Holanda

Fortes emoções

A seleção da Holanda tem duas rivalidades que podem ser consideradas “fortes” – embora não cheguem nem perto de Brasil e Argentina, para ficar no grande exemplo. Uma delas é com a seleção da Alemanha: o Nationalelf é visto pela Oranje como o “grandão”, o fortão que deve ser desafiado e vencido pelo mais fraco. Além do mais, há a história da invasão dos nazistas a Amsterdã, durante a Segunda Guerra Mundial.

A outra seleção considerada como adversária “de fato” é a Bélgica. Não é nada que invada o campo histórico. Trata-se de típica rivalidade entre vizinhos. Se é para comparar, lembra aquelas histórias de “turma da rua de cima contra a turma da rua de baixo”, que decidem resolver suas diferenças de várias maneiras. Não impressiona que os Diabos Vermelhos sejam a equipe contra quem a Oranje mais jogou, em sua história de 107 anos. Agora, são 125 partidas.

Está certo que foi um inofensivo amistoso, este da última quarta, em Bruxelas. No entanto, o jogo deixou marcas importantes, que devem ser levadas por ambas as seleções ao longo das eliminatórias para a Copa de 2014. A mais importante, talvez, vá para a equipe de Louis van Gaal. Ela terá de achar uma maneira de equilibrar ataque e defesa.

Na entrevista coletiva antes da partida, Van Gaal confirmou que o 4-3-3 velho de guerra voltaria a ser utilizado, após cinco anos (pode-se dizer). E explicou sua escolha: “Vocês poderão ver um estilo mais ofensivo do que o usado”. Prova disso foi vista na escalação: apenas Nigel de Jong era predominantemente marcador no trio do meio-campo, enquanto Sneijder e Van der Vaart – este, fazendo o 100º jogo pela seleção – armavam o jogo.

Nas laterais, a única surpresa maior: Van der Wiel foi deixado de fora da convocação final, para a estreia de Ricardo van Rhijn, que no início de 2012, só tinha uma partida na equipe profissional do Ajax (e nem é tão “criança” assim: 21 anos). Na esquerda, Jetro Willems ganhou mais uma chance, por Erik Pieters estar fora de ritmo. E, finalmente, no ataque, Luciano Narsingh foi escolhido, pela maior movimentação ofensiva – coisa que Dirk Kuyt não possui, definitivamente.

No papel, tudo bem. No gramado do Rei Balduíno, o que se viu no primeiro tempo foi uma equipe que até se segurou, por algum tempo, mas que permitiu os avanços belgas pelas pontas. Como no primeiro gol dos anfitriões, em que Mirallas veio pela esquerda e cruzou para Benteke. A este, bastou cortar Mathijsen, que passou lotado, e bater para o gol.

No segundo tempo, já não seria digno fazer análises profundas. Afinal, quatro jogadores estrearam na seleção adulta (De Vrij, Viergever, Martins Indi e Maher), e o time mudou. Só se poderia dizer que o ataque se mostrou menos tímido do que no primeiro tempo – até por isso, veio a virada. Mas que as falhas defensivas resultaram na justa vitória belga, com um 4 a 2 – lembre-se, a primeira vez que a Holanda tomou quatro gols numa partida desde 4 de setembro de 1999, num 5 a 5 contra a… Bélgica.

E diga-se: as falhas não foram do sistema defensivo como um todo. Foram de jogadores. No segundo gol belga, De Jong perdeu a bola no meio-campo e permitiu o contra-ataque; no terceiro, Stekelenburg rebateu nos pés de Mertens, que deixou Lukaku livre para virar novamente, fazendo 3 a 2. E Van Gaal notou isso, na coletiva pós-jogo: “Cometendo uma falha pessoal, você perde um jogo. Mas tudo bem, isso acontece no futebol.” Correto: tudo bem que já é a quarta derrota seguida da Holanda (algo que não acontecia desde 1954, num sequência que incluiu duas derrotas para a… Bélgica), mas dá para consertar.

Fica, enfim, a lição para Van Gaal: conseguir dar a ofensividade que se espera de uma seleção holandesa, sem esquecer dos ensinamentos da importância da defesa, deixados por Bert van Marwijk. E ele tem à sua disposição uma geração que deu os primeiros passos sob seu comando (no Mundial sub-20 de 2001, Van Gaal tinha Heitinga, Robben e Van der Vaart no time). Se fizer tudo isso, e conseguir controlar a inflexibilidade tática e o vício de tratar jogadores como crianças, LvG deverá cumprir o desafio de levar a Oranje ao Brasil.

E os Diabos, chegarão ao paraíso?

A coluna já disse: sempre que julgar apropriado, o futebol belga voltará a ser assunto. E já volta agora, apenas uma semana depois da coluna virar exclusivamente “holandesa”. Porque, se havia alguma dúvida de que a geração atual parece estar no ponto para enfrentar bem as eliminatórias da Copa, não há mais.

Marc Wilmots, remanescente dos bons tempos em que a Bélgica costumava aparecer em Mundiais (aliás, por que não?, o último jogador que teve atuações realmente boas pela seleção rubra), criou um esquema que pode ser interessante. No seu 3-4-3, o trio de zagueiros pode ser considerado satisfatório. Ou alguém questiona o valor de Vertonghen, Vermaelen e Kompany – ou ainda Van Buyten?

No meio, Defour, Witsel e Gillet formaram um trio que deixa Hazard relativamente livre para fazer a armação (coisa na qual o reforço do Chelsea foi bem discreto, diga-se de passagem, no amistoso). E, no ataque, há as opções de Chadli, Benteke, Mirallas, Lukaku… no gol, Courtois pode até ser promissor, mas não é titular absoluto, tendo de disputar a vaga com Mignolet – este, subestimado, diga-se de passagem.

No entanto, se é para apontar gente que mudou o jogo rumo à vitória, é melhor falar de Dries Mertens. O atacante do PSV entrou com tudo no segundo tempo. Lembrou os seus melhores momentos: foi um azougue pela direita, infernizou a vida de Martins Indi. Kevin de Bruyne e Dembélé entraram bem, também. E, na defesa, Vertonghen deu uma mostra do que pode fazer: sem a obrigação de liderar o time (Vermaelen era o capitão), o reforço do Tottenham mostrou técnica na zaga, e foi ao ataque com segurança, conseguindo o quarto gol.

Portanto, é muito justo que a torcida belga tenha lotado o Rei Balduíno. E que se espere muito desta seleção. Para que se tenha uma ideia, Jan van Halst, analista da emissora holandesa NOS, foi curto e grosso: “A Bélgica deixou uma impressão muito boa, mesmo sem Kompany e Fellaini no time. Será quase um escândalo, caso ela não se classifique para a Copa”.

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