Holanda

Flor no meio da guerra

Internamente, o Ajax já vive mergulhado em crises não é de hoje. Pode-se dizer que a turbulência se iniciou no período sob a presidência de John Jaakke. Depois, houve o “Relatório Coronel”, no qual o então diretor Uri Coronel recomendava mudanças no clube. Nessa época (entre 2003 e 2008, os anos da gestão de Jaakke), o clube da estação Bijlmer Arena sofreu em campo – tendo como lembranças dolorosas as eliminações nas fases preliminares da Liga dos Campeões, para Kobenhavn e Sparta Praga.

Johan Cruyff, então, voltou a ficar mais próximo da vida na Amsterdam ArenA. Primeiro, na natimorta parceria com Marco van Basten para reformular as categorias de base do clube. Mas, no final de 2010, o “Nummer 14” passou a usar suas tribunas para pedir, por exemplo, participação maior dos ex-jogadores nos destinos do clube, ou maior atenção à frutífera base que sai de De Toekomst. E pode-se dizer que sua participação foi fundamental para o início da reformulação por que passam os Ajacieden, coroada com o título holandês na última temporada.

Mas sabe-se há muito tempo que Cruyff é um sujeito dificílimo. Alguém próximo do irascível, que não suporta alguém lhe dizendo o que fazer – ou fazendo as coisas diferentes da sua vontade. Pois bem: está acontecendo de novo. Oficialmente de volta ao Ajax, como membro do Conselho Deliberativo, “Jopie” está às turras com alguns colegas. E a razão da briga é absolutamente simples: guerra de egos.

Tudo começou quando o conselho recomendou a contratação de um diretor técnico para o Ajax. Coisa de que Cruyff discorda veementemente: “Não há lugar para isso”, opôs-se, em declaração ao programa de TV da revista “Voetbal International”. Tentou-se a contratação de Van Basten para o cargo. Não deu certo. Recomendaram que Cruyff voltasse a ser um consultor informal – e ele recusou.

Até que veio o estopim: em 16 de novembro, o conselho decidiu contratar Louis van Gaal para ser o diretor técnico dos Godenzonen, a partir de julho de 2012, quando o treinador fica desobrigado do vínculo que ainda tem com o Bayern Munique. Não podia dar certo: Cruyff e Van Gaal são inimigos figadais, desde meados da década de 1990. Ambos treinavam Barcelona e Ajax, respectivamente, e trocaram várias alfinetadas desde então.

Com o sensível ego ferido, Cruyff engrossou a voz contra quatro membros do Conselho: o presidente Steven ten Have, Marjan Olfers, Paul Römer e Edgar Davids (é, ele mesmo), que teriam decidido a contratação de Van Gaal em reunião sem a sua presença. Assim que soube, vociferou para a emissora de TV NOS: “Eles ficaram doidos!” Mais calmo, manteve a acidez: “É muita coincidência que, do nada, se marque uma reunião do Conselho Deliberativo para o dia seguinte. Eu voltei para Barcelona na terça, e, na quarta, recebi um e-mail às 11 da manhã, onde dizia que haveria uma reunião às quatro horas da tarde. Lógico que eu não podia estar mais lá.”

E a briga se aprofundou quando Davids revelou que, durante uma reunião, um membro do Conselho teria dito que o jogador de 38 anos só estaria ali por ser negro. Depois, Steven ten Have confirmou que Cruyff seria o autor da frase. Nova polêmica, e Davids imediatamente tentou apagá-la, dizendo que não afirmava que Cruyff era racista, e a frase teria saído no calor do momento. Em sua coluna no jornal “De Telegraaf”, Cruyff negou que tivesse cometido tal frase. Mas nem esses panos quentes ajudam a situação já dramática do Conselho.

No campo, o cenário também tinha tudo para ser dramático. Porque o time de Frank de Boer faz uma campanha bastante mediana na Eredivisie: é o quarto colocado, dez pontos atrás do líder AZ. As duas partidas deixaram marcas ruins. Primeiro, a incrível derrota para o Utrecht; depois, na última rodada, o empate com o NAC Breda, que perdia por 2 a 0 na ArenA até os 40 minutos do segundo tempo.

Só que o time tinha um jogo mais importante: contra o Lyon, no meio de semana, um ponto poderia deixar a equipe em grandes condições de sonhar com a classificação para as oitavas de final da Liga dos Campeões. A partida no Gerland foi até monótona, mas, nos quinze minutos finais, o OL foi com tudo em busca da vitória. Não conseguiu pelo ótimo dia da defesa: Vertonghen vai se revelando, cada vez mais, merecedor de observação por um grande centro do futebol. E Vermeer fez defesas milagrosas nos últimos minutos.

E com o 0 a 0, o Ajax chega à última rodada tendo grande vantagem no saldo de gols em relação aos Gones. Tal vantagem pode valer a sobrevivência ao inverno, como se diz na Holanda. E bom seria se, além de significar o retorno às oitavas de final de uma Liga dos Campeões, também servisse para esfriar os ânimos quentíssimos na problemática vida interna do clube.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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