com quatro derrotas em cinco jogos servindo para que o treinador fosse enxotado logo de cara na Premier League 2017/18. Depois disso, De Boer dificilmente ganharia outra chance nas principais ligas europeias e se mudou à MLS. Assumiu um projeto pronto no Atlanta United, sucedendo Tata Martino. Durou um ano e meio na Geórgia, sem repetir o nível de desempenho em 2019, antes de acumular derrotas na volta da pandemia e perder o cargo.

Na seleção, as condições oferecidas a Frank de Boer são ótimas. Ronald Koeman também assumiu o time sem o maior dos prestígios, mas transformou o espírito do time que havia se ausentado das últimas competições internacionais e aproveitou bem a geração que eclodiu em suas mãos ao longo dos dois últimos anos. A Oranje fez ótimo papel na Liga das Nações e conquistou a vaga na Euro 2020 sem riscos. Koeman preferiu realizar seu sonho no Barcelona, mas há uma base clara na Holanda / Países Baixos, como os compromissos recentes indicaram. A questão é se isso não se perderá com o novo técnico.

O passado de Frank de Boer como jogador na seleção fala por si. Foi capitão, disputou duas Copas do Mundo, alcançou três semifinais de Euro. Tem respaldo por isso e deve contar com o respeito dos jogadores. Mas seus recursos como técnico geram desconfianças. Primeiro, para aproveitar o equilíbrio que Koeman deu ao time, com peças importantes em todos os setores. Embora o novo comandante goste de um jogo mais controlado, as peças à disposição pedem agressividade. Depois, para que sua própria personalidade não cause problemas, considerando os momentos intempestivos em seus últimos clubes. De Boer sabe que precisa se recolocar.

Os compromissos mais esparsos podem ajudar De Boer na relação com os jogadores. Mas, claro, haverá cobranças por resultados diante daquilo que assume. A Liga das Nações garante testes de peso para se adaptar e conhecer os atletas. A prova de fogo virá em menos de um ano, com a Eurocopa. Até pela quantidade de bons jogadores à disposição, espera-se que a Holanda / Países Baixos faça uma campanha relevante para se redimir dos insucessos anteriores. Será o meio do caminho a De Boer, com contrato até dezembro de 2022, colocando também a Copa do Mundo como objetivo.

Frank de Boer tem vários requisitos para se imaginar um bom trabalho. Pega um caminho em construção, já trabalhou com alguns jogadores, tem identificação com a seleção, tem uma história grandiosa. O problema é mesmo o que se verá no campo, e aí está o ponto em que o novo técnico passa menos segurança. Os riscos são evidentes, e a federação parece consciente disso. Se der certo, porém, será bem bacana ver essa relação se construir – pelo passado de De Boer e por sua própria redenção, deixando de lado a imagem de fracasso depois dos desastres em Milão e Londres.

Vale conferir também o texto do Espreme a Laranja, do amigo Felipe dos Santos Souza, sobre a chegada de Frank de Boer à Oranje.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo